O percentual de consumidores de Manaus com contas a vencer caiu um pouco em abril, interrompendo uma sequência de 12 meses consecutivos de escalada. Ao menos 582.053 famílias estavam nessa situação, no mês passado, ou 89% do total. O número ficou levemente abaixo do indicador de março de 2023 (89,8% e 586.546), embora ainda supere o patamar de abril de 2022 (65,9% e 425.021). Os principais indutores de endividamento ainda são o cartão de crédito e os carnês de lojas, em um cenário ainda mais adverso do que o da média nacional – que mostrou estabilidade no mês. Famílias que recebem menos de dez salários mínimos mensais são as mais endividadas.
A inadimplência também recuou em Manaus, sendo que o problema ainda é mais frequente entre as famílias que ganham mais. O percentual caiu de 52,5% (343.068) para 51,4% (335.967), entre um mês e outro. Há um ano, com juros mais amenos, e inflação já em alta, essa fatia era de 28,8% (185.648). Em torno de 21,6% (141.382) das famílias manauenses, por outro lado, informaram que já não têm mais condições de pagar contas – quase o dobro da média nacional. Os dados são da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
Segundo a sondagem, a taxa de endividamento do consumidor brasileiro passou de 78,3% para 77,7%, entre março e abril. A proporção de famílias de Norte a Sul penduradas em meios de pagamentos diversos também encolheu na comparação com o mesmo mês de 2022 (78,3%). A mesma dinâmica se deu na fatia de inadimplentes, que declinou para 28,6%. Já a parcela de consumidores sem fôlego para quitar débitos (11,6%) diminuiu na variação mensal, mas cresceu ante abril de 2022.
Embora pequena, a queda assinalada na Peic é uma boa notícia, diante dos crescimentos mensais consecutivos detectados em Manaus pela pesquisa de ICF (Intenção de Consumo das Famílias), da mesma entidade. Em abril, foram registradas melhoras acentuadas na percepção sobre renda e emprego, assim como nas perspectivas profissional e de compras. Já o acesso ao crédito progrediu menos, em sintonia com um novo declínio na disposição de adquirir bens duráveis. Os comerciantes, entretanto, ainda se mostram céticos. O ICEC (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), também medido pela CNC, registrou o menor nível de confiança no setor, nos últimos nove meses.
Cartões e carnês
A pesquisa da Peic informa que o cartão de crédito aumentou sua participação no bolo das dívidas e continua sendo fator predominante no endividamento. Respondeu por nada menos do que 68% das dívidas locais – contra os 64,3% de março. Famílias de maior renda (87,1%) predominam e elevaram sua participação em um meio de pagamento que já conta com juros mensais de 14,76%, e anuais de 421,78%, conforme a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade).
Os carnês, por outro lado, retrocederam nas preferências e corresponderam a 50,6% dos débitos das famílias de Manaus, sendo mais impulsionados pelos que recebem menos (51,5%). Na sequência estão o crédito pessoal (16,5%), “outras dívidas” (13%), financiamento de carro (7,7%), crédito consignado, (6,5%), cheque especial (6,1%) e financiamento de casa (3,2%). Invenção brasileira, e de uso exclusivo dos mais pobres, o cheque pré-datado pontuou 0,9%.
A leve queda na proporção dos manauenses em dificuldades foi acompanhada por melhora qualitativa no perfil de endividamento. A fatia dos “muito endividados” caiu para 16,6%, sendo puxada pelas famílias com renda abaixo de dez salários mínimos mensais (17,4%). A fatia dos “pouco endividados” (48,3%) ainda é maioria e ficou maior, assim como ocorrido entre os “mais ou menos endividados” (24,1%).
Em média, as famílias de Manaus devem levar 35 semanas para quitar as contas. Predomina a fatia majoritária dos consumidores que esperam levar mais de um ano (42,3%) para isso. Em seguida, estão os ‘pendurados’ de 6 meses a um ano (19,4%), entre 3 e 6 meses (19,1%), e até três meses (19,1%). O comprometimento médio de renda com dívidas diminuiu para 36,5%, sendo que 40,8% gastam mais da metade do que ganham. Só são superados pelos que consomem de 11% a 50% de seus rendimentos (47,5%).
Ao menos 57,7% dos endividados já estão inadimplentes. A proporção segue maior entre as famílias com ganhos acima dos dez mínimos mensais (62,9%). Uma proporção mais elevada do que a da sondagem anterior (25,5%) garante que conseguirá quitar o compromisso integralmente, no próximo mês. Outros 31,3 estimam que vão pagar apenas parcialmente, e 42,1% assumem que vão seguir devendo. Em média, as dívidas estão atrasadas há 62 dias. Em torno de 48,1% dos consumidores deve entre 30 e 90 dias, ao passo que 33,2% estão atrasados há mais de 90 dias, e apenas 18,5% devem até 30 dias.
Juros e incertezas
O presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, lembra que o consumidor ainda enfrenta dificuldades para pagar contas e continuar comprando, em virtude dos juros. Mas, em meio à alta mais amena da inflação, estaria tendo mais acesso a alimentos e “produtos básicos”. “Ainda estamos em um período de transição, com incertezas no horizonte sobre medidas governamentais. Mas, as coisas estão se estabilizando e temos perspectivas positivas. Esperamos que o Dia das Mães confirme crescimento”, ponderou.
Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, assinala que a redução mensal dos níveis de inadimplência das famílias mais pobres em âmbito nacional foi impactada pelos “valores mais altos do Bolsa Família e pelas contratações formais de pessoas de menor nível de escolaridade”. “São elas também o principal foco de renegociações, mas o risco da inadimplência se acirrou na classe média”, pontuou.
A economista observa, contudo, que a parcela de consumidores brasileiros sem condições de pagamento já chegou ao maior nível desde novembro de 2020. “Quem tem dívidas atrasadas há mais tempo segue enfrentando dificuldade de sair da inadimplência em função dos juros elevados, que pioram as despesas financeiras”, explicou, acrescentando que a taxa de juros média em operações de crédito com recursos livres voltados a pessoas físicas já chegou a 58,3% por ano.
A CNC destaca que dados inéditos projetam que, a partir de julho deste ano, a proporção de endividados deve voltar a crescer e encerrar o ano em nova máxima histórica. A estimativa é que o percentual de pessoas com dívidas atrasadas há mais de três meses somente deve diminuir no fim do ano, em um cenário sem programas de regularização de dívidas atrasadas entre os mais pobres.







