Famílias de baixa renda já estão confiantes nas compras, mas os mais ricos mantêm cautela

Em: 21 de dezembro de 2023

Os consumidores de Manaus reforçaram a confiança nas compras, em dezembro. Na média, os dados locais da CNC (Confederação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) para a ICF (Intenção de Consumo das Famílias) revelam um 18º avanço seguido, em ritmo superior ao do país. Mas, assim como em outubro, a alta foi sustentada unicamente pelas famílias com renda mensal de até dez salários mínimos. No mês do Natal, foram registradas melhoras na percepção sobre renda, emprego e intenção de adquirir bens duráveis, mas as queixas sobre dificuldades de acesso ao crédito persistem.

O ICF de Manaus marcou 104,3 pontos e já está na zona de satisfação (acima dos 100 pontos) há um mês. Houve aumento de 1,9% ante novembro (102,3 pontos) e de 73,39% sobre o dado de 12 meses atrás (59 pontos). Foi a melhor pontuação em mais de três anos, desde março de 2020 (105,2 pontos). Mas, o ganho de otimismo ficou mais uma vez restrito às famílias de renda mais baixa (101,3 pontos), que finalmente cruzaram a linha de satisfação. Em contraste, os consumidores mais abastados (135,2 pontos) foram na direção oposta, embora tenham permanecido também no quadrante de confiança. 

Com isso, Manaus voltou a se descolar da média nacional. O indicador saiu da estagnação para um recuo de 0,7% em todo o país, na passagem de novembro para dezembro. Foi o primeiro resultado negativo, desde dezembro de 2021, embora tenha se mantido no quadrante positivo de confiança (105,2 pontos) pelo quinto mês. No confronto com dezembro do ano passado, houve nova escalada de dois dígitos (+15,3%). Em comunicado à imprensa, a CNC avaliou que os números sinalizam “maior cautela do consumidor na reta final deste ano”. 

A nova alta do ICF de Manaus ocorre no mesmo mês de a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), medida pela mesma entidade, marcar estabilidade, com 78,6% (516.085) das famílias de Manaus embarreiradas por contas a pagar –sendo que 45% (296.434) estão inadimplentes. Em paralelo, o Icec (Índice de Confiança do Empresário Comercial), também da CNC, marcou uma nova piora no humor dos comerciantes, embalada pela percepção sobre as condições atuais da economia e contaminações nas expectativas. Foi o pior escore (104,3 pontos) do ano, embora ele se mantenha na margem satisfatória.

Renda e emprego

O ICF de Manaus avançou em seis de seus sete componentes, na variação mensal. Quatro deles reforçaram o patamar de satisfação –ligados à vida profissional, vencimentos e expectativas. As melhores taxas de crescimento em relação a novembro vieram do nível de consumo atual (+6,3%) e da perspectiva profissional (+4,2%). O entendimento sobre renda atual (+2,8%), perspectiva de consumo (+2,7%) também se destacaram, mas o indicador sobre emprego atual (+0,2%) mal se moveu. O dado negativo veio do acesso ao crédito (-5,5%), apesar do progresso de “momento para duráveis” (+2,2%).

Apesar da queda lenta e gradual dos juros, o dado mais negativo vem da situação atual do crédito (84,7 pontos): 44,9% consideram que o acesso está mais difícil do que no ano passado. Apenas 29,6% apontam que ficou mais fácil e 21% dizem que empatou. O subindicador de “momento de aquisição de bens duráveis” (85,7 pontos) melhorou, mas tem a segunda pior pontuação, sendo que 51,1% consideram que esta não é a melhor hora para isso. Em ambos os casos, a insatisfação é maior entre os mais pobres.

Ainda assim, o nível de consumo atual deixou de ser um dos fatores que puxavam a média de Manaus para baixo e, pouco a pouco, se aproxima da zona de satisfação. Mesmo com os aumentos seguidos, o subindicador tem o terceiro pior escore da lista (91 pontos) – embora as famílias com renda acima de dez mínimos tenham pontuação muito maior (131,7 pontos). A fatia de manauenses que estão indo menos às compras (41,8 pontos) voltou a diminuir, mas continua majoritária. Uma parcela crescente de 32,9% já diz que está consumindo mais, enquanto 23,5% não veem nenhuma diferença. 

Em contraste, a avaliação sobre a renda familiar atual (112,1 pontos) e a perspectiva de consumo (113,2 pontos) seguem além da linha divisória da satisfação. Uma minoria cadente de 23,5% dos entrevistados em Manaus diz que a renda familiar piorou em relação ao cenário econômico de 12 meses atrás, ao passo que 35,5% enxergam melhora e 39,4% consideram que está igual. Em paralelo, a maior parte das famílias de Manaus espera compras maiores nos próximos meses (42,2%), enquanto o grupo que aguarda cenário inverso (29,1%) voltou a encolher, e 24,7% apostam em estabilidade.

A perspectiva profissional (132,5 pontos) ainda contabiliza o maior escore da lista e ampliou vantagem sobre o subindicador de situação atual do emprego (110,8 pontos). A maioria absoluta dos consumidores (56,9%) prevê melhora nos próximos seis meses, aumentando ainda mais sua vantagem sobre os que têm opinião contrária (24,4%). Mas, o percentual de indecisos (18,7%) também continua crescendo. Os que se dizem “mais seguros” profissionalmente (30,7%) superam os “menos seguros” (19,9%), mas 25,8% apontam estabilidade e outros 23,5% estão desempregados.

“Cenário desafiador”

No entendimento do presidente em exercício da Fecomércio-AM, Aderson Frota, a aproximação do Natal demonstra recuperação no varejo. “Esses sinais, adicionados ao crescimento do emprego, indicam que a economia está entrando em processo de retomada, e que os consumidores estão recuperando acesso ao crédito –mesmo que em uma quantidade ainda pequena. Isso é muito importante para o setor”, analisou, estimando que o Natal deve gerar um crescimento de vendas acima de 10% para a média do setor. 

Texto da assessoria de imprensa da CNC, informa que, mesmo às vésperas do Natal, 60,6% dos consumidores brasileiros evitam a compra de bens duráveis e dependentes de crédito, sendo que as famílias mais ricas pioraram sua avaliação nesse quesito. O economista-chefe da entidade, Felipe Tavares, lembra que tais consumidores são menos vulneráveis às variações de juros e renda, pois estão mais estáveis no trabalho. “O consumo de bens com ticket médio maior depende da renda dos consumidores e do crédito disponível, que geram uma sensação de aumento do poder de compra”, explicou.

Ainda assim, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, reforça que a expectativa é otimista para o Natal. “A previsão da Confederação é que o varejo movimente mais de R$ 69 bilhões neste mês, 5,6% a mais que no ano passado e o maior crescimento em quatro anos. É um resultado muito importante se levarmos em conta o cenário desafiador que a economia brasileira vive nos últimos anos”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar