Economistas avaliam primeiros pronunciamentos e decretos no início do governo Lula

Em: 4 de janeiro de 2023
Financiamento imobiliário dispara, mas alta de juros e desemprego são alerta

Como já era antecipado no período de transição, o terceiro governo Lula começou cercado de desconfiança dos agentes econômicos brasileiros. O termômetro mais óbvio é a Bolsa de Valores. Nesta segunda, o Ibovespa fechou em queda de 3,06%, após as altas das duas semanas anteriores. O dólar foi na direção contrária e se fortaleceu em 1,52%. Mesmo no setor produtivo, que tende a olhar mais para o longo prazo, a incerteza ainda é uma constante, assim como a tendência de refrear investimentos até segunda ordem. 

Um dos pontos críticos seria o anúncio da revogação do teto de gastos, sem substituto à vista. A ênfase no papel de empresas públicas e a revogação de atos que davam andamento a privatizações também não ajudou, assim como a prorrogação da desoneração dos combustíveis e a nomeação de profissionais “sem muita experiência” para comandar bancos públicos. Nesta segunda (2), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reafirmou publicamente o compromisso do governo com o arcabouço fiscal e a sustentabilidade das finanças públicas, mas não deu os detalhes de como fará isso. Economistas ouvidos pela reportagem do Jornal do Commercio se dividem sobre a questão.

Enquanto isso, os analistas financeiros consultados pelo Boletim Focus do Banco Central pioraram suas expectativas para a macroeconomia brasileira em 2023, e nos próximos anos. Os dados divulgados nesta segunda (2) informam que as apostas para o IPCA deste ano foram elevadas para 5,31% – contra os 5,23% anteriores. Para 2024 e 2025, as projeções são que a inflação oficial pontue 3,65% e 3,25%, respectivamente. Diante disso, as estimativas de estabilidade da Selic, nos atuais 13,75%, foi corrigida para 12%, ao final de 2023. Para 2024 e 2025, a previsão é de uma taxa básica de juros em 9% e 8% ao ano, na ordem. As projeções para o PIB (+0,80%) e para o dólar (R$ 5,27), no entanto, não sofrera alterações significativas.

“Desconfiança generalizada

O presidente do Corecon-AM e do Sindicato dos Economistas, Marcus Evangelista argumenta que, como mais de 90% do PIB está comprometido com despesas correntes, romper o teto de gastos significa aumento de impostos, o que afasta investidores, joga mais inflação nos produtos e penaliza o consumidor. “A inflação tem vários fatores para aumentar e o governo fala em incentivar o consumo. Uma coisa puxa a outra e acredito que 2023 vai ser um ano desafiador, pois já estamos no limite e o que se diz é que esse limite vai aumentar. Temos um trade off na economia e precisamos entender qual será o mecanismo usado para atinger essas tratativas”, sintetizou.

Na mesma linha, o ex-presidente do Corecon-AM, Martinho Luis Gonçalves Azevedo, diz que “falta lógica e racionalidade macroeconômica” no que vem sendo anunciado pelo governo, até então. “Não é só questão do setor público, mas intervenção no setor privado. Quando se fala que ênfase vai ser no ‘social’, as coisas não ficam claras. Quando se diz que a Petrobras vai ter de mudar seu plano de negócios para se ajustar aos planos do governo, o investidor fica cauteloso e não vai reagir do jeito que o governo imagina. A própria insegurança do ministro em se posicionar sobre determinados assuntos também causa desconfiança generalizada”, emendou.

“Nenhuma surpresa”

A ex-vice-presidente do Corecon-AM, e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, lembra que todo início de mandato costuma ser cercado por incertezas e desconfianças, principalmente se o mercado for tomado como referência. Ela considera que o “freio ao processo de privatização defendido pela gestão anterior” não foi nenhuma surpresa em relação ao que foi “prometido nos palanques”. E diz que a prorrogação da revogação dos combustíveis também “não está muito longe da realidade social e econômica”, embora ressalve que há espaço para revisão.

“Em relação à gestão feminina à frente dos principais bancos públicos do país, deixo os meus aplausos, não somente por serem mulheres, mas por atuarem há décadas como funcionárias de carreira das instituições as quais irão presidir e penso que moldarão suas gestões a partir de um olhar técnico. Chamo a atenção para a necessidade de clareza por parte do ministro da Fazenda acerca das suas decisões, pois a incerteza e informações soltas ou incompletas causam insegurança ao mercado e aos investidores”, ponderou

A economista avalia que o ministério deve implementar metas a partir de um cronograma de curto, médio e de longo prazo, para evitar surpresas e impactos nos investimentos. E aponta que a revogação do teto de gastos também foi proposta pelo ex-presidente e candidato derrotado nas eleições de 2022. “A política fiscal deve ser o ponto central do governo, bem como o controle das contas públicas. Os novos gestores devem ter o compromisso de buscar o equilíbrio fiscal, com crescimento sustentável. O correto é buscar uma solução para reduzir os gastos e buscar alternativas para ampliar o investimento. Penso que esteja na hora de retomar a agenda de reformas, que no passado foram adiadas por questões políticas”, recomendou.

“Pura especulação”

O também ex-presidente do Corecon-AM, professor universitário e consultor empresarial, Francisco de Assis Mourão Junior, lembra que o mercado funciona com mensuração de riscos e concorda que o teto de gastos e o freio nas privatizações já estavam precificados. “A novidade é que, sob pressão, o ministro prorrogou o incentivo aos combustíveis, o que ele não queria. Mas, ainda é tudo pura especulação, do mesmo jeito que foi no primeiro governo Lula. Temos de ver quais serão as medidas, o pacto de Haddad na reforma Tributária, e como vai se comportar a economia neste primeiro trimestre.

A consultora empresarial, professora e integrante da seção regional da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia, Denise Kassama, diz que os temores do mercado são “naturais”, diante de todo o “processo alarmista” que antecipou a posse do novo governo e suas primeiras medidas. Ela considera também que as desonerações dos combustíveis foi um mecanismo “puramente eleitoreiro”, que armou uma “bomba para o governo seguinte”, além de comprometer os repasses às prefeituras. 

“Já essa questão do teto de gastos é uma questão para acomodar as políticas de assistência social prometidas pelo presidente.  Até ajustar a casa, demora um pouquinho. É um temor exagerado porque, embora seja um termômetro, o mercado ganha tanto na baixa, quanto na alta. Lembro que, no primeiro governo Lula, que equilibrou mercado e questões sociais, não houve fuga de capitais. O governo quer combater a fome e reduzir desigualdades, mas também vai privilegiar investimentos, pois estes geram empregos. Boa parte das políticas públicas deve ir nesse sentido”, concluiu. 

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar