Endividamento avança em Manaus

Em: 15 de junho de 2026

A quantidade de endividados em Manaus voltou a crescer em maio, acompanhando a média nacional. Em paralelo, há mais inadimplentes e menos insolventes na praça. Os números locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Conferência Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), revelam que 88,8% das famílias locais, ou 629.531 delas, estavam com contas a vencer. O dado supera abril (87,7% do total ou 621.316) e o patamar de um ano atrás (87% ou 608.990). O nível médio de comprometimento de renda do manauara com dívidas caiu para 32,4%, mas o tempo médio para quitação subiu para 28 semanas.

A sondagem mostra que 50,4% das famílias locais (357.595) já estavam com as contas atrasadas em maio, superando as marcas de abril de 2026 (48,7% ou 345.405) e de maio do ano passado (47,4% ou 331.762). Quem está nessa situação, já deve há 63 dias, em média. Já a proporção de famílias sem condições de pagar (16,3% e 1115.521) voltou a perder substância nas duas comparações. O cartão de crédito (68,6%) ainda é o vilão preferencial do endividamento das famílias de Manaus, principalmente entre os mais abastados. Na segunda posição, os carnês (53,5%) ainda têm mais vítimas entre os habitantes de menor poder aquisitivo.

Diferente do ocorrido no levantamento anterior, a cidade seguiu a média brasileira do setor. O endividamento dos brasileiros cresceu pelo quinto mês seguido na passagem de abril (80,9%) para maio (81,6%), superando com mais folga o dado de 12 meses atrás (78,2%). De acordo com a Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o número renovou o recorde novamente da série histórica da Peic nacional, iniciada em 2010. O grupo de famílias negativadas (29,9%) sofreu repique, enquanto a proporção de brasileiros sem condições de pagamento (12,3%) seguiu estável.

A dinâmica da Peic em Manaus ocorreu em um contexto de fôlego redobrado para as compras do consumidor. O ICF (Intenção de Consumo das Famílias), também da CNC, sinaliza que o manauara está mais satisfeito com renda e emprego e tem menos dificuldades no crédito, embora as perspectivas de consumo tenham esfriado. Apurado pela mesma entidade, o Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) mostra arrefecimento no humor dos lojistas. A percepção sobre economia, setor e empresa piorou e o ceticismo contamina as expectativas, freando investimentos e contratações de pessoal.

Cartões e carnês

Em meio à estabilização das taxas de juros bancários em patamar proibitivo, o cartão de crédito aumentou sua participação no bolo das dívidas, mas continua consolidado como motor do endividamento em Manaus. Respondeu por 68,6% das dívidas locais – contra os 67,2% de abril. Seu uso é maior entre as famílias de maior poder aquisitivo (84,1%). Conforme levantamento da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), esse ainda é o meio de financiamento mais caro do país, com juros mensais de 15,22% (o equivalente a 447,44% por ano).

Os carnês (53,5%) diminuíram sua fatia e seguiram preponderantes entre os que recebem menos (54,8%), até porque os juros do comércio (5,45% ao mês e 89,04% ao ano) são menos elevados. Os demais meios de pagamento listados são crédito pessoal (21,8%), crédito consignado (12,6%), financiamento de carro (10,6%), “outras dívidas” (9,2%) e financiamento de casa (3,5%). Dono da segunda maior taxa de juros do país, o cheque especial (7,97% no mês e 150,98% no ano) reduziu sua fatia para 4,2%. Invenção brasileira, e de uso restrito aos mais pobres, o cheque pré-datado respondeu por 0,1% do total.

Em contraste com a redução do endividamento médio, a parcela de consumidores de Manaus que se dizem “muito endividados” saltou de 15,7% para 17,1%, diante de abril, sendo essa, agora, uma condição mais comum entre consumidores de maior renda (18,3%). A fatia dos “mais ou menos endividados” (29,6%) engrossou, e também se mostrou predominante entre as famílias que ganham mais de dez salários mínimos mensais (35,4%). Já o grupo dos “pouco endividados” (42,1%) perdeu substância e continua um pouco maior entre as famílias de menor poder aquisitivo (43,2%). 

Os endividados de Manaus devem levar uma média de 28 semanas para quitar compromissos, proporção superior à de abril (27) e março (26). O grupo de consumidores com mais de um ano de pendências (27,3%) encolheu, assim como verificado na majoritária parcela das famílias com até três meses de compromissos programados (29,1%). Em média, os manauaras têm 32,4% de sua renda comprometida por dívidas. Uma parcela idêntica de consumidores gastam mais da metade do que ganham, mas a maioria (44%) emprega de 11% a 50% de seus vencimentos para esse fim.

O percentual de endividados que já estão inadimplentes foi elevado de 55,6% para 56,8%, na variação mensal, em alta puxada pela baixa renda (57,4%). Uma proporção minoritária, mas ainda crescente, garante que conseguirá quitar o compromisso integralmente no próximo mês (24,6%). Há menos consumidores que estimam que vão pagar parcialmente (42,4%) e o grupo que diz que vai continuar devendo (32,3%) também encolheu. Em média, os pagamentos estão atrasados há 63 dias. O grupo de famílias ‘penduradas’ há mais de 90 dias (29,1%) ainda é predominante, mas desidratou.

“Gestão de risco”

Em comunicado à imprensa, a CNC destaca que a piora no nível de endividamento dos brasileiros expõe a dependência do cartão de crédito, “linha de crédito de altíssimo risco”. Para o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, o efeito prático do diagnóstico desenhado pela Peic representa um alerta. “Essa sequência de aumentos atinge, principalmente, as famílias de menor poder aquisitivo, pela exposição às taxas decorrentes de atrasos em pagamentos”, frisou. “É preciso garantir que o consumidor possa renegociar essas dívidas e recuperar seu fôlego financeiro”, emendou.

Já o economista da Fecomercio-AM, Max Cohen, salientou à reportagem que os números de Manaus revelam um ambiente de consumo sustentado pelo crédito e comprometimento de renda. “O avanço das contas em atraso aumenta o risco para empresas e instituições de crédito. Para os empresários, o momento exige fortalecimento da gestão de risco, maior rigor na concessão de crédito, intensificação de estratégias de renegociação e foco em políticas comerciais mais seletivas. O cenário favorece manutenção do consumo, mas com aumento gradual da fragilidade financeira do consumidor e maior sensibilidade às condições de parcelamento e custo do crédito”, finalizou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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