Famílias querem consumir em janeiro, mas longe do crédito, em Manaus

Em: 26 de janeiro de 2024

A média dos consumidores de Manaus voltou a reforçar a confiança, em janeiro. Os dados locais da CNC (Confederação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) para a ICF (Intenção de Consumo das Famílias) revelam um 19º avanço seguido, na contramão do resto do país. Foram registradas novas melhoras na percepção sobre renda, consumo e emprego, mas a dificuldade de acesso ao crédito escalou, minando a intenção de comprar bens duráveis. Além disso, assim como nos três meses anteriores, a alta foi sustentada unicamente pelas famílias com renda de até dez salários mínimos.

O ICF de Manaus marcou 105,3 pontos e está na zona de satisfação (acima dos 100 pontos) há dois meses. Houve aumento de 0,9% ante dezembro (104,3 pontos) e de 64,27% sobre 12 meses atrás (64,1 pontos). Foi a melhor pontuação em quase quatro anos, desde fevereiro de 2020 (105,9 pontos). Assim como em dezembro, o ganho de otimismo ficou restrito às famílias de renda mais baixa (102,8 pontos), onde a confiança progrediu 1,48%. Já os consumidores mais abastados (131,4 pontos) foram na direção oposta (-2,81%), embora tenham permanecido no quadrante de confiança. 

Manaus voltou a se descolar da média nacional. O indicador começou o ano renovando o recuo do levantamento anterior, ao declinar 0,5% em todo o país, na variação mensal. Mesmo assim, o indicador se manteve no quadrante positivo de confiança (105,9 pontos) pelo sexto mês. No confronto com janeiro do ano passado, houve nova escalada de dois dígitos (+12,8%). Em comunicado à imprensa, a CNC avaliou que a preocupação com o emprego e com o endividamento ainda está freando o consumidor brasileiro. 

A nova alta do ICF de Manaus ocorre no mesmo mês em que a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), medida pela mesma entidade, sofreu repique, com 80,3% (529.820) das famílias de Manaus embarreiradas por contas a pagar – sendo que 48% (316.962) estão inadimplentes. Em paralelo, o Icec (Índice de Confiança do Empresário Comercial), também da CNC, registrou seu segundo mês de melhora. Os lojistas melhoraram a percepção sobre a economia e expectativas de investimento. Mas, o entusiasmo é menor do que o de um ano atrás, e a intenção de contratar arrefeceu.

Renda e emprego

O ICF de Manaus avançou em cinco de seus sete componentes, na variação mensal. Mas, três deles continuam no patamar de insatisfação. As melhoras mais significativas vêm da satisfação com a renda atual (+2%), nível de consumo atual (+5,1%) e perspectivas de consumo (+4,9%). A percepção sobre emprego (+1,1%) e perspectivas profissionais avançaram bem menos (+0,2%). Em sintonia com a ressaca das festas de fim de ano, os dados negativos vêm do acesso ao crédito (-6,7%) e da intenção de comprar bens duráveis (-1,5%). 

Apesar da queda lenta e gradual dos juros, o dado mais negativo veio novamente da situação atual do crédito (79 pontos): 48,1% consideram que o acesso está mais difícil do que no ano passado. Apenas 27,1% apontam que ficou mais fácil e 19,7% dizem que empatou. O segundo pior número veio do subindicador de “momento de aquisição de bens duráveis” (84,5 pontos), sendo que 51,6% consideram que esta não é a melhor hora para se endividar com compras. Em ambos os casos, a insatisfação é maior entre os mais pobres.

O nível de consumo atual já deixou de ser um dos fatores que puxavam a média de Manaus para baixo e, pouco a pouco, se aproxima da zona de satisfação. Mas, mesmo com os aumentos seguidos, o subindicador tem o terceiro pior escore da lista (95,6 pontos). Famílias com renda acima de dez mínimos contam com pontuação muito maior (122 pontos), apesar de terem reduzido o otimismo. A fatia de manauenses que estão indo menos às compras (39,2 pontos) voltou a diminuir, mas continua majoritária. Uma parcela crescente de 34,9% já diz que está consumindo mais, enquanto 23,8% não veem nenhuma diferença. 

Em contraste, a avaliação sobre a renda familiar atual (114,3 pontos) e a perspectiva de consumo (118,7 pontos) seguem além da linha divisória da satisfação. Uma minoria cadente de 24% dos entrevistados em Manaus diz que a renda familiar piorou em relação ao cenário econômico de 12 meses atrás, ao passo que 38,3% enxergam melhora e 36% consideram que está igual. Em paralelo, a maior parte das famílias de Manaus espera compras maiores nos próximos meses (45,4%), enquanto o grupo que aguarda cenário inverso (26,7%) voltou a encolher, e 24,4% apostam em estabilidade.

A perspectiva profissional (132,7 pontos) ainda contabiliza o maior escore da lista, seguido pelo subindicador de situação atual do emprego (112 pontos). A maioria absoluta dos consumidores (56,9%) prevê melhora nos próximos seis meses, aumentando ainda mais sua vantagem sobre os que têm opinião contrária (24,1%). O percentual de indecisos (19%) também continua crescendo. Ao mesmo tempo, os que se dizem “mais seguros” profissionalmente (33,3%) superam os “menos seguros” (21,3%), mas 23,7% dizem que está igual e outros 21,4% estão desempregados.

“Consumo em recuperação”

Em entrevista recente à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, disse que a aproximação do Natal animou o varejo e ajudou os comerciantes a se reinventarem, depois do baque da estiagem recorde de 2023. “Esses sinais, adicionados ao crescimento do emprego, indicam que a economia está entrando em processo de retomada, e que os consumidores estão recuperando acesso ao crédito – mesmo que em uma quantidade ainda pequena. Isso é muito importante para o setor”, analisou, estimando que o Natal deve gerar um crescimento de vendas acima de 10% para a média do setor. 

Texto da assessoria de imprensa da CNC, assinala que a desaceleração da inflação melhorou o ânimo das famílias do Brasil sobre sua renda, e a queda gradual dos juros aumentou a disposição de comprar bens duráveis. Mas, conclui que a preocupação com o emprego e o endividamento pesam mais. O presidente da CNC, José Roberto Tadros, considera que o “consumo está em recuperação”, embora ainda hajam desafios a serem superados. “A nossa expectativa é que o cenário econômico continue melhorando nos próximos meses, o que deve contribuir para um crescimento mais robusto do consumo ao longo de 2024”, pontuou.

No mesmo texto, o economista-chefe da entidade, Felipe Tavares, destacou que o nível de consumo atual entrou no campo da insatisfação, ao sabor da sazonalidade negativa de janeiro. “O início do ano exige maior controle do orçamento por conta dos gastos específicos do período, como IPTU, IPVA, material escolar e matrículas, entre outros, o que influencia muito no consumo das famílias”, finalizou, ressalvando que o subindicador de perspectiva de consumo continua no quadrante positivo.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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