A Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos) estima que um total de 50 unidades brasileiras estão com os abates paralisados por conta dos reflexos da crise financeira internacional no setor. De acordo com o presidente da Abrafrigo, Péricles Salazar, o abate mensal dessas unidades é de 30 mil cabeças e chega a representar 15 mil postos de trabalho.
Ao participar de audiência pública na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado, ele lembrou que há “um receio generalizado” por parte dos produtores em relação à venda de bois a prazo. “As restrições e as garantias aumentaram na mesma proporção da crise”.
Salazar se disse surpreso com notícia de um pacote de socorro aos grandes frigoríficos brasileiros, divulgada na última segunda-feira, 16, pelo jornal Valor Econômico. Ele criticou a estratégia de colocar mais dinheiro “em meia dúzia ou em uma dúzia de empresas” e afirmou que ninguém pensa no pequeno e no médio produtor.
“O governo terá que fornecer um norte sem que o dinheiro público financie essa solução. A injeção financeira não será o remédio adequado para a crise”, acrescentou.
Opiniões divididas
O diretor executivo da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), Otávio Cançado, defendeu no último dia 16, em entrevista à Agência Brasil, a intervenção imediata do governo no setor de frigoríficos, bem como “em todos os setores que estejam passando por dificuldades similares”.
Dos 21 grandes frigoríficos representados pela Abiec, sete já pediram recuperação judicial devido a problemas de crédito gerados pela crise financeira internacional. Cançado revelou que o número de desempregados nessas sete empresas alcançou 52 mil. Pelos cálculos da entidade, caso não sejam tomadas medidas para atenuar a crise, o desemprego pode passar de 100 mil pessoas, considerando-se que, para cada emprego formal criado em um frigorífico, são gerados mais dois empregos fora.
Cançado ressaltou que o pedido de recuperação judicial dessas empresas não significa que haja uma crise instalada no setor como um todo. “É uma crise pontual de cada empresa”, afirmou. “Outros frigoríficos, como JBS, Bertin e Minerva, por exemplo, não apresentam dificuldades”, assegurou.
O diretor executivo da Abiec vê com bons olhos a possibilidade de socorro do governo federal às empresas do setor que estejam passando por dificuldades. “Se há dificuldade de capital de giro no setor, que é o que move essas empresas frigoríficas, há que ter uma intervenção governamental, sim”, defendeu.
Cançado disse que, no Brasil, as indústrias exportadoras de carne são mais uma parcela do setor produtivo que está sendo afetado pela crise internacional. E frisou que “até agora não foi socorrida pelo governo nenhuma empresa do setor produtivo. Eu acho que o governo já deveria ter feito isso”. Um socorro público, sob a forma de financiamento por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), pode, segundo Cançado, evitar efeitos piores da crise, como redução do emprego, queda da renda e da balança comercial.
O presidente da Abrafrigo, Péricles Salazar, atribuiu, em alguns casos, às próprias empresas a responsabilidade pelos problemas, que resultam de erros estratégicos. “O setor não está bem. Está atravessando um momento de grande dificuldade, tanto para os frigoríficos que exportam, como para os que estão presentes no mercado interno”, relatou.
Os pequenos e médios frigoríficos já vinham passando por dificuldades, mesmo antes da deflagração da crise internacional, em setembro do ano passado. Segundo Salazar, esses empresários vinham enfrentando problemas no que se refere ao abastecimento de matéria-prima, que é o gado para o abate. Desde de outubro do ano passado, as exportações brasileiras vêm sofrendo o impacto da crise externa, com a suspensão dos embarques para Rússia e União Européia. Salazar disse que a pequena recuperação observada no começo deste ano “não chega nem perto dos níveis anteriores”.
Abrafrigo rejeita ajuda e ministro admite facilitar o crédito para o mercado
Apesar da crise, Salazar se mantém contrário a qualquer tipo de socorro governamental ao setor que signifique a injeção de recursos do BNDES, por exemplo. “Porque nós entendemos que é uma distorção que gera no mercado. Isso porque somente poucos são beneficiados e uma grande maioria fica à margem desses financiamentos por parte do governo. Se nós já éramos contra antes, somos mais contra agora”, afirmou.
O presidente da Abrafrigo observou que, no caso dos grandes frigoríficos, além dos problemas estruturais da cadeia produtiva, como indisponibilidade de bovinos para abate e a crise financeira que gerou a perda da exportação, foram cometidos erros de gestão interna. “Não podemos permitir que se socialize o prejuízo e capitalize o lucro”.
Salazar defendeu que um eventual financiamento para o setor frigorífico deva abranger todas as empresas e não somente as de grande porte. Na avaliação da Abrafrigo, é preciso também que as próprias empresas promovam rearranjos de gestão. “Elas [empresas] vão ter que se reorganizar estrategicamente. Vão ter que definir novos rumos e buscar instrumentos próprios, que não recursos públicos, para se ajudar. Como sucede em toda operação. A empresa que errou vai ter que pagar o preço”, disse.
O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, admitiu ontem que o governo precisa facilitar o crédito para as exportações no setor frigorífico. Durante audiência pública na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado, ele acrescentou que é preciso agilizar os créditos tributários.
Stephanes afirmou que quer conversar individualmente com representantes dos frigoríficos, uma vez que há, segundo ele, divergência de opiniões e questões pontuais em cada um dos casos A crise bateu em todas as empresas, não só nos frigoríficos. A dificuldade é penetrar em cada caso, o diagnóstico se torna muito difícil, admitiu ele.
O ministro voltou a negar que haja uma espécie de pacote de socorro aos grande frigoríficos e disse apenas que o governo tenta se antecipar aos acontecimentos. Temos procurado discutir com vários setores da cadeia de produção de carne e o que existe até o momento é isso, garantiu.
Para Stephanes, é peciso equalizar o PIS/Cofins concedido atualmente aos exportadores também para os que abastecem apenas o mercado interno brasileiro. O ministro admitiu que as empresas exportadoras acabam levando vantagem sobre as demais que não exportam e avaliou que a solução para o assunto deve sair em breve.






