Indústria do Amazonas segue estável nos empregos e negativa nas vendas

Em: 18 de julho de 2023

A indústria do Amazonas experimentou mais um mês de faturamento em queda, em abril. A mesma oscilação se deu nas horas trabalhadas e na massa salarial, que vinham de dois meses de expansão. Os dados positivos se restringiram ao nível de uso da capacidade instalada das fábricas, que obteve crescimento tímido, e do emprego, que marcou estabilidade. É o que revelam, em síntese, os números locais dos Indicadores Industriais da CNI (Confederação Nacional da Indústria), compilados em parceria com a Fieam (Federação da Indústria do Estado do Amazonas). 

O faturamento real da manufatura amazonense declinou 16,8% na variação mensal, em que pesem os cinco dias úteis a menos. O resultado veio em sentido contrário ao dos levantamentos de março (+21,9%) e fevereiro (+8,4%). A comparação com o mesmo mês de 2022 confirmou tombo maior, de 45,8%, mantendo o quadrimestre no vermelho (-41,7%). Na média nacional, as vendas líquidas desaceleraram 1,3% no mês e também ficaram 0,3% abaixo da marca de abril de 2022, embora tenham se fortalecido em 2,6%, no acumulado. 

Os dados da CNI mostram um quadro não muito diferente do apontado pelos Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus, divulgados pela Suframa. As vendas de abril (US$ 2.59 bilhões ou R$ 12,97 bilhões), perderam para as de março (US$ 2.64 bilhões e R$ 13,73 bilhões) – que teve dias 5 úteis a mais. Em quatro meses, houve alta em dólar (+2,04% e US$ 10.94 bilhões) e em reais (+3,98% e R$ 55,75 bilhões), carreada pelos segmentos eletroeletrônico e de duas rodas, em detrimento de bens de informática. Mas, os resultados foram corroídos pela inflação e pela variação cambial.

Produção oscilante

Situação semelhante se deu nas horas trabalhadas nas linhas de produção. Foi registrado um retrocesso de 1,3% diante de março, após os crescimentos de março (+4,2%) e fevereiro (+3,2%). O confronto com a marca de igual intervalo do exercício anterior confirmou uma nova retração de dois dígitos (-17,5%), que foi ainda mais intensa nos quatro primeiros meses do ano (-19,3%). Em todo o país, o indicador caiu 1,5% na variação mensal, e teve desempenhos inferiores nas demais comparações (-0,1% e +0,7%). 

O melhor dado veio da UCI (utilização da capacidade instalada). A proporção de máquinas em produção da indústria estadual passou de 74,5% para 75,3%, em relação a março, configurando uma diferença de 0,8 ponto percentual (ou +1,07%). Já o confronto com igual mês de 2022 (76% de uso) indicou retração de 0,7 p.p. (ou -0,92%). Em quatro meses (78,3% de ocupação), contudo, houve alta de 0,3 p.p. (+0,4%). O indicador nacional (78,9% de uso) foi mais elevado, tendo estagnado ante março e recuado nas demais comparações.

Os números de produção da CNI também acompanharam com os dados de produção industrial do IBGE para o mesmo período. Segundo o órgão federal de pesquisa, o Amazonas interrompeu uma série de quatro meses de alta, para desabar 14,2% ante março, registrando o pior resultado do país. O confronto com abril do ano passado ficou positivo em apenas 0,6%, embora o quadrimestre tenha seguido com 11,2% de ascensão, disseminada pelos subsetores de combustíveis, bens de informática e motocicletas.  

Empregos e salários

Os números relativos à mão de obra, por sua vez, indicaram desempenhos novamente contraditórios. A média do saldo de contratações no parque fabril do Estado se manteve rigorosamente estável (0%), entre março e abril, em resultado não muito melhor do que o de março (-0,3%). A queda foi uma realidade no confronto com igual período de 2022 (-6,2%) e principalmente no aglutinado de janeiro a abril (-10,7%). Em contrapartida, os respectivos números brasileiros (+0,1%, +1,2% e +0,9%) foram todos positivos.

Outros levantamentos já haviam confirmado que as contratações com carteira assinada vêm perdendo ritmo na indústria do Amazonas. Segundo o ‘Novo Caged’, o setor criou 101 vagas formais em abril, ficando aquém do dado de março (+161), com alta de 0,08% sobre o estoque antecedente. As contratações se concentraram  especialmente nas linhas de produção de “outros equipamentos de transporte” (+298), mas o volume de cortes em equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-595) foi maior. Em quatro meses, o acréscimo de vagas foi de 0,27% (+328), conforme a base de dados do MTE.

De volta à pesquisa da CNI, diferente do ocorrido com os empregos, a massa salarial derreteu 12,9%, após ter ganhado musculatura em março (+18,6%). A soma dos vencimentos dos trabalhadores tropeçou 1,3% frente ao mesmo mês de 2022. No quadrimestre, o saldo se manteve positivo, mas caiu para um dígito (+6%). O Amazonas se saiu melhor do que a média brasileira (+2,9%, +6% e +4,2%) apenas neste tipo de comparação.

“Resultados mistos”

Em texto e vídeo divulgados pela assessoria de imprensa da CNI, a economista da entidade, Larissa Nocko, assinalou que a sondagem trouxe “resultados mistos para abril”, com queda nas horas trabalhadas e faturamento real, acompanhada por estagnação no emprego e na UCI. Ela acrescenta que, comparados ao mesmo mês de 2022, os indicadores mostram resultado semelhante: redução do dinamismo industrial e recuperação do mercado de trabalho e “variáveis associadas ao rendimento do trabalhador”. 

“O faturamento real vem desacelerando desde 2022. Nos meses recentes, tivemos forte alta em março, e uma queda em abril, que não foi suficiente para reverter o ganho anterior. Então, as vendas permanecem acima do patamar verificado em fevereiro de 2023. O emprego vinha em trajetória de desaceleração ao longo do ano passado, mas já acumula o segundo mês consecutivo de estabilidade. Já o uso da capacidade instalada das fábricas seguiu em patamar elevado, na comparação com os anos anteriores à pandemia, mas com tendência gradual de queda desde 2022, tendo estagnado em abril”, resumiu. 

“Prudência e cautela”

O presidente da Fieam, e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, destacou que abril foi um mês de retração não somente para a indústria local, mas para a indústria nacional como um todo. O dirigente reforçou também que, como o estudo para os Indicadores da CNI conta com amostragem local menor, alguns dos subsetores ponderados podem impactar mais negativamente os números globais. 

“Os indicadores sinalizam uma tendência do setor, mas não os números consolidados. De toda a forma, temos componentes econômicos que justificam a demonstrada queda. Há uma nítida crise de confiança por parte de empresários e consumidores, o que impacta na injeção de dinheiro na economia. Aliado a esse fator, temos ainda uma taxa de juros excessivamente alta e um cenário político convoluto em meio às reformas. O momento requer prudência e cautela. Não obstante as mencionadas dificuldades, entendo que a indústria amazonense apresentará recuperação no segundo semestre”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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