A quantidade de endividados em Manaus sofreu refluxo em março, após atingir o pico da série histórica da CNC (Conferência Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), no mês anterior. Há também menos inadimplentes e insolventes na praça. Os números locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) revelam que 621.490 famílias, ou 87,8% do total, estavam com contas a vencer. É um dado melhor do que o de fevereiro (88,2% do total ou 623.810), mas supera o patamar de um ano atrás (85,2% ou 594.296). O nível médio de comprometimento de renda com dívidas se mantém em 33,6% e tempo médio quitação caiu para 26 semanas.
A sondagem mostra também que 49,3% das famílias locais (ou 349.289) já estavam com as contas atrasadas em março, menos do que em fevereiro de 2026 (50% ou 353.990), mas ainda acima de março de 2025 (44,1% ou 307.894). Quem está nessa situação, já deve há 64 dias, em média. A proporção de famílias já sem condições de pagar (18,5% e 130.603) desacelerou nas duas comparações. O cartão de crédito (68,7%) ainda é o vilão do endividamento na cidade, principalmente entre os mais abastados. Na segunda posição, os carnês (54,1%) ainda têm mais vítimas entre os habitantes de menor poder aquisitivo.
Diferente do levantamento anterior, a cidade foi na contramão da brasileira do setor. O endividamento dos brasileiros cresceu pelo terceiro mês seguido na passagem de fevereiro (80,2%) para março (80,4%). Também superou o dado de 12 meses atrás (77,1%). De acordo com a Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o número renovou o recorde da série histórica da Peic nacional, iniciada em 2010. O grupo de famílias negativadas (29,6%) se manteve estável com viés de alta, e a proporção de brasileiros sem condições de pagamento (12,3%) encolheu na variação mensal, embora se mantenha crescente na base anual.
A dinâmica da Peic em Manaus ocorreu em paralelo com o enfraquecimento da confiança do consumidor. Medido pela mesma CNC, o índice de ICF (Intenção de Consumo das Famílias) aponta que o manauara está mais otimista com a carreira e a renda, embora tenha reduzido suas perspectivas de consumo – principalmente de bens duráveis – e encontre maior dificuldade no acesso ao crédito. Apurado pela mesma entidade, o Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) mostra arrefecimento no humor dos lojistas. A percepção sobre as condições atuais parou de piorar, mas há ceticismo em relação às expectativas e menos intenções de contratar e investir.
Cartões e carnês
Com a estabilização das taxas de juros bancários em patamar proibitivo, o cartão de crédito voltou a reduzir sua participação no bolo das dívidas, mas continua consolidado como motor do endividamento em Manaus. Respondeu por 68,7% das dívidas locais – contra os 71,2% de fevereiro – e a pressão vem principalmente no foco das famílias de maior poder aquisitivo (74,6%). Conforme o levantamento mais recente da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), referente a março, esse ainda é o meio de financiamento mais caro do país, com juros mensais de 15,22% (o equivalente a 447,44% por ano).
Os carnês (54,1%) elevaram sua fatia e seguiram preponderantes entre os que recebem menos (55,3%), até porque os juros do comércio (5,45% ao mês e 89,04% ao ano) são menos elevados. Os demais meios de pagamento listados são crédito pessoal (20,7%), crédito consignado (13,6%), financiamento de carro (10%), “outras dívidas” (8,7%) e financiamento de casa (2,7%). Dono da segunda maior taxa de juros do país, o cheque especial (7,97% no mês e 150,98% no ano) elevou sua fatia para 3,9%. Invenção brasileira, e de uso restrito aos mais pobres, o cheque pré-datado não pontuou no mês.
Apesar da alta do endividamento médio, a parcela de consumidores de Manaus que se dizem “muito endividados” encolheu apenas de 18,8% para 18,6%, diante de janeiro, sendo essa uma condição mais comum nos grupos de consumidores de menor renda (19,3%). A fatia dos “mais ou menos endividados” (24,1%) também foi reduzida, mas se mostrou predominante entre as famílias que ganham mais de dez salários mínimos mensais (30,5%). Já o grupo dos “pouco endividados” (45%) ganhou substância e continua um pouco maior entre as famílias de menor poder aquisitivo (45,5%).
Os endividados de Manaus devem levar uma média de 26 semanas para quitar compromissos, proporção um pouco inferior à do mês anterior (27). O grupo de consumidores com mais de um ano de pendências (24,1%) voltou a encolher, em sentido contrário ao verificado na majoritária parcela das famílias com até três meses de compromissos programados (33,4%). Em média, os manauaras têm 33,6% de sua renda comprometida por dívidas. Em torno de 36,2% gastam mais da metade do que ganham, mas a maioria (42,4%) emprega de 11% a 50% de seus vencimentos para esse fim.
O percentual das famílias endividadas em Manaus que já estão inadimplentes foi diminuído de 56,7% para 49,3%, na variação mensal. Uma proporção minoritária, mas ainda crescente, garante que conseguirá quitar o compromisso integralmente no próximo mês (18,5%). Há menos consumidores que estimam que vão pagar parcialmente (44,5%), mas o grupo que diz que vai continuar devendo (36,4%) também encolheu. Em média, as dívidas relatadas estão atrasadas há 64 dias, sendo que as famílias manauaras que estão ‘penduradas’ há mais de 90 dias (48,1%) ainda são predominantes, embora tenham estagnado.
“Prudência e seletividade”
Em comunicado à imprensa, a CNC destaca que o endividamento continuará avançando, até os efeitos da flexibilização da política monetária chegarem efetivamente ao consumidor final. “A elevada taxa Selic é, há meses, um desafio para quem empreende e para quem consome”, afirmou o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros.
A entidade acrescenta que, somado aos juros altos, a alta dos preços dos combustíveis, por conta da guerra no Oriente Médio, tem repercutido na inflação reduzido o poder de compra, forçando o uso de crédito para despesas básicas. “É imprescindível que as autoridades sinalizem melhores condições de crédito e mais previsibilidade ao setor produtivo, pois dele depende a dinâmica de crescimento que beneficia a vida da população”, frisou.
O economista da Fecomercio-AM, Max Cohen, disse à reportagem que, a despeito dos “sinais pontuais de estabilização”, o endividamento em Manaus permanece elevado e estruturalmente pressionado, com impactos no consumo e risco de crédito, em cenário que recomenda “prudência e seletividade” ao comércio. “O consumo tende a seguir sustentado no curto prazo, porém com crescente risco de restrição futura. Para os empresários, o cenário exige rigor na concessão de crédito, fortalecimento de políticas de cobrança e renegociação, além de estratégias orientadas à liquidez e ao giro”, arrematou.







