Reportagem: Marco Dassori
Twitter: @marco.dassori
O PIB do Amazonas aqueceu no segundo trimestre, mas estacionou em relação ao ano passado, conforme estudo da Sedecti (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação). O avanço foi de 6,88% em relação aos três primeiros meses de 2022, sem levar em conta a inflação –e de 4,56%, já descontado o IPCA. Em ambas as medidas, os R$ 32,64 bilhões obtidos de abril a junho apontaram para um índice de crescimento superior ao da média nacional (+1,2%). A alta do Produto Interno Bruto do Estado, no entanto, se deu sobre uma base de comparação frágil e já veio mais fraca do que a da virada do ano (+8,55%).
Já o confronto com o mesmo trimestre de 2021 mostra que o peso da escalada dos preços –e dos juros –colocou a atividade econômica do Amazonas em ponto morto, nos meses que antecederam as medidas anticíclicas federais pré-eleições. A elevação nominal foi de 11,97%, superando o arranque trimestral, mas o cálculo em valores líquidos correspondeu a uma virtual estancada (+0,07%). Em contraste, o PIB brasileiro cresceu 3,2% na mesma comparação. É o que apontam os dados do da Sedecti, a partir da pesquisa mais recente do Sistema de Contas Nacionais Trimestrais, do IBGE.
A mesma base de dados sinaliza crescimentos de dois dígitos para todas as atividades econômicas do Estado, em preços correntes. Mas, quando se leva em conta a inflação, o panorama geral é de estabilidade. Os serviços –que incluem o comércio –já correspondem a quase metade do PIB (49,18%) e foram lastreados pelo segmento imobiliário. Puxada pela produção florestal e pesca, a agropecuária teve o maior índice de expansão, mesmo representando apenas 4,95% da soma de produtos e serviços do Amazonas. Em paralelo, o desempenho da arrecadação tributária voltou a superar o da indústria.

Crescimento por setor
Os serviços (R$ 16,05 bilhões) expandiram 12,28% ante 2021, sendo favorecidos pela flexibilização das restrições sanitárias da pandemia, a despeito do impacto da inflação e dos juros nos orçamentos familiares. A alta na virada trimestral foi de 6,89%, também em números brutos. Os segmentos imobiliário (+13,61%) e de educação e saúde privadas (+12,76%), alavancaram o resultado. O comércio (R$ 3,14 bilhões) avançou 12,75% e 6,87%, respectivamente.
Minoritária, a agropecuária (R$ 1,72 bilhão) alcançou a maior alta anual (+14,62%), além de acelerar 6,89% ante o primeiro trimestre, a despeito dos impactos econômicos negativos da pandemia, da cheia recorde e da escalada dos custos de produção. Foi favorecida principalmente pela produção florestal e pela pesca (+15,50% e R$ 598 milhões) e, em menor grau, pela agricultura (+14,39% e R$ 935 milhões) e pela pecuária (+13,03% e R$ 190 milhões).
A indústria (R$ 9,76 bilhões) ficou 4,06% maior no trimestre e 11,23% na base anual –o que corresponde a um desempenho negativo, quando descontada a inflação. O setor manteve sua participação de 29,89% no PIB. Os melhores desempenhos vieram dos subsetores de transformação (R$ 7,65 bilhões) e construção (R$ 993 milhões), ambas com altas de 11,79%. Na sequência estão as indústrias extrativas (+10,81% e R$ 508 milhões) e os serviços industriais de utilidade pública (+7,77% e R$ 1,28 bilhão).
Assim como ocorrido no primeiro trimestre, a performance da manufatura amazonense ficou aquém do recolhimento tributário –que também ficou abaixo do índice de crescimento do PIB. A rubrica de “impostos” (R$ 5,58 bilhões) , subiu 11,62% sobre o segundo trimestre do ano passado (R$ 4,99 bilhões), e ficou 6,88% maior do que a marca do trimestre inicial de 2022 (R$ 5,22 bilhões).
“Efeito cascata”
A conselheira do Corecon-AM, ex-vice-presidente da entidade, e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, reforça que a economia amazonense apresentou “leve estagnação” anual e que o cenário é de perdas na indústria e participação mais expressiva do comércio e da agropecuária, em um cenário de incertezas. “Acredito que os números apresentados pelo setor industrial sejam reflexo dos impactos dos decretos de IPI, da inflação e de todo o cenário macroeconômico”, sintetizou.
Mas, a economista lembra que os próximos meses reservam oportunidades de crescimento. “Teremos Copa, Black Friday, Natal 13º salário, e compras de final de ano, bem como o período de contratação de mão de obra temporária. Tal cenário contribuirá para aquecer o comércio e impulsionar a indústria, assim como favorecer os serviços e a agropecuária, em efeito cascata. Os últimos meses do ano figuram como um período de potencial recuperação da atividade econômica e são muito aguardados pelo mercado. Principalmente depois de um ano desafiador”, enfatizou.
“Próximo do teto”
O consultor econômico e coordenador regional da Abed (Associação Brasileira de Economistas pela Democracia) no Amazonas, Inaldo Seixas, diz que a alta trimestral foi considerável e que o Estado ao menos não encolheu em relação a 2021. Mas, lembra que a economia amazonense costuma ter comportamento diferenciado, em função do PIM. “Quando a indústria gera mais atividade, recolhe mais imposto, o governo gasta mais e o setor comercial fica mais pujante. Quando desaquece, a queda também é grande”, explicou.
O economista aponta que a liberação de recursos públicos, pelo Auxílio Brasil, liberação de FGTS, e adiantamentos de aposentadorias do INSS, dinamizou a economia local, assim como o encarecimento das commodities –que alavancou a agropecuária. Mas alerta que o próximo ano tende a ser mais difícil. “Devemos ver algum crescimento no semestre. Mas, estamos próximos do teto e os empresários estão na expectativa de quem vai ser eleito. As políticas aplicadas neste ano não devem caber no Orçamento de 2023 e isso gera uma crise de expectativas, que podem afetar investimentos, reaquecer a inflação e elevar a taxa de juros”, alertou.
“Otimismo e prudência”
A consultora empresarial, professora e integrante da seção regional da Abed no Amazonas, Denise Kassama, ressalta que os números inspiram “relativo otimismo e relativa prudência”. A economista concorda que houve algum crescimento e que dois meses seguidos de deflação ajudaram. Mas, observa que o processo inflacionário ainda é lastreado por custos dos insumos e mostra resiliência.
“É natural que estamos em um processo de recuperação econômica e os números vão melhorando. Mas, há um custo inflacionário que vai inflando um pouco esse PIB. Outros indicadores, como o de criação efetiva de empregos, não acompanham. A inflação reduziu ligeiramente, mas esse é um movimento artificial, provocado pela redução de impostos. Ainda não dá para dizer que engatamos a marcha para voltarmos a crescer”, finalizou.






