Entrevista com Ana Paula Machado, presidente do Avante Mulher Amazonas

Em: 6 de março de 2020
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Uma mulher mais consciente de sua participação na sociedade em todos os sentidos, não só na política partidária, mas também dentro de casa, na escola, na criação dos filhos, enfim, junto a quaisquer segmentos e estratos sociais, onde vivencie peculiaridades e toda sorte de problemas num país tão desigual como o nosso.

Se para uns essa bandeira de luta ainda causa estranheza, para outros, como Ana Paula Machado, ela ressoa a cada segundo, hora, de uma vida atuante, incansável, em defesa dos mais desassistidos, onde a presença do Estado praticamente inexiste. Filha de mãe professa e de pai regatão, ela conhece as nuances das dificuldades da população de Manaus, principalmente a que habita as comunidades mais distantes, vítimas da violência espalhada pelo terror das facções e do tráfico de drogas.

Ana Paula tem muita história para contar. Advogada, procuradora, concursada da Câmara Municipal de Manaus, ela ressalta que a educação transformou a sua vida e avalia que só uma eficiente rede de ensino, de qualidade, pode abrir portas para alavancar a nossa economia, diminuir ou erradicar os problemas sociais e permitir que as classes menos favorecidas possam alcançar oportunidades iguais de ascensão. 

“Se cheguei hoje aonde estou, foi graças à educação e a orientações que aprendi dentro de casa, sabendo aproveitar as oportunidades que surgiram com muito esforço e empenho”, diz Ana Paula, que preside o Movimento Mulher Avante, um braço do partido Avante, uma nova agremiação política que promete conquistar mais votos nas eleições municipais deste ano. É idealizadora e líder do Movimento Viva a Vida. E foi presidente da Aades (Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico e Social).

Ana Paula Machado esteve na sede do Jornal do Commercio, onde deu uma entrevista exclusiva, que está disponível em todas as mídias da empresa. Ela falou sobre a atuação do Mulher Avante, que possui pelo menos 30 mulheres pré-candidatas para disputar as eleições em outubro. E abordou ainda as perspectivas do partido em relação ao pleito de outubro.

A seguir, a entrevista.

Jornal do Commercio – Vemos hoje ainda pouca participação da mulher com mandatos no Parlamento. Isso porque a própria legislação cria essas barreiras. E atribui-se também ao machismo, que continua muito arraigado na sociedade brasileira. Como a sra. avalia essa questão?

Ana Paula Machado – Sempre costumo dizer que a participação da mulher em qualquer esfera precisa partir de sua própria conscientização.  Como atribuir aos homens um papel que nos pertence, de que fomos aprisionadas por eles? Temos que acabar com essa história de que a mulher não pode se envolver em política. Ao contrário, ela faz política dentro de casa, com os filhos, na igreja, no trabalho, na comunidade onde vive. Tem que discutir políticas públicas e levar essas reivindicações para o Parlamento. Não podemos mais pensar com a mesma mentalidade dos anos 1930, quando a mulher era impedida de tudo. Estamos em 2020 e os tempos são outros. Muito mais importante do que a cota partidária é a conscientização da mulher sobre sua importância na sociedade.

JC – Os números não mentem. Temos hoje poucas mulheres com mandatos no Brasil. Uma governadora no Rio Grande do Norte. Dos mais de 5 mil municípios, são apenas 12% de mulheres desse total. São 67 na Câmara Federal e 12 senadoras. Vemos, então, ainda um movimento de resgate dessa força da mulher. Os caciques políticos sempre colocam barreiras para mais espaço. O preconceito ainda é muito grande…Como podemos mudar essa situação?

APM – O TSE deu início a uma campanha, em 2010, incentivando a mulher a ter uma maior participação na política. E só podemos chegar aos cargos eletivos discutindo os problemas dentro das próprias famílias, nas comunidades, nos trabalhos etc. Então, quando a mulher fala em políticas públicas começa a sair daquele pensamento retrógrado de que o espaço político só pertence aos homens. As mulheres que conseguiram chegar a cargos eletivos foi porque, com certeza, se engajaram numa causa com animais, idosos, de vítimas de violência. Tem que começar lá na base, ao seu lado, onde ela participa e divide os problemas. É só assim que se pode mudar a consciência de todo mundo.

JC – E como o Avante está se preparando para as eleições?

APM – O Avante é um partido novo que a gente conheceu no ano passado. Está avançando em Manaus. Muitos perguntam se somos de direita ou de esquerda. Não somos nem de direita e nem de esquerda, somos apenas Avante, que é avançar, um trabalho que tem Carol Canabrava como presidente nacional do Mulher Avante e na presidência nacional do Avante, o deputado federal Luís Tibé (MG).  No Amazonas, o presidente regional é David Almeida. Encaminhamos o material nacional para as comunidades, onde ouvimos a população sobre todos os problemas, dando palestras e outras orientações. As mulheres que compõem o Avante Mulher são firmes e empoderadas. O Avante tem esse diferencial em todos os Estados, com a representação feminina tendo liberdade e autonomia. Eu represento o núcleo estadual, temos o Jovem Avante também. Estamos mostrando que essas categorias são, sim, valorizadas. Vamos à luta e lançar o desafio de ter a maior bancada feminina que a Câmara Municipal de Manaus já teve. 

JC – Não é meio temeroso não ser nem direita e nem de esquerda num momento tão ideológico, delicado e presente que vivemos, sendo alvo de críticas dos dois lados e se isentando ainda de se posicionar….?

APM – Não considero que a gente se isente de se posicionar. Muito pelo contrário, temos uma posição firme, mas sem extremismo, Claro, a esquerda alcançou longas conquistas, assim como a direita também. São movimentos que não se pode desprezar. Não estamos em cima do muro e alheios aos problemas.

JC – Mas o Mulher Avante é um movimento feminista…?

APM – Temos a falsa concepção de que ser de esquerda significa ser feminista. Estamos apenas defendendo o direito das mulheres, independentemente de ser de esquerda ou de direita. Não sou feminista radical, não defendo o aborto e nem o movimento porque o direito à vida se sobrepõe a qualquer direito. A questão é que preservamos muito a família, a fé, e todo mundo que acompanha o Avante segue princípios éticos, morais e religiosos. Não tem nada a ver com religião. E se você tendenciar para o extremismo, acaba sendo extremista….

JC – A sra. tem muita experiência em trabalhos junto às comunidades, onde viabilizou a geração de empregos e renda. Fale-nos sobre isso.

APM –  Falar disso é o que mais amo fazer, não de forma demagógica política. Executei esse trabalho por mais de nove anos,  até mesmo antes do Avante. Comecei desde 2011, quando presidi a Aades, que foi uma escola. Conheci tudo sobre projeto com essas pessoas. Quando deixei o cargo, levamos a expertise dos projetos para as comunidades, ensinando que elas não precisam ser dependentes de nenhum governo, que são capazes de caminhar sozinhas e acabar com essa visão paternalista  e assistencialista do Estado, como vemos acontecer no Brasil há trocentos anos. Procuramos não dar o peixe, mas sim ensinar a pescar, fazer com que entidades sejam legalizadas para captar recursos através de editais nacionais e internacionais. A Amazônia é o alvo do mundo, os olhos brilham em sua direção. Temos as empresas do Distrito Industrial que podem direcionar parte do lucro em projetos. Existem comunidades que não têm asfalto, saneamento, alimentação. E onde impera a violência doméstica. A gente faz palestras mostrando que a educação pode mudar tudo e transformar vidas, independentemente da classe social. Podemos fazer diferença para educar os filhos. É um trabalho desenvolvido junto com o Movimento Viva a Vida. Todas as pessoas e comunidades podem participar.

JC – Como a sra avalia a questão do Monte Horebe, alvo recentemente de desapropriação, mostrando o envolvimento de policiais com a grilagem de terras e traficantes de drogas?

APM – Há um grande vazio no atendimento às comunidades. Existem hoje vários Montes Horebes em Manaus, vivendo a mesma situação, sem a presença do Estado. As facções e os traficantes disseminam o terror. É inacreditável. Temos que pedir autorização da criminalidade para entrar e sair nas comunidades. Até para ir à  igreja. Claro, pelo menos 90% das pessoas que lá viviam são do bem, mas são reféns dos criminosos. Elas não estão lá porque querem, e sim porque foram obrigadas a ficar. O Estado também tem culpa. Por que permitiu, então, deixar a área ser invadida, impedindo que essas pessoas, que não têm para onde ir, ocupassem o local?  Nossos governantes têm que pensar em planejamento, investir em educação. A desapropriação é uma consequência. Precisamos combater a causa, o motivo da explosão de toda essa violência. Um paradoxo, lá na Suécia estão fechando presídios, onde o índice de violência é reduzido. O Brasil, porém, trabalha a repressão e não a prevenção.

JC – Como mudar, então, todo esse cenário desfavorável na política e no social?

AP – Precisamos acreditar que é preciso mudar, começando a refletir qual é o tipo de vida que se quer através do voto consciente. Quem vende seu voto por 50 reais está vendendo sua própria vida. E saber que a melhor arma é o voto, não o revólver. Vender o voto é crime. Vamos eleger pessoas que realmente entendam de políticas públicas e façam diferença. E identificando aqueles que só chegam às vésperas das eleições e não fazem nada em benefício de ninguém. Temos os nossos valores pessoais, religiosos, então não perca a sua fé, sabendo que você não tem preço. Precisamos de pessoas verdadeiras que falem a verdade.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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