O contágio da crise global na economia industrial amazonense produziu um desgaste das expectativas na manutenção do ritmo da oferta de trabalho para os próximos seis meses. Embora não admitam que a variação cambial tenha exercido impacto negativo em setores industriais tradicionalmente afeitos à exportação, as empresas não conseguem explicar o aumento de 18,72% nas demissões, as quais saltaram de 11.247 durante o período de janeiro a outubro do ano passado, para 13.353 neste ano.
O presidente da Aficam (Associação das Indústrias e Empresas de Serviços do Pólo Industrial de Manaus), Cristóvão Marques Pinto, concordou que a crise já atingiu o Estado e ameaça o contingente empregado pelo setor, que atualmente é de 40 mil de trabalhadores. Segundo o executivo, se confirmadas as estimativas de valorização do dólar, a escalada de demissões causada pelo alto custo da matéria-prima, falta de demanda e carência de capital de giro deve atingir pelo menos 3.500 operários não-temporários entre novembro e dezembro. “Nossos associados deixaram de contratar quase 5.000 pessoas, que deveriam compor o quadro funcional para a produção de fim de ano. A crise deixou um clima de insegurança com relação ao consumo para este fim de ano, por isso muitas empresas optaram por diminuir o volume de produção ou pela despensa”, explicou.
A crise econômica planetária e a escassez do crédito causaram no cenário um lote de incertezas que levou à deterioração das expectativas dos industriais, segundo Marques Pinto, o qual apontou como uma das saídas para a retração a compra de insumos locais em vez da importação.
Já o presidente do Simplast (Sindicato das Indústrias de Materiais Plásticos do Amazonas), Ulisses Tapajós, prefere acreditar que a crise pode ser estancada ainda neste ano, no fim do quarto trimestre, dependendo da adesão das empresas à medida das férias coletivas. Na análise do executivo, não há como negar que a falta de crédito ocasionada pela chegada da crise financeira já afetou o poder de compra em ‘efeito dominó’, tendo como consequência a diminuição da produção industrial com a baixa procura. “Por outro lado, as empresas, para manterem as condições de competitividade, se vêem impedidas de repassar as perdas –que o aumento do dólar trouxe a partir do aumento no preço das matérias-primas– ao preço final do produto”, explicou.
De acordo com Tapajós, a maioria das empresas filiadas ao Simplast vai operar com redução na mão-de-obra regular de até 15% entre novembro e fevereiro como forma de evitar o agravamento no índice de demissões. O executivo frisou que, tidos entre os mais voláteis da economia, por sentirem mais rapidamente as variações cambiais, os termoplásticos representam uma fatia bastante específica dentro do universo formado pelos 21 segmentos da indústria local. “Por isso, caso ocorra uma reviravolta na política cambial, seremos os primeiros beneficiados. Enquanto isso, nossa única saída para evitar demissões em massa serão as férias coletivas para esses 15% de operários”, asseverou.
Setor madeireiro deve demitir 400 trabalhadores
Áreas mais sensíveis aos preços do dólar, como a indústria da madeira processada, por exemplo, estimam que as demissões devam atingir perto de 400 trabalhadores de novembro a janeiro. Pelo menos para o empresário Adriano Resende Moss, que atua no segmento de compensados, o qual apontou que “a continuar o câmbio apreciado em 2009, com juros altos trazendo redução no nível de atividade econômica interna e queda de consumo, poderemos ter sim demissões formais. No chão das fábricas, os empregados já sabem: caso haja a manutenção das taxas de câmbio, o desemprego virá fatalmente em 2009”, garantiu.
Na opinião do presidente do Sinaees, Wilson Périco, os números do desemprego comprovam que o ritmo de demissões está no grau da normalidade para a região e, por isso, não há razão para alarmismo. Segundo o executivo, a crise vai chegar ao PIM com certeza e, dependendo do grau de otimismo ou pessimismo como será encarada pela sociedade, trará sérias consequências ou não para o desempenho da economia. “Acho que se deveria usar de mais cautela para evitar uma queda maior no consumo. O que temos certeza na relação crise e mão-de-obra é que deixaram de ser gerados pelos menos 4.000 empregos no PIM no setor de eletroeletrônicos. Mas não contratar é diferente de demitir”, ponderou.
Os executivos das indústrias incluíram no cenário de um futuro próximo três variáveis que, antes da crise, não frequentavam os seus planos:
1. Passaram a estimar uma queda no consumo dos seus produtos;
2. Redução na previsão de compra de matérias-primas;
3. Análise comparativa de duas linhas: manter o número de empregados ou demitir pessoal.







