Do beiju ao tapiocão 

Em: 25 de outubro de 2026
Montagem diferenciada da iguaria ajuda a tornar experiência de consumo mais marcante Foto: Evaldo Ferreira)

Sabia que a tapioca solicitada por você todas as vezes que vai a um café regional já era consumida pelos indígenas da Amazônia há alguns milhares de anos e era um dos itens de seu cardápio diário?

Sabia, também, que mesmo a macaxeira que consumimos (macaxeira mansa) cozida ou frita, ou que é transformada em goma para a produção das tapiocas contém cianeto, um veneno poderoso, que some quando ela é cozida ou frita?

Quanto à macaxeira brava, não se sabe como, os indígenas desenvolveram um método para descascar e ralar a raiz, prensar e decantar a massa, separando o líquido venenoso da fécula e eliminando o ácido cianídrico. Dessa massa (fécula) eles faziam o beiju, criação dos tupi-guarani, que ainda deram nome ao produto: tapi’og (coágulo).

Era de competência das mulheres (dos troncos linguísticos tupi e macro-jê) preparar grandes beijus em tachos ou chapas de cerâmica sobre o fogo, depois divididos e consumidos abertos ou em grandes porções compartilhadas coletivamente, como base fundamental de subsistência,

Não se sabe quando essa comida indígena se tornou um hábito entre os manauaras, mas é recente. Quem, há 40 ou 30 anos, comia tapioca no café da manhã em casa, e mesmo em cafés regionais, que ainda nem existiam? O máximo que se consumia era a macaxeira, cozida ou frita. Hoje, qualquer mercadinho vende pacotes de um quilo de goma de tapioca e é tão fácil preparar uma redondinha em casa, que o mais ignorante no fogão consegue fazer uma. Vale lembrar que esse formato pequeno e redondo é herança nordestina (com coco também), e dobrá-la era para que pudesse receber recheios.

Fez de outra forma

Em Manaus, uma cafeteria ganhou fama pelas tapiocas gigantes que faz, não do tamanho preparado pelas mulheres indígenas do passado, mas que igualmente impressionam. É o Café Regional Naíza, da empreendedora Naíza Serrulha Castro que, há 14 anos, na rua Barão de Jacuí, 58 – Parque Laranjeiras, já tem uma clientela fiel.

“Eu trabalhava com vendas, mas tinha vontade de empreender. Um dia, ao passar ali na esquina, aqui próximo, junto com o meu marido, tinha um prédio com a placa de ‘Aluga-se’. Disse para meu marido que gostaria de montar uma cafeteria ali. Meu marido duvidou e perguntou: você encararia um café regional aqui? E eu lhe respondi que sim. Fomos lá, tiramos a placa de ‘Aluga-se’ e abrimos a cafeteria ‘Sabores da Amazônia’, que depois mudei para Café Regional Naíza”, contou.

Para se destacar frente aos concorrentes que estavam na região, Naíza buscou um diferencial nos seus produtos. Viu o que os concorrentes tinham no cardápio, e fez de outra forma.

“Como todo mundo gosta do X-Caboquinho, lancei a tapioca com os recheios do X-Caboquinho: queijo coalho, banana pacovã frita e lascas de tucumã. Mas muitas cafeterias fazem isso, então coloquei castanha na goma, para ficar diferente. E caiu no gosto popular. É o item mais vendido aqui na cafeteria”, disse.

Um detalhe, decorando as tapiocas, pequenas borboletas feitas de banana.

“Procuro personalizar cada um dos meus produtos e é isso que atrai a curiosidade do cliente”, ensinou.

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Tapiocão do Café Regional Naíza serve até quatro pessoas
(Foto: Divulgação)

Mas a marca registrada do Café Regional Naíza é o tapiocão.

“Temos tapiocas de dois tamanhos: a reduzida, com 24 cm de diâmetro, que serve duas pessoas; e o famoso tapiocão, com 35 cm de diâmetro, que serve quatro pessoas. Essa daqui é que fez a cafeteria ficar conhecida. E tem mais uma criação minha, também bem solicitada: a tapioca com borda de queijo. Só aqui temos esse diferencial. Se a pizza com borda faz sucesso, por que uma tapioca com borda também não faria? Pensei, e não é que deu certo”, afirmou.

400 kg de goma

No Amazonas não se mede o total da produção da goma da mandioca, mas sim da raiz. O Estado figura entre os grandes produtores da Região Norte, com uma estimativa de colheita da raiz de mandioca superior a 782 mil toneladas anuais. Desse total, de acordo com Naíza, 400 kg/mês (só de goma) vão para sua cafeteria para serem transformadas na cobertura para mais de 20 opções de recheios, da tapioca simples, com manteiga, até à ‘Tudão’, que leva filé, tucumã, queijo, banana pacovã, presunto, ovos e castanha.

“Os recheios mais solicitados são tucumã e queijo. Usamos, em média, por mês, 200 kg de polpa de tucumã e 900 kg de queijo. O manauara gosta tanto de tucumã dentro da tapioca que quando na entressafra o produto fica escasso, e às vezes falta, tem cliente que não come outra coisa se não tiver tucumã na tapioca”, revelou.

A banana pacovã também não fica atrás em termos de sucesso, entre os manauaras. São consumidos cerca de 450 cachos por mês no Café Regional Naíza, dessa fruta que não é amazônica, mas foi adotada por aqui.

Uma segunda unidade do Café Regional Naíza pode ser encontrada na av. do Turismo, 2951 – Tarumã.

“Com certeza hoje o café regional se tornou um ponto de encontro de todo manauara, e a tapioca um dos itens mais solicitados”, finalizou.

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Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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