Estado lidera pesquisas da Covid, diz Maria Paula Mourão

Em: 8 de outubro de 2021

Pesquisadora e infectologista, a médica Maria Paula Mourão diz que o Amazonas está na vanguarda dos estudos sobre a Covid-19, sendo hoje referência para muitas questões que envolvem procedimentos, tratamentos e eficácia de vacinas contra o novo coronavírus.

Segundo ela, as pesquisas sobre a doença avançaram muito na região, tanto na forma como tratar dos doentes quanto em termos de eficácia de imunizantes.  Pesquisadores locais desmistificaram informações de que a cloroquina era eficaz logo no início da infecção, impedindo a forma grave da doença. Ao contrário, complicava mais ainda a situação dos pacientes, ressalta a médica.  

A especialista destaca também que o Estado foi o primeiro do Brasil, talvez um dos primeiros do mundo, a constatar evidências de que o remédio não tinha a menor eficácia contra o coronavírus –nem nos primeiros sintomas e tampouco após as complicações desencadeadas pelo vírus..

“Estudos mostraram evidências de que a cloroquina não tem nenhuma eficácia em pacientes graves e nem evita as complicações da doença”, diz Maria Paula. A médica afirma que só foi possível controlar, hoje, o avanço da pandemia com o aumento da cobertura vacinal, mas a intransigência de parte da população em não tomar as vacinas pode levar ao surgimento de novas variantes do vírus.

“Não existe outra ofensiva. A vacinação é o caminho para tornar a Covid-19 numa endemia, como ocorre com a gripe e outras doenças. O coronavírus não vai sumir, vamos conviver ainda por muito tempo com ele, mas precisamos que a dose de reforço também seja disponibilizada para toda a população”, diz ela.

A médica cita, ainda, as conclusões de um estudo com a vacina CoronaVac feito com 5.071 voluntários no Amazonas. E os resultados contradizem muito o que apontam outras pesquisas científicas. De acordo com a infectologista, duas doses do imunizante mostraram uma eficácia de até 97% contra a infecção. Entre as 5.071 pessoas que participaram dos testes, só houve um óbito (0,02% do total) e apenas 130 (menos de 3%) desenvolveram a Covid-19.

A médica deu uma entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – Vacina premiada para o jogo do Brasil. É um motivo a mais. A sra. já está cadastrada….?

Maria Paula Mourão – Sim, já estou cadastrada (rsss). Já tomei a terceira dose porque sou profissional de saúde.

JC – Não leva vantagem quem tomou a terceira dose?

MPM – Não, é tudo igual (mais rsss). É muito semelhante ao caso das sacolas plásticas. O objetivo nunca é punir quem está na ponta. Pelo contrário, a gente deve trabalhar sensibilizando, estimulando as pessoas a adotarem um comportamento que acreditamos ser mais apropriado.

JC – Alguns não tomam a vacina porque pensam que serão prejudicados, existem riscos. Mas se adoecerem, elas vão consumir recursos públicos…

MPM- Por princípio, toda estratégia de saúde pública é coletiva. Não pode ser individual, senão não seria saúde pública. Quando a gente fala de vacina e por que é preciso que 70% da população esteja vacinada? Porque isso bloqueia a circulação do vírus de uma maneira geral, inclusive para aqueles que não podem se vacinar.

E bloqueando a circulação do vírus, a gente bloqueia também o aparecimento de novas variantes que podem, inclusive, ser resistentes às vacinas atuais. É uma estratégia de proteção coletiva, sim. É claro que cada um de nós tem os seus direitos individuais, mas à medida que a gente precisa conviver em sociedade, o meu direito não pode colocar a tua vida em risco ou do teu familiar.

JC -A sra. acredita que existe, hoje, maior conscientização sobre a importância da vacinação?

MPM – Muito mais. A resistência foi muito pior. A vacina já começa a demonstrar efeitos muito claros no mundo inteiro, diminuição de mortes, redução de leitos hospitalares. Então, as pessoas vão perdendo o medo daqueles comentários, daquelas fake news que acabam ficando sem sentido. E as pessoas vão aderindo. Precisa estar vacinado para frequentar um restaurante ou um local público.

Cada vez mais, a gente vai estimulando comportamentos e ao mesmo tempo demonstrando a segurança da vacina e o efeito dela na população no mundo todo, não só no Brasil.

JC – Outros detalhes importantes são países que afrouxaram a vacinação. Um exemplo maior são os Estados Unidos, onde ocorreram novas ondas da pandemia…

MPM – Retomaram o uso de máscara e outras medidas de contenção. Nos Estados Unidos, alguns Estados eram absolutamente contra as vacinas. E agora estão revendo suas posições. É um país onde as vacinas são abundantes a ponto até de doar para o Brasil e outros países.

Então, o problema não é a falta de vacinas, como aconteceu conosco aqui durante muito tempo. O problema é acreditar que é uma medida de saúde pública coletiva e eficiente.

JC – Há dificuldades de algumas pessoas completarem o ciclo vacinal. Muitos ficaram assustados com os efeitos da segunda dose. Como a classe médica trabalha com relação a conscientizar em cima dessas lendas em torno das vacinas?

MPM – Mesmo na classe médica, não somos consenso. Os infectologistas e pediatras mostram à população as vacinas que estão disponíveis. Porque sentimos na pele, no nosso dia a dia de trabalho, o efeito de conseguir eliminar, erradicar uma doença que pode ser prevenida com a vacina.

Mostramos exemplos de que os efeitos colaterais não são tão intensos. As complicações que acontecem são muito raras em relação ao número de doses de vacinas aplicadas. A gente vê que o risco de desenvolver trombose por vacina é muito menor em quem fuma, pega Covid-19, usa contraceptivo oral. Não dá pra usar isso como argumento para que a pessoa não se vacine.

A Covid é uma doença com potencial muito grande de gravidade. Vimos isso, perdemos pessoas muito próximas, pessoas públicas, pessoas que tinham toda a capacidade financeira para ter um bom acesso ao serviço de saúde e, mesmo assim, elas se foram porque a doença é muito grave. Então o mecanismo que temos hoje para nos proteger é com a vacinação.

JC –Estão deixando de vacinar contra sarampo e tuberculose. Isso também vem causando problemas….

MPM – Sim, porque é um movimento em cascata. A partir do momento em que eu desacredito a vacina, desacredito a filosofia da imunidade, da proteção que é desencadeada por vacinas.

A pandemia, por si só, cerceou a nossa capacidade de ir e vir. As mães deixaram de levar os filhos aos postos de saúde para cumprir o calendário vacinal com medo que eles adoecessem por Covid. Hoje, temos no Brasil uma das menores taxas de cobertura vacinal.

JC – Isso é um problema….

MPM – É dramático. Tivemos agora muito recente, entre 2018 e 2019, um surto de sarampo no Amazonas que depois foi pra São Paulo e outras regiões do país. Aí as pessoas falam ‘por conta da imigração’. Nada disso, e sim por conta que a nossa cobertura vacinal era baixa.

JC – Muitas pessoas optaram por não se vacinar porque as vacinas foram desenvolvidas de forma rápida, sem cumprir aquelas etapas exigidas. Como avalia isso?

MPM – As plataformas de desenvolvimento de vacinas são praticamente as mesmas. Não se inventou nada diferente por conta da Covid. Foram utilizadas as mesmas tecnologias para desenvolver vacinas como as da hepatite B, influenza. Só que o substrato é que é diferente, desta vez é pra Covid.

Existem etapas que se cumprem para avaliação de eficácia. Obviamente que diante de uma pandemia essas etapas são mais apressadas. Existia o mundo inteiro correndo risco por uma doença que a gente conhecia muito pouco sobre ela. E hoje, no momento que a gente chama de estudos da vida real, começa a ser demonstrado, de fato, que as vacinas são seguras e eficazes.

JC – Sendo infectologista, como avalia a questão de novas variantes poderem afetar mais ainda a gente?

MPM – Os vírus são microrganismos que precisam sobreviver. E eles vão buscar estratégias de sobrevivência. Então, se o jeito de sobreviver é escolher pessoas que não têm proteção ou que tenham uma proteção pela metade, eles vão por aí. Quanto mais pessoas nessas condições, mais os vírus se multiplicam, isso é natural, não é específico da Covid.

Tanto é que para influenza, gripe, a gente precisa fazer novas vacinas a cada ano. Porque a cada ano os vírus se recombinam à medida que as vacinas vão perdendo sua eficácia e originam cepas diferentes, e precisa de uma nova vacina.

Portanto,  a nossa pressa em alcançar essa cobertura vacinal é exatamente para paralisar a circulação do vírus ou diminuir a patamares muito baixos a ponto de que a possibilidade de surgirem novas variantes seja inexpressiva.

JC -Pouco tempo atrás se falava muito do fantasma de uma terceira onda, mas com o avanço da vacinação vemos mais um achatamento dessas informações. Do ponto de vista da perspectiva médica, como avalia essa possibilidade?

MPM – Com o efeito diretamente da vacina, eu diria que a possibilidade de uma terceira onda é cada vez mais remota. Epidemiologistas, infectologistas e estudiosos do assunto acham que a Covid vai assumir um comportamento muito semelhante à gripe.

Em determinadas épocas do ano, teremos um aumento do número de casos e estarão afetadas aquelas pessoas mais vulneráveis. A gente imagina que a doença vai caminhar para o que se chama de endemia -ela não desaparecerá, mas deixará de fazer esse surto, esse grande número de mortes no sistema de saúde que a gente, infelizmente, experienciou por duas vezes em Manaus.

JC – Vemos alguma luz no fim do túnel que já estamos tendo uma endemia….

MPM – Sim, eu quero muito acreditar nisso. Temos vários elementos que corroboram para que isso aconteça e o desfecho seja esse. Mas para termos certeza, precisamos garantir uma cobertura vacinal eficiente. E, se necessário, a dose de reforço não apenas para os vulneráveis, mas para toda a população que já foi previamente vacinada.

JC – Será que vamos ter vacina para tudo isso….?

MPM – Espero muito que sim. E nós pesquisadores temos trabalhado muito para gerar evidências em cima das vacinas produzidas no Brasil.

Fizemos uma etapa do estudo com a vacina CoronaVac e agora outra com a vacina AstraZeneca exatamente para subsidiar o governo brasileiro da segurança e eficácia dessas vacinas para que o Brasil possa ser independente em poucos meses em relação a isso.

JC – Há relatos de que a primeira e segunda onda da pandemia acrescentaram muito em conhecimento aos médicos. Como foram suas ações nesse período e de que forma contribuiu para a sua vida profissional?

MPM – Para nós, infectologistas, viver uma epidemia não é uma novidade. A gente trabalha em cima disso. É o nosso furo de reportagem. Seria o equivalente a vocês (rss). Mas uma pandemia, uma situação de proporções mundiais, é a minha primeira experiência como é também a de todos os meus colegas infectologistas daqui, quiçá do Brasil. Sem dúvida, a pandemia trouxe pra gente mudanças de comportamento e de práticas –são fundamentais.

Mais uma vez colocamos o Amazonas na vanguarda com os estudos sobre Covid no Brasil. Fomos o primeiro Estado brasileiro, talvez um dos primeiros grupos de pesquisa no mundo, a deixar muito claro os riscos que se tinha com o uso da cloroquina em pacientes muito graves com Covid. E, agora, continuamos avançando nos estudos com vacina.

Somos a maior corte, o maior grupo de pessoas com acompanhamento com uso de vacinas, pessoas com comorbidades que são os profissionais da segurança e da educação que incluímos em março deste ano com o estudo da CoronaVac.

E a gente segue produzindo evidências científicas mostrando que a vacinação com duas doses tem uma eficácia maior do que vinha sendo divulgado. Nos nossos 5.071 participantes do estudo, por exemplo, tivemos um óbito por Covid, isso dá 0,02%. Houve 130 infecções por Covid nesse grupo de 5.071 pessoas, dá menos de 3%. Uma eficácia contra infecção de 97%, contra óbito de quase 100%.

E a gente vai ajudando a tirar esses mitos todos de que a CoronaVac era uma vacina ruim, de origem duvidosa.

JC – Dra., sobre a CoronaVac, muitas pessoas diziam que não funcionava. Na verdade, há uma politização na questão vacinal. De certa forma, isso trouxe algum prejuízo?

MPM – Sem dúvida alguma. Toda vez que a gente mistura saúde com qualquer coisa que não seja saúde o resultado não pode ser positivo. O máximo que a gente consegue é misturar saúde com educação.

Mas a política é um outro cenário, não é o cenário dos médicos e pesquisadores, dos cientistas, não é esse o ambiente em que nós estamos acostumados e nos preparamos para atuar.

JC – Houve um embate quase que ideológico e médico com a cloroquina. O que se pode extrair do trabalho que vocês fizeram com o remédio?

MPM – O que a gente pode extrair no que foi produzido até aqui é que a cloroquina não é uma medicação segura em pacientes graves nem em dose mais alta e nem em doses mais baixas.

Não é uma medicação capaz de evitar a gravidade da Covid. Se alguém evoluir para situações graves é porque tem uma imunidade que predispõe a isso. Independente de tomar cloroquina, vai fazer forma grave.

Não é capaz de diminuir a carga viral, de fazer os sintomas serem mais brandos. De fato, o que a  gente tem de investir hoje como prevenção são as medidas de proteção individual como uso de máscara, o distanciamento, o cuidado no momento de aglomerar.

A Fundação de Vigilância em Saúde tem orientado de maneira muito racional e muito prática de como retomar os eventos de forma mais responsável. Também as atividades de lazer de forma mais responsável. E isso a gente vai precisar assimilar e praticar durante algum tempo.

JC -Algumas cidades já começam a deixar suas medidas de proteção. Como a sra. avalia essa questão?

MPM – Eu acho muito precipitado, não temos uma cobertura vacinal ainda de forma geral que nos deixe confortáveis para realizar um Carnaval normal, pra ter um festival. Devemos ter como meta muita responsabilidade ao tomar as decisões.

Foto/Destaque: Divulgação

Marcelo Peres

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