Indústria do Amazonas perde ritmo em abril

Em: 15 de junho de 2026
(Foto: Arquivo JC)

A produção industrial do Amazonas voltou a tropeçar em abril. A atividade recuou 0,8% em relação a março, quebrando uma sequência de três altas consecutivas. O confronto com abril do ano passado mostrou número pior, com um tombo de 4,2%. Foi o terceiro pior resultado do país, eliminando o breve respiro de março (+3,8%). Cinco das 11 atividades pesquisadas submergiram, principalmente “máquinas e equipamentos” (responsável pela produção de condicionadores de ar) e produtos químicos. Em contraste, a média brasileira do setor (+0,7%, +2,7%, respectivamente) cresceu em ambas as comparações.

A manufatura estadual se aprofundou no vermelho no trimestre (-3,5%), com tombos disseminados em oito segmentos. Só as divisões mais tradicionais do PIM representadas por “outros equipamentos de transporte” (+9,8%) e “equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos” (+6,8%) foram na direção contrária, além de bebidas (+4%). Já o acumulado dos últimos 12 meses (-0,7%) caiu para o campo negativo, após quatro meses resvalando na estagnação. O Estado ficou atrás da média da indústria nacional em ambas as comparações (+1,7% e +0,7%, na ordem). Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal Regional, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Somente nove das 17 unidades federativas acompanhadas cresceram entre fevereiro e março. Com o recuo de 0,8%, o Amazonas caiu da quarta para a 11ª posição. Bahia (+3%) e Mato Grosso (-5,2%) ficaram nos extremos. A regressão de 4,2% em relação a abril de 2025, fez o Estado desabar da oitava para a 15ª colocação, em um rol iniciado por Espírito Santo (+32,9%) e encerrado pelo Rio Grande do Norte (-13,6%). Com o tropeço no quadrimestre (-3,5%) desceu para o 13º lugar. Em 12 meses (-0,7%), a indústria amazonense detém o décimo melhor desempenho do país.

Combustíveis e bebidas

No confronto com abril de 2025, a indústria extrativa (que produz óleo bruto de petróleo) do Amazonas encolheu 2,9%. A indústria de transformação cavou mais fundo (-4,3%), em resultado simétrico ao de março (+4,2%). Ainda assim, metade de suas atividades industriais sondadas pelo IBGE foram na direção contrária: derivados de petróleo e biocombustíveis (gás natural, gasolina e querosene com +24,4%); bebidas (+9,2%); produtos de borracha e material plástico (+8,6%); equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (celulares, computadores e máquinas digitais, com +8,3%); e “outros equipamentos de transportes” (motocicletas, bicicletas e embarcações, com +4,4%).

Na outra ponta, a queda interanual da indústria de transformação foi induzida efetivamente por cinco de suas divisões industriais, incluindo máquinas e equipamentos (condicionadores de ar e terminais bancários, com -53,1%); produtos químicos (metais preciosos, inseticidas, nitrogênio e desinfetantes, com -32,8%); “produtos diversos” (artefatos de joalheria, isqueiros, lentes oculares, lápis, e fitas para impressoras, com -15,2%);máquinas, aparelhos e materiais elétricos (conversores, alarmes, condutores e baterias, com -11,2%); e produtos de metal (lâminas, aparelhos de barbear, estruturas de ferro, com -10,6%).

No quadrimestre, a indústria extrativa se voltou ao campo negativo (-0,3%), e a indústria de transformação (-3,7%) retomou queda. Apenas três de suas atividades conseguiram dar continuidade a sua trajetória de crescimento no período, incluindo “outros equipamentos de transporte” (+9,8%); equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (+6,8%); e bebidas (+4%). Em contraste, os segmentos de máquinas e equipamentos (-40,1%); máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-20,3%); petróleo e biocombustíveis (-17,1%); produtos de metal (-13,9%); produtos diversos” (-11,7%); produtos químicos (-4,1%); e produtos de borracha e material plástico (-3,1%) amargaram quedas.

“Sinal de alerta”

O chefe de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, reforça que o desempenho de abril acende um “sinal de alerta” para o um setor produtivo que vinha tentando consolidar trajetória de estabilização nos meses anteriores. “A perda de ritmo aponta para um descompasso da indústria do Amazonas com o país e interrompe a breve recuperação vista no mês anterior. O comportamento aponta forte disparidade entre os subsetores e reforça um cenário de vulnerabilidade da produção regional, evidenciando que o PIM enfrenta baixa demanda para manter crescimento sustentado”, alertou.

O contador, professor da Ufam e consultor empresarial com foco na indústria incentivada, André Costa, tem avaliação um pouco diferente. Ele disse à reportagem que os números do IBGE sugerem que a indústria amazonense está tendo apenas um “desempenho mais concentrado” em duas rodas e eletroeletrônicos neste ano. “São as motos e TVs, para a Copa, e eventual recuperação de celulares, que estavam claudicantes há dois anos. Do lado negativo preocupa o desempenho de condicionadores de ar, pelo esgotamento de uma corrida na produção, que se acentuou no início de 2025”, ponderou.

O especialista avalia que o desempenho do PIM tende a ser predominantemente favorável nos próximos meses, a despeito dos obstáculos. “O cenário para este ano ainda deve ser bom, e também para os anos seguintes, no que depender do sucesso da transição da reforma Tributária. Contudo, há outros vetores da economia brasileira, como equilíbrio nas finanças governamentais, taxa de juros e inflação, que se não forem corrigidos vão afetar o desempenho do Polo Industrial de Manaus, nos próximos anos”, afiançou.

“Movimento de ajuste”

O presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, ressaltou à reportagem que os dados do IBGE refletem um “movimento de ajuste”, após uma sequência de resultados positivos no primeiro trimestre. “Embora o desempenho estadual destoe temporariamente da média nacional, é fundamental compreender que a indústria amazonense possui dinâmica própria. Nosso Polo é fortemente concentrado na produção de bens de alto valor agregado, o que naturalmente sujeita o setor a calibrações de estoque mais sensíveis e a ciclos específicos de adequação à demanda interna”, explicou.

O dirigente pondera, por outro lado, que a oscilação interanual e o posicionamento do acumulado de 12 meses devem ser analisados com cautela e sem sobressaltos. “Esse movimento traduz período de transição, no qual o parque fabril busca equalizar a sua produção frente aos desafios logísticos e às variáveis macroeconômicas atuais. O distanciamento em relação aos índices de crescimento do país sinaliza necessidade de atenção contínua à nossas cadeias de suprimentos, mas não descaracteriza a solidez estrutural e a capacidade produtiva já instalada na região”, argumentou.

No entendimento de Antonio Silva, contudo, o cenário de curto prazo deve ser encarado com prudência pela indústria incentivada, mantendo o foco das indústrias na preservação de sua competitividade. “A indústria do Amazonas possui um histórico comprovado de resiliência e de rápida adaptação às flutuações de mercado. O setor segue trabalhando de forma estratégica e contínua para otimizar seus processos, com a expectativa técnica de que os próximos trimestres tragam uma estabilização dos indicadores e a retomada gradual do crescimento sustentável”, finalizou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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