Indústria perde fôlego em abril

Em: 14 de junho de 2023

A indústria do Amazonas perdeu parte do fôlego acumulado no trimestre, em abril. A produção desabou 14,2% em relação a março – que teve cinco dias úteis a mais. O resultado foi o pior do país (-0,6%) e veio em movimento simétrico ao do levantamento anterior (+11,4%), interrompendo uma sequência de quatro altas seguidas. O Estado, no entanto, conseguiu crescer 0,6% no confronto com abril de 2022, sendo favorecido pela indústria intermediária, em detrimento das divisões de bens finais de eletroeletrônicos e duas rodas. A alta foi bem mais modesta que a de março (+23,5%), mas veio no sentido oposto ao desempenho negativo da média nacional (-2,7%).

Ainda assim, a manufatura amazonense conseguiu consolidar mais um mês no azul, ao decolar 11,2% no quadrimestre, confirmando o Estado no primeiro lugar do ranking brasileiro nesse tipo de comparação. Embora a indústria extrativa tenha voltado a ficar no campo negativo, a expansão foi mais disseminada na indústria de transformação, com destaque para os subsetores de combustíveis, bens de informática e motocicletas. Em 12 meses, o avanço foi de 7,6%. Em contraste, a indústria brasileira encolheu 1% e -0,2%, respectivamente. Os números são da Pesquisa Industrial mensal e foram divulgados pelo IBGE, nesta terça (13).

O tombo de 14,2% diante de março derrubou o Amazonas do segundo para o último lugar, no ranking das 17 unidades federativas investigadas pelo IBGE. Foi precedido por Pernambuco (-5,5%) e Ceará (-3,7%), em uma lista com nove resultados negativos, enquanto Rio Grande do Sul (+2,2%), Santa Catarina e Bahia (ambos com +1,1%) dividiram o pódio. A alta de 0,6% frente abril de 2022 fez o Estado cair da primeira para a sexta posição, sendo que Rio Grande do Norte (+14,5%) e Maranhão (-16,4%) protagonizaram os extremos. O acréscimo de 11,2% no quadrimestre manteve a indústria amazonense na liderança, com o Rio Grande do Sul (-8,7%) na outra ponta. 

Químicos e metal

Na comparação com março de 2022, a indústria extrativa (óleo bruto de petróleo) encolheu 0,9%, após dois meses de alta. A indústria de transformação subiu 0,7%, em performance muito mais fraca do que a do levantamento anterior (+25,1%). Quatro de seus dez segmentos recuaram: máquinas e equipamentos (condicionadores de ar e terminais bancários, com -23%); bebidas (-16,6%); máquinas, aparelhos e materiais elétricos (conversores, alarmes, condutores e baterias, com -3,7%) e equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (celulares, computadores e máquinas digitais, com -2,9%). 

A lista de subsetores em expansão foi liderada com folga por produtos químicos (metais preciosos, inseticidas, nitrogênio e desinfetantes, com -26,4%); e produtos de metal (lâminas, aparelhos de barbear, estruturas de ferro, +25,3%). As divisões de produtos diversos” (artefatos de joalheria, isqueiros, lentes oculares, lápis, e fitas para impressoras, com +17,3%); petróleo e combustíveis (gás natural, com +13,8%); produtos de borracha e material plástico (+11%); e de “outros equipamentos de transportes” (motocicletas e suas peças, com +1,1%) também avançaram.

O acumulado dos quatro primeiros meses do ano mostrou um quadro mais favorável para o setor. A indústria de transformação expandiu 12,2%, enquanto as divisões de derivados de petróleo e combustíveis (+23,3%); equipamentos de informática e produtos eletrônicos e ópticos (+17,9%); e de “outros equipamentos de transporte” (+13,9%) ficaram acima dessa média. As linhas de produção de produtos de metal (+9,5%); produtos diversos (+8,6%); bebidas (+7,2%); máquinas e equipamentos (+5,4%); borracha e material plástico (+3,3%); e produtos químicos (+1,1%) também pontuaram bem. Na outra ponta estão os subsetores de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-8,1%) e a indústria extrativa (-0,5%). 

“Atmosfera de incertezasl”

No texto de divulgação da sondagem, o supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, informa que os produtos que colaboraram com a queda anual da indústria amazonense em abril foram óleo bruto de petróleo, xarope para fins industriais, refrigerantes, óleo diesel, metais preciosos, filmes e material plástico, unidades de memória, conversores, transformadores, aparelhos de ar-condicionado, bicicletas, lentes de óculos, seringas.

O pesquisador assinalou que o recuo de produção na variação mensal de abril gerou surpresa, uma vez que desde dezembro os dados do setor vinham somando altas de desempenho, “em alguns casos com crescimento bem destacado”. O pesquisador acrescenta ainda que a média móvel trimestral até março ainda indicava crescimentos de produção “bem consistentes” para a indústria amazonense, no curto prazo.

Em texto postado na Agência de Notícias IBGE, o analista da pesquisa, Bernardo Almeida, destaca que a maior influência negativa no resultado nacional veio justamente do Amazonas. E acrescentou que “o espalhamento regional” da retração reflete uma atmosfera de incertezas. “A conjuntura que o país atravessa, com inflação ainda elevada, desemprego em patamar considerado alto, e contratações ainda aquém do necessário, impacta diretamente no poder de compra das famílias e na cadeia produtiva da indústria”, avaliou.

“Normalidade média”

O presidente da Aficam (Associação dos Fabricantes de Insumos e Componentes do Amazonas), Roberto Moreno, lembrou que março apresentou alta expressiva para a indústria amazonense e considerou que a queda de abril representa apenas uma acomodação, dado que não haveriam influências econômicas significativas no mês. O dirigente enfatizou como fator positivo a continuidade de percentuais positivos nas demais comparações, o que dá maior confiança em uma “normalidade média” para o setor, nos próximos meses, a despeito dos “altos e baixos pontuais”.

“Sempre temos de ficar atentos a fatores internos políticos, que podem influenciar a economia. Até o momento, ainda não há como verificar, na prática, se as medidas que o governo vai colocando aos poucos no mercado, assimilaram bem o que ainda está por vir. Temos grande atenção à Reforma Tributária, com o relatório recém apresentado no Congresso, e que ainda tem análises a se levar em consideração. Temos convivido há vários anos com a ameaça de alterações em nossas regras, mas temos que ter certeza que o resultado será bom para Manaus, para o Amazonas, para o Brasil”, frisou.

Na mesma linha, o presidente da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), Antonio Silva, ressaltou que, a despeito do tombo mensal, é necessário avaliar o panorama geral dos números do IBGE, que apontam a indústria amazonense na dianteira do crescimento da produção industrial no primeiro quadrimestre do ano.

“Tivemos um mês de março com índices extremamente elevados, o que explica a queda no comparativo. Mas, destaco que os indicadores foram positivos quando na comparação com o mesmo período de 2022. De toda a sorte, o saldo consolidado do período nos permite certo otimismo para o restante do ano, ainda que enfrentemos problemas econômicos e estruturais”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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