A indústria está mais cara e menos confiante. A inflação do setor registrou repique de 0,92%, entre julho e agosto, após seis meses seguidos de baixas. A alta, que não leva em conta os acréscimos relativos a tributos e fretes, foi puxada por 12 dos 24 subsetores, com destaque para refino de petróleo e biocombustíveis (+7,52%), indústrias extrativas (+6,56%) e vestuário (+5,89%). Em contraste, segmentos relevantes para o PIM, como o de metalurgia (-2,67%) e de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-2,79%) estiveram entre aqueles que mais reduziram seus preços.
Os dados são do IPP (Índice de Preços ao Produtor), do IBGE. O indicador, no entanto, reforçou queda em relação a agosto do ano passado (-3,04%), a maior retração nesse tipo de comparação desde 2014. Com isso, o setor sustentou deflação de 6,32% no acumulado de 2023, graças às reduções nas divisões de combustíveis (-19,98%) produtos químicos (-17,35%), papel e celuloses (-16,89%) e vestuário (-15,49%). Em 12 meses, o recuo da inflação industrial foi de 10,51%, favorecido pelos subsetores químico (-30,75%) e de metalurgia (-14,09%) – ambos presentes na indústria incentivada de Manaus.
Em paralelo, a CNI aponta que a indústria ficou mais pessimista em 21 dos 29 segmentos acompanhados para o ICEI (Índice de Confiança do Empresário Industrial), em setembro. A queda foi disseminada em todas as regiões do país – com o Norte (2,5 pontos) entre os destaques – e portes de empresa – principalmente nas pequenas (-2,5 pontos). Dez subsetores já se encontram abaixo da linha divisória dos 50 pontos e no patamar de desconfiança. A maior parte deles é atuante na ZFM, a exemplo de produtos de borracha (-0,45% e 43,8 pontos); minerais não metálicos (-8,82% e 45,5 pontos); produtos de material plástico (-5,49% e 48,2 pontos); e têxteis (-0,20% e 49,2 pontos).
Impacto cambial
Em texto postado no site da Agência de Notícias IBGE, o gerente do IPP, Alexandre Brandão, destaca que o número de atividades industriais com aumentos de preços passou de oito para 12, entre julho e agosto, e atribui esse impacto principalmente ao câmbio. “Esse maior espalhamento das variações positivas está em linha com a depreciação de 2,1% do real frente ao dólar, o que não ocorria desde março, e que eleva os preços tanto do que importamos quanto do que exportamos”, explicou.
De acordo com o pesquisador, refino de petróleo respondeu por 0,72 ponto percentual de influência na variação de 0,92% do IPP de agosto, em função dos aumentos de preços para o óleo diesel e gasolina, os dois produtos de maior peso do refino. Brandão acrescenta que o subsetor de alimentos, que é que mais contribui para o peso no indicador (25%) foi pouco além da estabilidade (+0,08%), após a queda acumulada de 13,82% nos sete meses anteriores. A alta do vestuário (+5,89%) foi impactada especialmente pelo lançamento da nova coleção primavera-verão.
“Já metalurgia é o único dos quatro subsetores de maior influência com indicador negativo (-2,67%). Os preços do minério de ferro tiveram queda significativa nos meses anteriores a agosto, com efeito sobre o segmento industrial de metalurgia, cujos preços também caíram devido à redução na demanda pelo aço”, apontou o representante do IBGE, acrescentando que as quatro atividades citadas responderam por 0,95 p.p. da variação de 0,92%.
A mesma concentração também se espalhou nas “grandes categorias econômicas”, sendo que os bens intermediários responderam por 0,85 p.p. do impacto sobre os preços da indústria, na variação mensal. A influência veio dos produtos do refino e das indústrias extrativas, com o óleo diesel, óleo bruto de petróleo e minério de ferro. A sondagem do IBGE investigou 2.100 empresas e em torno de 6.000 preços.
Peso dos juros
Com a queda do ICEI da CNI, os subsetores de veículos automotores (-3,94% e 48,7 pontos); serviços especializados para a construção (-10,60% e 48,9 pontos); produtos de material plástico (-5,49% e 48,2 pontos); móveis (-6,65% e 47,7 pontos); e produtos de metal (-2,54% e 49,8 pontos) trocaram o patamar de confiança pelo de desconfiança, em setembro. A confiança subiu apenas em oito divisões industriais, incluindo alguns já instalados na Zona Franca, como máquinas e materiais elétricos (+3,05% e 54 pontos); máquinas e equipamentos (+1,82% e 50,3 pontos); entre outros.
O levantamento da CNI foi realizado com 1.988 empresas entre 1º e 13 de setembro. A perda de otimismo foi mais acentuada no Centro-Oeste (-5,13% e 53,6 pontos), mas também se disseminou pelo Norte (-4,64% e 51,4 pontos), Nordeste (-3,85% e 54,9 pontos), Sudeste (-2,44% e 52 pontos) e Sul (-2,41% e 48,7 pontos). Foi maior também entre as 778 companhias de pequeno porte (-4,41% pontos e 49,9 pontos), do que entre as 719 médias indústrias (-3,43% e 50,6 pontos) e as 491 grandes empresas (-9,49% e 53,6 pontos).
Em texto e vídeo da assessoria de imprensa da CNI, o economista da entidade, Marcelo Azevedo, reforçou que o ICEI indica piora na avaliação da maior parte dos subsetores da indústria em relação às condições atuais de negócios, com a percepção de que a situação ficou mais difícil, tanto para a economia, quanto para a própria empresa. “Há também uma reavaliação das expectativas para os próximos seis meses, que seguem positivas e uma forma geral, mas menos otimistas”, ressalvou.
Azevedo ressalva, contudo, que não há indicativo de que a confiança acumulada nos últimos meses se reverterá no curto prazo e que o ICEI indica apenas uma reavaliação do “bom ganho” de otimismo gerado pelo início da queda da taxa Selic. “Essa é uma perspectiva positiva para os empresários, mas há também uma reconsideração sobre os seus efeitos [do recuo dos juros], que não são imediatos. Ainda que a confiança tenha reduzido, ela mantém acima da linha dos 50 pontos. Ao continuar assim, que é a nossa expectativa, isso deve começar a se refletir de uma forma mais forte nas decisões de produção, empregos e até mesmo de investimentos”, amenizou.
Endividamento e confiança
Procurado pela reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, se mostrou mais otimista. No entendimento do dirigente, os indicadores demonstram uma “clara tendência” já predita pelo mercado, em termos de variação de preços, além de configurar um sinalizador de que as medidas do governo federal para controle da inflação surtiram efeito ao longo dos últimos meses.
“Nossas expectativas são de que os indicadores corroborem para a contínua redução da taxa básica de juros, como forma de baratear o custo do investimento e fomentar a retomada do segmento produtivo. Com a inflação em patamar relativamente estável, precisamos nos atentar também a outros fatores que impactam os resultados econômicos, como o nível de endividamento das famílias, a crise de confiança e a definição de uma política industrial assertiva”, arrematou, acrescentando que o setor “não tem ainda nenhuma previsão”, sobre os impactos da seca na formação de e no nível de confiança dos empresários do PIM.







