Amanhã, às 17 horas Manaus, o parintinense Jacob Cohen irá receber a Medalha de Ouro Moacyr Álvaro, a mais importante condecoração oftalmológica da América Latina, durante o Simpósio Moacyr Álvaro, da Escola Paulista de Medicina, no salão do Teatro Maksoud, em São Paulo.
A medalha é conferida anualmente e premia aqueles que têm se destacado por seus trabalhos em benefício da Prevenção da Cegueira e Preservação da Visão.
Jacob Cohen, hoje oftalmologista consagrado, foi moleque de pé descalço, na ilha de Tupinambarana, conforme falou na entrevista concedida ao Jornal do Commercio.
Jornal do Commercio: Como foi sua infância, em Parintins, de menino de pé no chão, pelas ruas da ilha, ou estudioso?
Jacob Cohen: Foi uma infância inesquecível. Os meus melhores amigos eu fiz na minha infância e adolescência. Brinquei muito, me diverti, mas sempre fui ligado na minha educação. Sou o quinto filho de uma prole de sete, de imigrantes judeus fugidos da Europa e Norte da África. Durante a minha infância, em Parintins, não havia luz elétrica e quando havia era no período inicial da noite, nem tão pouco rádio ou televisão. Se isso era um atraso para a modernidade vivida nos meados do século XX, por outro lado cultivávamos o hábito da leitura e do convívio social e familiar. Fomos criados sob a égide da fé e da cultura hebraica. Talvez, o modelo de familia hebraica nos ajudou muito a galgar outros patamares da vida.
JC: O que de bom e o que de ruim marcou a sua infância?
JC: Minha infância foi marcada por bons momentos. O convívio com a minha família, com os amigos e com a exuberância da Amazônia. Acordava ouvindo a correnteza do rio Amazonas, pois morava bem em frente a ele. A alimentação era a mais saudável possível, composta de peixe na maioria de nosso cardápio. De ruim, foi apenas saber que em Parintins só havia o primeiro grau do curso médio, o que significava que aos 15 anos de idade teria que deixar a minha terra para galgar outros horizontes. Foi o que fiz. Cheguei a Manaus no início de 1965, onde permaneci até os dias atuais. Manaus, foi a cidade que escolhi para viver. Aqui, casei-me e tivemos quatro lindos filhos, a Luna (enfermeira e empresária); a Raquel (empresária); a Luciana (arquiteta) e o Marcos (médico oftalmologista).
JC: Brincou de boi?
JC: Sim, lembro-me que aos 9 para 10 anos de idade, lá pelas 10h da noite, principalmente nos finais de semana, ouvíamos o rufar dos tambores do Boi Garantido vindo da Baixa do São José. Como era menor, colocávamos uma tranca de madeira dentro da rede e cobria de lençol para dar ideia à minha mãe que estava dormindo. Qual nada, pegava uma bicicleta e ia brincar de boi.
JC: O que pensava do futuro? Queria ser uma pessoa importante?
JC: Sempre sonhei em ser alguém útil, prestativo e leal. Talvez, pelo fato de ter nascido no interior da Amazônia, trouxe comigo o inconformismo dos menos favorecidos, caboclos da Amazônia. Em Manaus, procurei estudar e ao mesmo tempo trabalhar, porque imaginava que só assim poderia galgar um nível de poder ajudar o interior da Amazônia. Foi sempre o que fiz.
JC: E em Manaus, como foi sua vida de estudante?
JC: Ao chegar a Manaus, tive que trabalhar para me sustentar e poder estudar. Trabalhei em rádio, e após a conclusão do curso científico, prestei vestibular para Medicina e Filosofia (Física). Estes concursos me deram a possibilidade de lecionar a matéria Física para o segundo grau. Com a ajuda de amigos, ingressei como professor de Física no Colégio Estadual do Amazonas, onde lecionei Física no período noturno até o último ano do curso de Medicina. Em 1975, após colado grau como médico, prestei concurso para residência médica em Oftalmologia no Hospital Municipal Souza Aguiar, no Rio de Janeiro. No final de 1976, retornei a Manaus já com a residência médica completada e fundamos, juntamente, com o colega Cláudio Chaves, o Instituto de Oftalmologia de Manaus. Instituição que sobrevive até hoje com trabalhos de média e alta complexidade na especialidade, tendo sido a primeira instituição no Norte do Brasil a ministrar Residência Médica, já tendo formado mais de 100 médicos na área de Oftalmologia. Na área da pesquisa, procuramos enveredar pelas doenças tropicais que comprometem o olho. Dezenas de teses de doutorados foram elaboradas no IOM, com pesquisas no interior da Amazônia.
JC: Essa medalha que irá receber será o prêmio mais importante de sua vida?
JC: Eu diria que o prêmio mais importante da minha vida foi poder fazer algo pelo meu semelhante, principalmente pessoas que moram no interior da Amazônia. A Medalha Moacyr Álvaro representa o resumo da obra de pessoas importantes para a comunidade acadêmica da Oftalmologia. Como o primeiro oftalmologista da Amazônia a receber esta comenda, não nego estar “pávulo”, como dizem meus conterrâneos. A outorga desta medalha só aumenta o meu compromisso em poder fazer mais aos menos favorecidos, com que sei e posso fazer. Deus há de me conceder um pouco mais de tempo aqui na Terra para poder fazer um pouco mais, pelos menos afortunados.







