Do lojista ao fabricante, alta do dólar exige astúcia na venda de cosméticos

Em: 17 de setembro de 2018
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A inesperada alta do dólar em mais de 17% de abril a junho atingiu em cheio o setor de cosméticos. Lojas que vendem itens importados e empresas que trabalham com matéria-prima de fora têm sido obrigadas a realizarem mudanças que vão desde a diminuição no volume de produtos até reduzir a margem de lucro para evitar perder o cliente.

A Bioage, fabricante nacional de cosméticos que utiliza matéria-prima e embalagens importadas, optou por não fazer o repasse aos clientes e, ao invés disso, minimizar o lucro obtido com a venda dos produtos. “Fazemos um ajuste anual de 5% e procuramos trabalhar com essa margem sem aumentar os preços e mexendo no volume de produtos com insumos mais caros”, explica a gerente técnica e de inovação, Clelia Reis.

Assim como a Bioage, a Bel Col, que trabalha com grande parte da matéria-prima importada, preferiu diminuir o lucro e manter o preço, que sofre aumentos anualmente de acordo com a inflação. Para a diretora da empresa, Marilene Coelho, fazer repasses é mais prejudicial do que receber menos em relação ao custo de produção: “É bem ruim para nós quando os preços aumentam demais, o que tentamos fazer é garantir valores nas negociações.”

Manter a tabela de preços apesar da alta do dólar foi uma decisão estratégica do Grupo Vitor Studio, dono de marcas como Avenca e Lola Cosmetics, que estipulou um aumento de 300% nas vendas. “Temos certeza que, por termos mantido os valores, conseguiremos bater essa meta, apesar de sabermos que, mesmo assim, o objetivo de faturamento deste ano não será alcançado”, esclarece Teodoro Malta Campos, diretor de negócios da Felps, uma das marcas do grupo. Segundo o executivo, o intuito era crescer 100% em faturamento, no entanto, o número agora gira em torno de 70%.

Solucionar o problema sem aumentar o preço é uma das opções viáveis, mas, em determinados casos, para manter a margem de lucro anual, algumas companhias observam apenas um caminho, que é repassar os valores ao consumidor. Este é o caso da Mutari, que utiliza 95% da matéria-prima oriunda de outros países.

“Tivemos esse ano impacto de aproximadamente 30% com a alta do dólar nos nossos produtos e nos vimos obrigados a realizar um repasse de 7% no preço final”, comenta o presidente, Olindo Batistelli, acrescentando que o ajuste de valores dos produtos é realizado semestralmente, diferente da Bioage e Bel Col. Três das quatro fabricantes trabalham com vendas diretas além da comercialização por meio de representantes. Somente o Grupo Vitor Studio não tem intenção de expandir as vendas diretamente para o consumidor final. No caso da Mutari, o comércio online iniciou há apenas um ano e meio e representa 5% do faturamento total. Além disso, é o setor que mais cresce dentro da empresa, segundo Batistelli.
Na rede MakiBella Cosméticos, formada por duas lojas próprias, o total de marcas importadas é de 25%, no entanto, por comprarem os produtos em grande quantidade para deixar em estoque, a alta do dólar não impactou na precificação nem no lucro.

“Não tivemos menos ganho com os importados porque as pessoas que costumam adquirir de fora também estão pagando mais caro e preferem comprar conosco”, esclarece a presidente da rede, Adriana Santos. César Tsukuda, diretor da Beauty Fair, maior feira do setor de beleza do Brasil, analisa que subir preços de forma especulativa por conta do câmbio é uma das maiores dificuldades que as empresas podem enfrentar.

“O dólar de hoje é um dólar irreal, e precificar o produto neste momento é bem difícil porque precifica-se para frente baseado em uma condição atual sendo que se tem certeza de que ele não ficará nesta condição”, estima. Otimismo no setor Embora o cenário cambial não seja um dos melhores, todas as cinco empresas afirmaram estarem otimistas para os próximos anos, principalmente com a aproximação das eleições. “Acredito que com um governo que traga confiança do mercado e dos investidores, o capital externo volte ao Brasil e a economia passe a crescer novamente”, finaliza Batistelli.

“O otimismo vem do fato de que existem ciclos econômicos e, geralmente sempre que sai um presidente muito pregado a um ciclo econômico ruim, logo em seguida acontecem crescimentos, e estamos em um movimento de começar a subir novamente” examina Tsukuda, acrescentando que o setor tende a melhorar

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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