Mais uma para os anais catastróficos da cultura do Amazonas foi a pintura de dourado da estátua do Tenreiro Aranha na recente restauração que a prefeitura realizou na praça 5 de Setembro, a popular praça da Saudade. Tirando as devidas proporções seria, mais ou menos, como colorir o Davi, de Michelângelo, este, de mármore; aquela, de bronze.
Uma peça histórica, como é a estátua de Tenreiro Aranha, não deve sofrer restauração, a não ser que tenha sofrido algum tipo de dano, o que não foi o caso. A estátua, exposta desde 1907, primeiro na praça Tamandaré, atual Tenreiro Aranha, ao lado do antigo Hotel Amazonas, e desde 1932 na praça da Saudade, estava coberta por pátina, oxidação geralmente esverdeada, que aparece na superfície do bronze e serve para protegê-lo. Um dos motivos do alto apreço ao bronze, na confecção de esculturas, é que sua pátina não se solta, e a pátina da estátua do Tenreiro Aranha se formou ao longo de 116 anos para, de uma hora para outra, receber demãos de tinta dourada.
João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha foi um deputado paraense que muito batalhou pela independência política da Comarca do Alto Amazonas em relação à província do Grão-Pará, o que conseguiu em 5 de setembro de 1850. No dia 1º de janeiro de 1852 ele chegou a Manaus instaurando a província do Amazonas e se tornando seu primeiro governador, na época, presidente. Como não tinha dinheiro para nada, Tenreiro rumou ao Rio de Janeiro em busca de verba para poder trabalhar, porém, como aquele ditado, ‘foi ao vento, perdeu o assento’, enquanto estava fora, foi exonerado em 27 de junho daquele ano.
Vários monumentos
A ideia de homenagear Tenreiro Aranha surgiu, em 1883, quando o deputado Silvério José Nery sugeriu mandar fazer um busto do ex-governador para expô-lo sobre uma coluna de granito, mas o então governador José Lustosa Paranaguá (1882/1884) foi mais além e autorizou a confecção de uma estátua, porém, tudo parou por aí.
Quando Eduardo Gonçalves Ribeiro (1892/1896) era o governador, novamente lembraram de Tenreiro Aranha e só então a estátua foi encomendada ao artista plástico italiano Enrico Quattrini, em 1894. Quattrini também confeccionou o Monumento à Abertura dos Portos, inaugurado em 1900. Ambas as obras foram fundidas no ateliê do artista, em Roma.
Não se sabe quando exatamente a estátua chegou a Manaus, mas o certo é que, somente em 1906, o então superintendente, Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa (1904/1907) anunciou que ela estava a caminho de Manaus. No dia 5 de setembro de 1907 a estátua foi inaugurada na praça Tamandaré. Por motivo desconhecido, em 1932, ela foi transferida para a praça da Saudade, onde permanece.



De acordo com o pesquisador Ed Lincon Barros, não são poucos os monumentos de Manaus que sofreram algum tipo de dano por parte de administradores.
“Teve uma harpa colocada, em 1936, bem na frente do Teatro Amazonas, em homenagem a Carlos Gomes. Numa das reformas do Teatro, ela foi retirada; atrás do Palacete Provincial tinha um busto em homenagem a Ribeiro Júnior, também retirado quando da ampliação da avenida Floriano Peixoto; um monumento a Gonçalves Dias, na Praça Heliodoro Balbi (da Polícia), sumiu; no cruzamento da Getúlio Vargas com a Sete de Setembro havia um belo chafariz. Foi retirado do local e nunca mais foi visto; a bela estátua de mármore, em homenagem ao Barão de Sant’Anna Nery, perto do porto, foi destruída e quebrada para a construção de um estacionamento, mas se eu for lembrar, aqui, a lista é muito grande”, lamentou.
Jarros dourados
Já o historiador Fábio Augusto, lembrou não ser a primeira vez que estátuas expostas em praças são descaracterizadas. O Zuavo e o Granadeiro colocados na frente do Palacete Provincial foram ‘colorizados’, na reforma da praça da Polícia, em 2009. Eles foram confeccionados na fundição francesa ‘Fonderies du Val D´Osne’ e estão na praça desde 1907, quando novamente Adolpho Lisboa, numa reforma que fez no espaço, entre 1906 e 1907, adquiriu estas e as demais estátuas que se encontram no logradouro.
“A prefeitura também mandou pintar de dourado, além da estátua do Tenreiro Aranha, os jarros que ornamentam a ponte da Cachoeira Grande (dos Bilhares), e de laranja-fogo as pedras-jacaré que compõem a ponte nas suas extremidades. Esse tipo de pedra é o mesmo utilizado na escadaria do Teatro Amazonas e na base do Palácio da Justiça. Vale lembrar que essa ponte foi mandada construir por Eduardo Ribeiro entre 1893 e 1895, governador que também mandou construir o Teatro Amazonas e o Palácio da Justiça. Um dos jarros, há muito, desapareceu”, lembrou.
A reportagem do Jornal do Commercio entrou em contato com a artista plástica Rosa dos Anjos, que pintou a estátua de Tenreiro Aranha, mas ela não atendeu à nossa ligação. O Ateliê de Restauro, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, também foi procurado para falar sobre o caso, mas limitou-se a responder que lhes foi solicitado um laudo sobre o ocorrido, e que este estava de posse dos seus superiores.
Enquanto isso, quem sabe se essa história não faz com que os manauaras dêem mais atenção aos seus monumentos históricos.
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