As famílias de Manaus ficaram ainda mais endividadas com o comércio e os serviços locais, em outubro. Ao menos 77,1%, o equivalente a 500.404 delas, já se dizem nessa condição. É um patamar significativamente maior do que os registrados em setembro de 2022 (73,9% e 479.130) e em outubro do ano passado (72% e 461.108), embora ainda esteja atrás da média nacional (79,2%). O comprometimento da renda com cartões, carnês, cheques e financiamentos em geral é proporcionalmente maior entre as famílias com renda mensal acima de dez salários mínimos: 83,1% estão nessa situação.
A inadimplência também avançou com força e pulou de 33% (214.191) para 35,1% (228.084). Mas, neste caso, a capital amazonense barrou o dado brasileiro (30,3%). Há um ano, quando o consumidor enfrentava inflação e juros mais baixos, essa taxa não passava de 24,2% (155.173). O problema é ainda maior para 16,4% (106.177) das famílias manauenses, que já admitem não poder pagar mais compromissos financeiros atrasados. Foi o mesmo percentual demarcado no mês anterior (106.493), embora seja uma fatia muito maior do que a mensurada há um ano (13,5% e 86.666).
Diferente do ocorrido em âmbito nacional, as famílias mais ricas também seguem entre as mais inadimplentes, com 39,8% delas nessa situação. O grupo dos que já se encontram sem capacidade de pagamento, por outro lado, é liderado pelos que recebem até dez salários mínimos. Assim como no restante do país, cartões de crédito e carnês ainda são os principais vilões do endividamento e da inadimplência. É o que apontam os dados locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
Manaus foi em direção diferente da média nacional. A proporção de brasileiros endividados caiu de 79,3% para 79,2%, entre setembro e outubro, após três meses seguidos de alta. Houve alta ante o mesmo mês de 2021 (74,6%). O percentual de famílias com contas em atraso cresceu de 30% para 30,3%, superando também o dado do ano passado (25,6%). A fatia dos consumidores brasileiros que admitiram não ter mais condições de pagar contas atrasadas praticamente não se moveu e ficou em 10,6% do total –contra 10,1%, há 12 meses. Sul e Sudeste concentram os maiores percentuais de endividamento, enquanto Norte e Nordeste se destacam em contas em atraso.
Cartões e carnês
O cartão de crédito aumentou sua participação no bolo das dívidas de Manaus e continua sendo predominante no endividamento das famílias locais. O meio de pagamento respondeu por 70,3% das dívidas de setembro, fatia pouco superior à registrada em setembro (70%). Seu uso ainda é mais comum entre as famílias de maior renda (79,7%), em razão de sua praticidade, a despeito de ainda ser a modalidade de crédito mais caro. Segundo a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), os juros já estão em 14,40%, ao mês, e 402,47%, ao ano.
Os carnês (45,1%) também progrediram nas preferências, sendo impulsionados também pelos que recebem mais (49,3%). O cheque especial (3,3%), que era mais usado pelos mais pobres, neste mês ganhou a primazia entre os consumidores de rendimentos mais elevados. O mesmo ocorreu com o cheque pré-datado (0,6%), uma invenção brasileira e que vem aumentando rapidamente sua participação no bolo. “Outras dívidas” já respondem por 11,4% do bolo. A lista se completa com crédito pessoal (10,5%), crédito consignado (4,7%) e financiamentos de carro (4,7%) e casa (2,8%).
Houve piora no nível de endividamento dos manauenses. Uma fatia superior à do levantamento anterior se diz “muito endividada” (20,2%), com predomínio das famílias com renda até dez salários mínimos (21,2%). Os que contam com vencimentos mais robustos se dizem “pouco endividados” (27,8%) e “mais ou menos endividados” (29,1%).
Em média, as famílias de Manaus devem levar 34 semanas para quitar as dívidas. O percentual dos que esperam levar mais de um ano para tanto (37,8%) ainda é o mais elevado, mas sofreu leve diminuição, assim como ocorrido na parcela dos devedores comprometidos entre seis meses e um ano (20%). O mesmo não pode ser dito dos grupos de endividados em até três meses (17,4%) e de três a seis meses (22,3%).
O nível de comprometimento de renda praticamente ficou na mesma. As famílias manauenses consomem 38,8% de seus ganhos com dívidas –contra 39,4%, no levantamento anterior. Ao menos 49,7% ainda gastam mais da metade de seus rendimentos com esse fim, embora o número já seja melhor do que os de setembro (47,5%), agosto (52,8%) e julho (55,9%). Na sequência estão os que consomem de 11% a 50% de sua renda (43,74%) e os que limitam os dispêndios a 10% de seus ganhos (5,8%).
Em torno de 45,6% dos endividados em Manaus já estão com contas atrasadas. Dentro desse grupo, apenas 20,4% garantem que conseguirão quitar o compromisso integralmente no próximo mês. Outros 32,2% estimam que vão pagar apenas parcialmente, e os 46,6% restantes assumem que vão seguir devendo. Em média, as dívidas dos inadimplentes de Manaus estão atrasadas há 61 dias. Em torno de 25,7% delas estão nessa situação há mais de 90 dias. A maioria (57,6%) está devendo em um período de 30 a 90 dias (58,6%). Os que estão pendentes há menos de um mês são 15,9% do total.
Peso dos juros
O assessor econômico da Fecomércio-AM, Enio Ferrarini, salienta que a inadimplência das famílias de Manaus supera a média nacional e que o indicador de endividamento está em marcha crescente, impactado pela pressão dos juros. Segundo o BC (Banco Central), o custo do dinheiro nas linhas de crédito para pessoas físicas atingiu 53,7%, em média. “Em sua última reunião, o Copom manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano pelo terceiro mês consecutivo, o que equivale a um juro real de 8,5%, o maior do mundo. Na prática, o juro que financia o crédito das famílias é superior a 53% e o da inadimplência supera 300%. São alguns fatores, que aliados ao aumento dos preços, justificam os dados da pesquisa”, frisou.
Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, observa que as proporções de endividados no cartão de crédito e no cheque especial aumentaram em um ano, embora sejam as modalidades mais caras. Já o crédito consignado, um dos tipos de crédito com juros mais baixos (cerca de 25% ao ano, segundo o BC) perdeu espaço. Mas, conforme a economista, tenderia a voltar a crescer, em razão de sua contratação pelos beneficiários do Auxílio Brasil.
No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, avalia que a geração progressiva de vagas no mercado de trabalho, a queda da inflação, e a políticas de transferência de renda “mais robustas” têm aumentado a renda disponível, o que explicaria a desaceleração da proporção total de endividados. Mas, ressalta que os orçamentos domésticos das famílias brasileiras ainda estão apertados. “O nível de endividamento alto e os juros elevados pioram as despesas financeiras associadas às dívidas em andamento, ficando mais difícil quitar todos os compromissos financeiros dentro do mês”, encerrou.
Reportagem: Marco Dassori
Twitter: @marco.dassori







