Impactadas pela concorrência com a importação de produtos, somada à retração no consumo nacional, fabricantes de componentes instaladas no PIM (Polo Industrial de Manaus) buscam novas alternativas para alavancar a produção e assegurar a permanência das empresas na ZFM (Zona Franca de Manaus). Com foco no mercado brasileiro, as indústrias investem no fornecimento de peças às plantas fabris localizadas nas regiões Sul e Sudeste, ao mesmo tempo em que reformulam os projetos industriais e aderem a novos segmentos produtivos. Segundo a Aficam (Associação dos Fabricantes de Insumos e Componentes do Amazonas), o gargalo está no descumprimento, por parte das empresas de bem final, das determinações impostas pelos PPBs (Processo Produtivo Básico), que é o conjunto mínimo de operações industriais.
De acordo com o gerente comercial da GK&B Indústria de Componentes da Amazônia Ltda., Júlio Sato, a empresa sente os impactos negativos resultantes do alto índice de importação de componentes e da diminuição nas vendas nacionais, há pelo menos 2 anos. Ele explica que as fornecedoras de componentes instaladas no PIM enfrentam dificuldades por conta da concorrência com os produtos importados de países do continente asiático. As fabricantes estrangeiras fornecem produtos como cabos, chicotes, embalagens e injeção plástica, similares aos produzidos no Amazonas por preços bem mais baixos.
Devido a retração no mercado local, a GK&B, fabricante de cabo de força e chicotes que atende às marcas Samsung, LG, Midea, Panasonic, Electrolux, dentre outras, resolveu investir na produção para o mercado interestadual e também em novos produtos. A partir do mês de junho a fabricante atenderá ao polo fabril de São Paulo (SP) e de Santa Catarina (SC) com o fornecimento de cabos para geladeiras e fogões. No total, quatro linhas de produção serão instaladas com a ocupação de pelo menos cem colaboradores.
O segundo projeto envolve a fabricação de cabos para carregador de celular a partir de julho. Os materiais serão montados em seis linhas fabris, trabalho que deverá demandar a contratação de aproximadamente 200 funcionários. No total, a empresa investiu cerca de R$1,7 milhão.
“Boa parte das empresas operam com capacidade reduzida e não temos como continuar brigando em um mercado reduzido. Então, resolvemos expandir as comercializações e vender para o comércio interno aos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Bahia. Mudamos o nosso projeto industrial para atender às novas necessidades. As negociações acontecem desde o último ano e somente agora estão se concretizando”, disse. “O trabalho voltado aos celulares ainda demandou investimento em treinamento de pessoal”, completou.
Na avaliação de Sato, a importação dos componentes prejudica as fabricantes e resulta em queda produtiva e consequentemente na redução da mão de obra. Ele afirma que no primeiro quadrimestre deste ano houve redução de 60% no quadro funcional da empresa, em comparação a igual período de 2015. Hoje, a empresa conta com 250 funcionários que operam em um turno.
Segundo o gerente, em decorrência da alta concorrência com a importação de produtos, a indústria estuda a possibilidade de instalar uma planta em um dos países que integram o Mercosul como Argentina, Paraguai ou Uruguai, nações, em que na opinião de Sato, há maior produtividade de fabricação de componentes. Ele descarta a hipótese de a GK&B fechar as portas em Manaus.
“Há estudos para a instalação de uma unidade em um dos países do Mercosul. Somente o Paraguai abriga mais de 50 empresas brasileiras em seu polo. Vemos que eles oferecem melhores incentivos, têm viabilidade logística, menor custo com energia elétrica, dentre outras vantagens”, afirmou.
A situação não é diferente no setor de papel e papelão, que também integra o segmento dos componentes do PIM. O vice-presidente da empresa NovoTempo Indústria Gráfica Ltda., Carlos Edson Júnior, relata que no último ano houve uma retração de 55% na demanda em comparação a 2014. A empresa, que funcionava em três turnos e contava com 460 funcionários, atualmente opera em apenas um horário e reúne 120 colaboradores.
De acordo com Júnior, a importação desarticula o segmento e prejudica o desenvolvimento industrial e econômico amazonense. Ele relata que todas as empresas locais atendem às obrigações trabalhistas e às normas de qualidade, o que demandam custos. Ele garante que as empresas estrangeiras não atendem a essas exigências, fato que ele considera como competitividade desigual.
“Somos um dos maiores polos mundiais de indústria certificada em normas de qualidade e quando as empresas importam os componentes, compram de países que não têm esse nível de qualidade porque isso exige custos elevados. Garanto que isso é inexistente em países como China, Coreia ou México. Essa situação nos coloca em uma competitividade desigual com esses fornecedores”, reclama.
“O PPB apresenta percentuais de importação e obrigatoriedade de nacionalização ou regionalização e esse percentual não está sendo cumprido. Não entendemos por que o governo do Estado não consegue fiscalizar ou coibir essa situação”, completa.
O presidente da Aficam, Cristóvão Marques, afirma que o problema é antigo e que a associação busca há anos solucionar o gargalo junto ao governo do Estado e à Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), mas que até hoje, nada foi resolvido e as importações continuam acontecendo. “A força das fabricantes estrangeiras, como por exemplo, no Paraguai, põe em risco a atuação do segmento componentista amazonense porque lá fora tudo é mais barato. O governo precisa olhar nosso setor com mais atenção porque há indústrias pensando em sair do PIM para se instalar em outros países”, disse.
Governo minimiza impactos
Por meio de nota o titular da Seplan-CTI (Secretaria de Estado de Planejamento, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Thomaz Nogueira, informou que o governo do Amazonas vem atuando sistematicamente para minimizar os impactos da retração do mercado sobre a produção da indústria como um todo dentro da sua esfera de competência -a aplicação de uma política estadual de incentivos fiscais que permita a geração de emprego e renda e o desenvolvimento de um parque industrial competitivo. Segundo ele, no caso específico dos fabricantes de produtos finais e de componentes no setor de ar-condicionado, a Seplan-CTI promoveu reuniões em busca de um diálogo que contemplasse os interesses de ambas as partes. A conclusão foi que o atual PPB é adequado ao setor e deve ser cumprido no PIM.
Nogueira afirmou que a Seplan-CTI e a Sefaz (Secretaria de Estado da Fazenda) realizam fiscalizações para garantir a observância do cumprimento do PPB. A secretaria mantém quatro equipes compostas por técnicos que realizam fiscalizações diárias nas empresas beneficiadas com os incentivos fiscais estaduais, à medida que expiram os laudos técnicos de funcionamento. Detalhes da fiscalização como cronograma, setores e empresas não são divulgados para garantir a eficácia das operações.
Conforme o secretário, nenhum Estado brasileiro se mostra mais competitivo que o Amazonas, que concede até 100% de benefício de ICMS, além das vantagens fiscais na concessão de benefícios de impostos federais. Ele admitiu que a situação do mercado externo e interno é preocupante, mas afirma que aposta na superação do momento de crise e no fortalecimento do setor componentista no Amazonas.







