Igreja se utiliza da Justiça para alcançar objetivo considerado ilegal

Em: 21 de fevereiro de 2008
A TV Globo provou na Justiça que os ditos ofendidos (no caso os policiais) não tinham legitimidade para propor ação porque eles não aparecem as cenas gravadas em programa humorístico.
A TV Globo provou na Justiça que os ditos ofendidos (no caso os policiais) não tinham legitimidade para propor ação porque eles não aparecem as cenas gravadas em programa humorístico.

Não há antídoto contra a má-fé no uso da Justiça. Mas existe um mecanismo civil de punição: a multa por litigância indevida ou abuso de direito. Ele deve ser aplicado quando o juiz que aprecia o processo reconhece que ele foi ajuizado para atingir um único objetivo: o da retaliação. Apesar da possibilidade de punição, a prática de usar o Poder Judiciário ape­nas para in­comodar um desafeto per­siste.
Não se pode impedir que aviões continuem vo­ando só porque terroris­tas resolveram lançar dois deles contra as torres gê­meas de Nova York, no dia 11 de setembro de 2001. Da mesma forma, não se pode impedir que quem quer que seja, tendo motivo, recorra à Justiça só porque ­alguns fanáticos religiosos resolveram mover uma ba­teria de ações judiciais contra jornais que supostamente os teriam ofendido ao discorrer sobre as atividades comerciais da Igreja Universal do Reino de Deus.
Até terça-feira, 96 fiéis mo­viam ação contra a imprensa, processos ajuizados em cidades do interior dos Estados (estratégia usada para dificultar a defesa dos jornais e jornalistas). A maioria, 56, é contra o jornal Folha de S. Paulo e a jornalista Elvira Lobato. A série de ações de fiéis começou depois que a Folha publicou a reportagem Universal chega aos 30 anos como império empresarial, em 15 de dezembro. Também respondem ações de indenizações por danos morais o jornal Extra, e seu diretor de redação, Bruno Thys, do Rio de Janeiro; e A Tarde e o jornalista Valmar Hupsel Filho, de Salvador.
Apesar de toda a polêmica levantada, os fiéis da Universal não foram os primeiros a estrear ações orquestradas contra a im­prensa, só para causar in­cômodo. A TV Globo, entre 1997 e 1998, sofreu uma avalanche de ações movidas por poli­ci­ais militares depois que o ­programa Casseta e Pla­neta satirizou as situações ocorridas na Favela Na­val, onde dez policiais fo­ram filmados agre­dindo moradores em uma blitz. Foram 132 processos, to­dos movidos por polici­ais. O argumento era o de que eles se sentiram ofen­didos só pelo fato de tra­balhar na Polícia.
De acordo com o advogado Luiz Camargo de Aranha Neto, que defende a emissora, todos os pedidos de indenização foram negados.
A Justiça de São Paulo ­entendeu que os policiais não tinham legitimidade para propor ação porque eles não apareceram nas cenas ­gravadas, nem seus no­mes foram ci­­tados no pro­grama de hu­mor.
Aranha, apesar de reconhecer como legal o ajui­­zamento das ações, acre­­dita que todas beiram a má-fé. “As iniciais são idênticas e a reportagem não mencionou o nome de um fiel sequer. É impossível que um fiel do Ama­­zonas tenha ouvido as mesmas chacotas ditas para um fiel do Rio Grande do Sul”, disse.
O advogado Djair Rosa, que faz a defesa da Editora Rickdan, responsável pela publicação revista Sexy, afirmou que neste caso quem tem direito de pedir indenização é o órgão de imprensa. “Cabe processo por perdas e danos. Essa é a melhor arma jurídica para evitar que isto se repita. Apesar da roupagem legal, a estratégia é claramente ilegal”, defende.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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