As vendas do comércio varejista do Amazonas despencaram em fevereiro. No mês do Carnaval, o varejo restrito recuou 3,2% diante de janeiro, que teve três dias úteis a mais. Foi o segundo pior placar do país, eliminando a maior parte do ganho da recuperação de janeiro (+4,2%). O confronto com fevereiro de 2025 apontou retração de 7,2%, no mais severo do tombo do setor em todo o Brasil. O bimestre retrocedeu 3,2% e o acumulado dos 12 meses (-0,7%) entrou no quadrante negativo. Já o volume comercializado pelo varejo ampliado – que inclui bens de maior valor agregado e dependentes de crédito – também ficou a desejar.
O varejo brasileiro teve números mais animadores. Puxado por quatro de suas oito atividades, o comércio restrito cresceu 0,6% na variação mensal. No mês de volta às aulas, a elevação foi mais sentida em “livros, jornais, revistas e papelaria” (+2,4%). As vendas subiram 0,2% em relação a fevereiro do ano passado, induzidas por apenas três segmentos comerciais, especialmente em “artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria” (+2,1%). No ano, o incremento foi de 1,5%, ficando pouco acima do aglutinado dos 12 meses (+1,4%). O varejo ampliado, entretanto, saiu-se pior. É o que revela a Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE.
Nove das 27 unidades federativas entraram no vermelho, na virada de janeiro para fevereiro. O varejo do Amazonas (-3,2%) desabou da segunda para a penúltima colocação, ficando atrás acima apenas do Mato Grosso (-3,6%), e tendo o Paraná (+2,9%) na liderança. Com o decréscimo de 7,2% na variação interanual, o Estado caiu do 22º para o último lugar, em um rol com 16 crescimentos e o melhor desempenho em Pernambuco (+10,1%). O varejo amazonense também ficou em último lugar no bimestre (-3,2%) e já desceu para 24ª posição nos 12 meses (-0,7%).
Inflação e crédito
O salto verificado no IPCA de fevereiro (+0,70%) manteve o descolamento das vendas efetivas em relação à receita nominal, que não contabiliza a inflação. A diferença é mais significativa nas comparações de longo prazo, e se tornou mais pesada no Amazonas após as crises hídricas/logísticas das vazantes. Nesse cenário, o faturamento bruto decresceu 1,6% perante janeiro. O varejo amazonense diminuiu suas receitas em 6,5% em relação a fevereiro de 2025, com reflexo negativo no bimestre (-1,9%) e esvaziamento nos 12 meses (+3%). A média nacional (+0,3%, +1,4%, +3,1% e +5,6%) ficou no azul.
Em razão do tamanho da amostragem, o IBGE ainda não segmenta o desempenho do comércio no Amazonas. Sabe-se apenas que, ao contrário do ocorrido no mês anterior, os subsetores de veículos, autopeças e material de construção não ajudaram a mover as vendas do comércio amazonense como um todo. O varejo ampliado regrediu 1,9% sobre a base de janeiro. Em relação a fevereiro de 2025, o tombo foi de 4,8%, enfraquecendo os acumulados do ano (-1,3%) e dos 12 meses (+0,1%). A média brasileira (+1%, -2,2%, -0,5% e -0,4%, na ordem) foi basixamente na mesma direção.
Os dados nacionais da PMC mostram que apenas metade das oito atividades do varejo nacional conseguiu avançar em janeiro: livros, jornais, revistas e papelaria (+2,4%); combustíveis e lubrificantes (+1,7%); hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (+1,1%); e artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (+0,3%). Já os dados negativos incluíram os segmentos de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-2,7%); artigos de uso pessoal e doméstico (-0,6%); tecidos, vestuário e calçados (-0,3%); e móveis e eletrodomésticos (-0,1%).
Em texto postado no site da Agência de Notícias IBGE, o gerente da pesquisa, Cristiano Santos, destaca que, ao contrário do ocorrido com o setor no Amazonas, o varejo brasileiro já vem de outros resultados positivos desde o fim do ano passado. O pesquisador salienta ainda que o resultado positivo na variação mensal da PMC nacional foi alavancado pela “volta do protagonismo de atividades que ofertam produtos básicos do comércio, sobretudo atividades de hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo que tem um peso grande no indicador geral”.
Guerra e vazante
Em vídeo, o chefe de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, enfatiza que a inversão de crescimento para o comércio do Amazonas registrada na PMC de fevereiro, “quebrou o fôlego de recuperação do início do ano”, traçando um “cenário anual desafiador” para a atividade. “A trajetória das vendas aponta para uma deterioração progressiva estrutural, sinalizando que as dificuldades não são apenas oscilações pontuais, mas reflexo de uma perda de força contínua. O varejo ampliado também demonstra sinal de fragilidade, com a interrupção da modesta recuperação recente”, alertou, acrescentando que a média móvel trimestral negativa (-0,7%) é uma sinalização negativa para o comércio amazonense, nos próximos meses.
O presidente da ACA, Bruno Loureiro Pinheiro, concorda e disse à reportagem que os números não surpreendem. “O setor já vinha sentindo uma desaceleração clara, e fevereiro apenas confirmou esse movimento. Não é ponto fora da curva, é tendência. O principal motivo é o ambiente macroeconômico de juros elevados, crédito restrito e famílias altamente endividadas no Amazonas. Isso trava o consumo, sobretudo no varejo mais dependente de capital de giro. Soma-se a isso a instabilidade internacional, que afeta as expectativas, e um cenário interno ainda sem força para puxar crescimento”, lamentou.
Indagado a respeito de suas expectativas para o dia a dia do setor nos próximos meses, o dirigente frisou que a conjuntura de impactos inflacionários advindos da guerra no Oriente Médio, e as perspectivas de uma nova estiagem severa inspiram cautela. “A recuperação deve ser lenta, mais sustentada por datas sazonais do que por crescimento consistente. Se houver confirmação de uma nova estiagem forte, o impacto será direto no custo e no abastecimento, o que pode segurar ainda mais o desempenho do comércio. O comércio é resiliente, mas não está confortável”, asseverou.
Já o presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, ressaltou à reportagem que as pesquisas mais recentes da entidade mostram um setor que atravessa período de recuperação, ao mesmo tempo que continua contribuindo para a atividade econômica do Amazonas, seus empregos e arrecadação, apesar dos desafios. “Os empresários deram depoimentos muito otimistas e isso reflete uma tendência. Isso tudo também nos leva a crer que, como vamos agora focar na segunda melhor data do calendário comercial, que é o Dia das Mães, a perspectiva tem fundamentos para ser positiva”, concluiu.







