Considerado um dos modais mais baratos, o transporte fluvial urbano para transporte de massas, há tempos vem sendo pensado em Manaus, tendo inúmeros ‘pais da matéria’, várias promessas de campanha e uma emenda (vetada) na LOA (Lei Orçamentária Anual) do município. Implantada em 2014 por uma empresa privada no bairro Colônia Antônio Aleixo (zona Leste), a linha fluvial que ia do bairro ao Centro e voltava, cobria o trajeto em 30 minutos, uma hora a menos que o mesmo percurso feito de ônibus (em dia de trânsito calmo). Infelizmente, a única ação concreta sobre o tema não passou das viagens inaugurais.
Um estudo mais amplo sobre o tema é o que espera o presidente da Comtvop (Comissão de Transporte, Viação e Obras Públicas) da CMM (Câmara Municipal de Manaus), vereador Rosivaldo Cordovil. “A demanda para cobrir as linhas fluviais existe, mas precisamos estudar a viabilidade comercial, o volume de passageiros e os custos com combustível para definição de uma tarifa justa. A falta desses estudos talvez tenha sido a causa do fim da linha Colônia Antônio Aleixo-Centro”, disse o vereador.
Segundo o vereador, as propostas para a exploração do transporte fluvial são indicações que podem virar PL (Projetos de Lei) e serem encaminhadas à PMM (Prefeitura Municipal de Manaus)*, daí a necessidade de mais conhecimento sobre o assunto. “Para abrir licitações, estudar as propostas de subsídios de combustível e a construção de portos, precisamos saber mais, comparar com outras cidades que já tenham o modal em funcionamento.
Ainda de acordo com o vereador, a cidade se beneficiaria por deixar de depender dos rodoviários legais e ilegais. “Estes, quando querem, param a cidade e raramente há punição. O modal fluvial é uma alternativa que pode garantir a fluidez do trânsito e ainda abarca o turismo e recreação. Agendaremos para breve uma audiência pública na CMM para ouvir os interessados em explorar o serviço, com isso evitaríamos o monopólio, garantindo uma tarifa justa”, conclui Cordovil.
Pauta antiga
Em agosto de 2015, o modal foi tema de discussão em Pequeno Expediente da CMM. Na época vereadores debateram a criação de linhas fluviais cobrindo a orla e atracando em diversos portos. Saindo da Colônia Oliveira Machado (zona Sul) indo ao Mauazinho (zona Leste), voltando à zona Sul pelo Educandos, seguindo para o São Raimundo e tendo porto final na Ponta Negra (zona Oeste), de autoria do vereador Mário Frota, a proposta ainda não saiu do papel.
Na mesma sessão, o vereador Plínio Valério lembrou que a linha fluvial urbana foi um dos temas defendidos na sua campanha, em 2004, quando foi candidato à prefeito de Manaus. Na Câmara, o vereador teve uma emenda na LOA vetada. “Não podemos fugir dessa realidade, gostaria de colocar essa ideia, pelo menos, como diretriz na LOA, visto que, o transporte fluvial será uma das saídas para conter o caos no trânsito”, disse o vereador na época.
Falta planejamento
Uma política de governo e não de Estado, que tenha planejamento com urbanismo olharia com bons olhos projetos do tipo, conta o presidente do CAU/AM (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas) Jaime Kuck. “O uso do transporte fluvial urbano em Manaus, além de desafogar o trânsito, daria vida às comunidades do caminho. Os transportes fluviais alimentariam outros modais, como micro-ônibus que por sua vez alimentariam os eixos distribuidores de massa, como os expressos ou BRTs (Bus Rapid Transit). Afastando-se dos eixos maiores, os custos são menores e nasceriam pelo caminho pequenas indústrias e comércio. É preciso pensar nisso e incluir no Plano Diretor da cidade”, afirma Kuck.
Para o professor, esse modal interbairros só não é mais eficiente por estar sujeito à sazonalidade de cheias e secas nos rios. “É preciso se pensar em portos que funcionem o ano todo, para isso falta planejamento. Daria para fazer linhas que unissem o Puraquequara ao Tarumã e assim democratizar a orla da cidade que é ocupada por grandes áreas privadas, como estaleiros e indústrias”, ressalta.
A necessidade do intermodal também é lembrada pelo professor. “O pouco calado e o assoreamento dos igarapés impede que as embarcações entrem nos bairros, daí a importância de outros veículos que façam a integração aos eixos maiores”, conclui Kuck.
Catracas resistem
Há nove anos fazendo pequenas travessias em um dos portos improvisados da Colônia Antônio Aleixo, o catraieiro Raimundo Souza lembra das promessas de transporte urbano nos rios e igarapés de Manaus. “Quando anunciaram a novidade e fizeram as primeiras viagens de lancha daqui ao Centro, houve interesse geral, a comunidade comemorou, mas ninguém pensou que era preciso ter portos para atracagem, estrutura para receber novas linhas e principalmente preços baixos”, disse Souza.
Na época a travessia chegou a custar R$ 10, o que pode ter decretado o fim do serviço. “Nós aqui nem pensamos em concorrer. Para isso precisa de lanchas grandes e combustível barato. Manter um serviço assim é caro e isso reflete no preço da passagem. Faltou apoio à ideia”, disse o catraieiro que faz viagens para comunidades próximas do bairro.
* A reportagem entrou em contato com a PMM para saber mais a respeito do tema e não obteve resposta.







