Intenção é mapear processo inovativo e potencialidades dos empreendimentos no Amazonas
Tanair Maria
[email protected]
O Amazonas possui diversas potencialidades naturais e um grande acervo de pesquisas que vem crescendo a cada ano. No entanto, esbarra na burocracia durante a fase de implementação de inovações desenvolvidas por instituições como a Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), Ufam (Universidade Federal do Amazonas), UEA (Universidade do e-stado do Amazonas) Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), entre outras. Divididos entre as cooperativas no interior do Estado e as indústrias concentradas na capital amazonense, os pesquisadores trabalham a contento. No entanto, na prática os resultados não saem do papel. Falta atrativo para que os investidores aportem recursos e a produção alcance escala comercial.
De acordo com o superintendente do Sistema OCB/AM, Adriano Trentin Fassini, a pesquisa é importante. Além de ir a campo e coletar dados, também desenvolve soluções. Porém, a solução muitas vezes fica apenas na dissertação. “Fica lá no TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), fica lá no material produzido. Não é disseminado da forma como deveria ser e também não avança dentro do processo de fixação da inovação”, alerta.
Fassini explica que a falta de incentivo para implantar uma cadeia produtiva em torno das pesquisas desenvolvidas, impede o crescimento das cooperativas. “O grande problema é a não implementação das inovações que são desenvolvidas. Então, cria-se alternativa de inovação, mas ela acaba não se firmando porque não há uma escala, não há um volume, não há um desenvolvimento dos passos seguintes à criação da inovação e, isso não é implementado”, disse.
A presidente da Coapmar (Cooperativa de Agricultores e Pescadores de Manacapuru e Região), Veridiana Nogueira Café, mesmo com tantos estudos os avanços tecnológicos ainda não chegaram naquela localidade, onde predomina o cultivo de macaxeira, mamão e melancia. “Para nós ainda não chegou nada. Nosso trabalho continua sendo feito de forma artesanal. Nem Embrapa, nem Fapeam, nem Inpa nunca chegaram até a nossa região”, revelou.
Na indústria
Na avaliação do presidente do Cieam, Wilson Périco, tudo depende do produto desenvolvido, que precisa ter atrativo para que os investidores aportem recursos e a produção alcance escala comercial. “E esse é o grande desafio: identificar o produto que tenha esse apelo para atração de investimentos desse trabalho que está tendo. O foco é esse e nós temos que continuar buscando identificar potenciais produtos para atrair investimentos”, afirma. Outro desafio é gerar novas matrizes econômicas para que o Amazonas torne-se autossuficiente em outros setores, inclusive no desenvolvimento de novas tecnologias por meio de pesquisas (PD&I). “Eu acredito que é mandatório para o Estado encontrar novas alternativas econômicas. Nós não podemos continuar tão reféns daquilo que tem no Polo Industrial de Manaus”, ratifica o presidente do Cieam.
Arranjos produtivos promissores
Dois promissores arranjos agrícolas, a fibra da malva e juta e o cultivo do guaraná, ainda aguardam por investimento em tecnologia. “Na fibra a gente vê isso. Já existem tecnologias para diminuir um pouco do trabalho insalubre que o pessoal faz na colheita da juta e malva, mas que não foram viabilizados”, relata Fassini.
Ainda no exemplo da fibra de malva e juta, a falta de visão empreendedora também impede o crescimento dessa cadeia produtiva. “Primeiro porque não tem um volume de grande produção e aí é difícil de produzir numa escala significativa, esses equipamentos. E segundo, que a pesquisa fica na pesquisa, acaba não avançando no sentido de desenvolver o equipamento, por exemplo, para desfibrar a juta e a malva”, lamenta o superintendente do Sistema OCB/AM.
Segundo Fassini, não se fala em estratégia para avançar na cadeia produtiva no sentido de integrar uma empresa para fabricar esses equipamentos agrícolas num volume significativo de demanda, que as cooperativas e os produtores precisam. “Já foi construído um protótipo, tem o equipamento, teve dias de campo na Embrapa para demonstrar todo esse processo. Entretanto, não chegou ao campo. Nenhum produtor utiliza esse potencial porque não tem produção em escala desses equipamentos”, revelou.
Para piorar ainda mais a situação, a crise econômica além de afetar diretamente a produção de fibra no Amazonas, também desestimula o avanço tecnológico. “E aí com a crise no setor da fibra também acaba ficando mais distante a possibilidade de chegada dessa tecnologia para os produtores de fibras de juta e malva, porque o mercado está muito difícil para esse segmento econômico. Esse é um dos exemplos”, disse.
Outro exemplo vem do cultivo do guaraná, que apesar dos esforços para utilizar a tecnologia praticada em outras praças, boa parte dos produtores trabalha de forma artesanal. “Na Bahia, o maior produtor de guaraná do Brasil, o processo de industrialização é bem mais avançado que aqui. Mas existem pesquisas aqui, enfim”, observou.
Sabemos que as pesquisas são fundamentais para gerar tecnologia e inovação aos setores produtivos. No Amazonas, por exemplo, existem inúmeros trabalhos publicados e em andamento até 2017. A parte dos pesquisadores está sendo realizada a contento. Entretanto depois de tanta pesquisa, de tanto tempo de dedicação não se vê uma sequência, nem divulgação, muito menos a disseminação das pesquisas.
Agora, o desafio é fomentar o encontro entre quem já utiliza alguma dessas novas tecnologias com quem, ainda, trabalha de forma artesanal. O excesso de burocracia no processo de emissão de patentes e o custo elevado são alguns dos entraves pós-pesquisa.
Pesquisa inovativa
Qual segmento que trabalha com produtos naturais com valor comercial que apresenta mais atividade inovativa, o de fitoterápicos ou o de cosméticos? Para responder a esse questionamento e outros que virão, a mestre em Economia dos Recursos Naturais, Rosana Zau Mafra está desenvolvendo um estudo para identificar a incidência do processo inovativo nas empresas sediadas no Estado com foco nos segmentos de produtos naturais. O trabalho deve ser concluído em 2017.
Segundo a pesquisadora, ainda que a concepção original da bioindústria enfatize o uso da biotecnologia moderna nas mais diversas atividades produtivas, para fins desta pesquisa, no contexto local, esta se caracteriza pelo uso da biodiversidade no estado in natura ou submetida a processos de beneficiamento simples, como cortar, polir, lixar, pintar, secar etc.
Integram a bioindústria local os seguintes segmentos: fitoterápico, alimentos e bebidas e cosméticos. “Tradicionalmente, no Amazonas, os segmentos que utilizam produtos gerados da biodiversidade, no caso, com pouca complexidade técnica, tais como o de cosméticos, fitoterápicos, alimentício e agrícola, compreendem a bioindústria local”, disse Rosana Zau.
O estudo pretende contribuir para destacar a potencialidade dos empreendimentos amazonenses. “Esta pesquisa busca, por meio de análises econômicas, mostrar o potencial que estes empreendimentos podem ter, caso a cooperação com as ICTs (Instituições Científicas e Tecnológicas) seja estimulada”, disse a pesquisadora. Essa pesquisa também visa contribuir com o fortalecimento do setor no Amazonas, contando com o apoio do governo do Amazonas, por meio da Fapeam e também, da parceria com a Ufam.







