A economia brasileira experimentou o melhor primeiro semestre da série iniciada em 2006, expansão de 8,9%. É certo que tal resultado se deve em certa medida à baixa base de comparação. Mas na comparação entre o segundo trimestre de 2010 e o primeiro (série dessazonalizada), o PIB continua crescendo, com taxa de 1,2%. Os números divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) trazem outros dados relevantes.
O incremento de 1,2% no segundo trimestre do ano ficou aquém das variações registradas por essa base de comparação em trimestres anteriores: em janeiro-março, por exemplo, o produto crescera 2,7% frente a outubro-dezembro de 2009;
Todavia o acréscimo em abril-junho foi superior ao esperado ao se considerarem o fim de incentivos ligados às medidas anticíclicas para o enfrentamento da crise internacional e por abarcar o período da Copa;
Na comparação entre segundos trimestres de 2010 e 2009, o PIB a preços de mercado logrou ampliação de 8,8%;
Já no contraponto entre o acumulado dos últimos quatro trimestres e o acumulado dos quatro trimestres anteriores, a taxa de expansão atingiu 5,1%, sinalizando para um incremento do PIB, em 2010, maior do que se esperava no começo do ano.
De qualquer modo, os números apontam para a retomada, ainda que tenha havido um arrefecimento no segundo trimestre. Entretanto, o limite para tal processo expansivo pode chegar mais cedo, por conta da taxa de câmbio apreciada, dos entraves burocráticos que ainda caracterizam o País, a complexidade de seu sistema tributário e as questões de infraestrutura que podem se evidenciar ainda mais à medida que o produto agregado do País avance.
No caso do câmbio, apesar de as autoridades monetárias terem cessado a alta da taxa de juros básica da economia, a dificuldade dele decorrente reside nas exportações de produtos de maior valor agregado, bem como dos riscos de menor agregação de valor em solo brasileiro por unidade produzida. O enfrentamento dessas dificuldades envolve tanto esforços estruturais – por exemplo, provisão de mão de obra qualificada – quanto de gestão macroeconômico, como o rebatimento das elevadas taxas de juros do Brasil sobre a taxa de câmbio.
Crise internacional
O primeiro semestre também traz o investimento fixo se sobressaindo, talvez retomando o dinamismo que se configurava antes da crise internacional. Por outro lado, também as importações e as exportações de bens e serviços voltaram a se deteriorar, processo que já se apresentava antes da crise internacional, mas que, agora, traz consigo novos contornos em virtude da cena internacional.
Na comparação entre trimestre e trimestre imediatamente anterior, o consumo das famílias cresceu 0,8%, enquanto o consumo do governo se ampliou em 2,1%, o que guarda relação com o período eleitoral. A FBCF (formação bruta de capital fixo), a seu turno, cresceu 2,4%, registrando arrefecimento em relação ao primeiro trimestre do ano, quando crescera 7,3%. Quanto às exportações de bens e serviços, tiveram expansão de 1,0%. O contraste é principalmente com as importações, que registraram taxa de 4,4%, refletindo a deterioração das transações internacionais de bens e serviços.
Voltando-se para o contraponto entre os segundos trimestres de 2010 e de 2009, o padrão se assemelha com o da base de comparação acima. O consumo das famílias e o do governo lograram taxas de 6,7% e 5,1%, respectivamente. Novamente a FBCF se destaca, com expansão de 26,5%. Já as exportações cresceram 7,3%, pouco ao se considerar o incremento de 38,8% das importações.
No acumulado do ano, o incremento de 8,9% do PIB foi capitaneado, sobretudo, pela FBCF, cuja expansão atingiu 26,2%. O consumo privado, por sua vez, registrou taxa de 8,0%, enquanto o consumo do governo, de 3,6%. As exportações lograram variação de 10,5%, mas bem aquém do aumento de 39,2% das importações de bens e serviços.
No acumulado de quatro trimestres, o PIB continua ascendente com taxa de 5,1% no segundo trimestre. No trimestre anterior, a taxa atingira 2,4%. Dos componentes do PIB pela ótica da demanda, o investimento fixo novamente liderou a retomada (8,9%). Quando ao consumo das famílias e ao consumo do governo, atingiram taxas de 6,9% e de 3,4%, respectivamente. As exportações cresceram apenas 0,7%, porém já se recuperando da taxa negativa observada no primeiro trimestre do ano pela mesma base de comparação. De qualquer modo, as importações cresceram 12,7%, bem mais que as exportações.
O bom desempenho das inversões também transparece nas taxas de investimento fixo. Medida a partir de valores correntes, a FBCF sofreu discreto recuo no segundo trimestre deste ano, ficando em 17,9% do PIB. Embora denote uma boa recuperação frente aos impactos da crise, ainda está bem aquém da taxa de FBCF lograda no terceiro trimestre de 2008, de 20,1% do PIB. Já, medindo-se por valores de 2006, sofreu ligeiro acréscimo de 0,1%, situando-se em 17,0% do PIB, também contrastando com a taxa de 18,4% lograda em julho-setembro de 2008.
Registre-se ainda que, em apresentação feita em agosto, o Ministro da Fazenda divulgou projeções do Ministério da Fazenda, pelas quais o PIB cresceria 7,0% em 2010, sendo capitaneado pelos investimentos fixos, com projeção de elevação de 22,1%. Para o consumo das famílias, a expansão projetada é de 6,9%, enquanto a do consumo do governo, de 2,8%. Quanto aos fluxos de bens e serviços, o Ministério da Fazenda projetou acréscimo de 7,7% em claro contraste com o aumento das importações, de 30,5%. Ressalte-se o fato de essas projeções terem sido feitas antes do anúncio dos números do primeiro semestre do ano pelo IBGE.







