Pelo seu livro ‘Um rio sem fim’, lançado em 1998, a jornalista amazonense Verenilde Pereira se tornou a pioneira na literatura indígena/negra brasileira dando voz aos povos indígenas e negros, silenciados ou marginalizados ao longo da história. Por algum motivo, desde 2022 a crítica literária redescobriu seu livro, que vem fazendo bastante sucesso, inclusive no exterior. Verenilde tem uma coisa em comum com o JC. Na década de 1980, ela trabalhou na redação do jornal.
“Pessoalmente foi uma fase de idealismo ingênuo. Um período ainda difícil, pois não isento dos resquícios ditatoriais que afetavam e comprometiam o trabalho de alguns profissionais. Fiz reportagens significativas, com assuntos difíceis de serem abordados à época, na região. É necessário lembrar que a Amazônia ainda não era pauta mundial”, lembrou.
“Nasci em 1956, em Manaus. De origem indígena e negra e considerando-se o contexto regional e da época, obviamente estava inserida, como milhares de outras pessoas, no signo do fracasso, do ‘menos gente’, do sujeito incompleto”, falou.
“Ainda assim, numa trajetória onde se inserem derrotas, vitórias, fracassos e conquistas, descobri na escrita o amparo e resguardos contra as intempéries, como uma das pulsões de vida. Enfim, uma pessoa que também acredita que a linguagem é capaz de suportar os extremos dos mundos, das humanidades, das existências, é quando ela chega feito literatura. Através da escrita literária é possível dizer o que em nenhum outro discurso seria possível”, completou.
Jornalismo das antigas
Desde aquela época as visões de Verenilde já demonstravam seu interesse pelas questões indígenas, negras e amazônicas. Sua primeira grande reportagem, ‘Eles não são aves raras, são gente, até em marte’ (19.01.1986), foi com Ailton Krenak, hoje membro da Academia Brasileira de Letras, destacando a prisão de indígenas em Roraima a mando de fazendeiros, as invasões garimpeiras, a falta de demarcação de terras indígenas, os etnocídios e afins. Também escreveu sobre mulheres indígenas na cidade, ‘Dessas calçadas com seus fantasmas destribalizados’; a invasão de garimpeiros no alto rio Negro, ‘Cambalacho no rio’; a área de Surucucus, em Roraima, com a reportagem ‘A seita do mineral’; e a imigração venezuelana para Boa Vista, ‘Faz tempo que é assim’.
“Enfim, eram prenúncios literários”, revelou.
Para os jornalistas de hoje, que escrevem matérias através de releases, sem sair da redação e buscam apenas o glamour da profissão, Verenilde lembra como era ser jornalista num mundo do século passado.
“Dentre inúmeras características da época, havia a questão da logística num mundo sem internet, sem zap, sem aparatos tecnológicos que facilitassem a rapidez nos contatos. A necessidade do tempo empregado por um repórter para uma matéria era bem maior. Havia a necessidade da produção de no mínimo quatro matérias por turno, com empresas sem carro, sem Uber e 99, um salário muito precário embora, de forma generalizada, se pensasse que jornalistas recebiam altos salários. Um dos vários fatores que poderiam ser positivos era ficar frente a frente com a fonte, perceber diretamente se suas falas eram verdadeiras ou não. Embora no texto final isso pudesse ficar a critério do profissional. Hoje, as plataformas digitais, as redes sociais, tiraram do jornalismo tradicional o monopólio da informação”, afirmou.
Sucesso no exterior
Depois de ‘Um rio sem fim’, Verenilde escreveu ‘Não da maneira como aconteceu’, prepara o lançamento de ‘São teus, os nossos desencontros’, e acabou de escrever ‘A última vez que te vi’.
“Normalmente escrevo sobre aquilo que personagens me instigam e não há um tema específico. Embora ‘Um rio sem fim’ mostre uma paisagem amazônica e os efeitos da colonialidade sobre alguns indivíduos que normalmente são alcunhados como ‘personagens’, é uma obra que trata de amizade e memória, de paixões e abandonos, de desejos e neuroses, e dentre outras questões, da perda da inocência diante de uma paisagem desvelada”, disse.
Atualmente Verenilde mora em Brasília. Vem a Manaus, anualmente, de passagem, seguindo para o interior. Ano passado esteve num festival literário, em Portugal, em função do sucesso de seu livro.
“Recebi, com muita surpresa, o convite para participar do Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal, um evento tradicional que reúne escritores, poetas e artistas de todo o mundo. Minha surpresa maior, aliás, um espanto, foi perceber como muita gente conhecia ‘Um rio sem fim’, haviam lido, relido, conheciam personagens e suas trajetórias. Também, em 2024, participei de eventos em outros locais e, em Manaus, da abertura do XIX Congresso da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada)”, informou.
“Escrevo sobre esses emaranhados que compõem alguns seres jogados no mundo sem nenhuma escolha e tento fazer com que a literatura coloque um foco sobre eles, para ver como movimentam suas existências no mundo onde aleatoriamente caíram”, concluiu.









