Língua Portuguesa e suas mudanças

Em: 11 de junho de 2025
Se pegarmos um texto de 100, 200 anos atrás, não entenderemos palavras e mesmo frases, sinal de que a Língua Portuguesa é viva.

Dia 5 de maio é o Dia Mundial da Língua Portuguesa, criado em 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, e dia 10 de junho é o Dia da Língua Portuguesa, aniversário de Camões, nascido em 1580. Datas à parte, o que nem notamos é que a língua falada por nós, muda a todo instante sem deixar de ser língua portuguesa e, quem diria, agora com a linguagem neutra, virou questão ideológica. Para falar mais sobre o tema, o Jornal do Commercio ouviu Dilce Pio Nascimento, professora efetiva da UEA, em Parintins, no Curso de Licenciatura em Letras (Língua Portuguesa) com foco em teatro, literaturas (brasileira, amazonense, pan-amazônica) e teoria da literatura.

 

Jornal do Commercio: Como está a Língua Portuguesa nos dias de hoje?

Dilce Nascimento: Com experiência no Ensino Superior e 14 anos na Educação Básica, vejo a Língua Portuguesa em um período de intensa mudança. A modalidade oral do português está em constante evolução, moldada pelas interações sociais, pelas novas tecnologias e pela diversidade de seus falantes. Um dos maiores desafios que encaramos hoje é a adaptação da norma culta às novas formas de comunicação. A internet e as redes sociais, por exemplo, trouxeram uma linguagem mais informal, abreviada e visual. O papel da escola não é substituir a forma de falar do aluno, mas sim ensinar a norma culta, que pode conviver harmoniosamente com a modalidade informal ou coloquial.

 

JC: Se pegarmos um texto do século 19, muitas palavras, e até a forma de escrever, não conseguiremos entender.

DN: Uma obra do século 19, como as de Machado de Assis, difere significativamente de um texto contemporâneo, não apenas por suas características linguísticas, mas também pelos aspectos culturais inerentes. Mas a leitura de obras do século 19, ou até mesmo do século 16, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, não representam um problema. Pelo contrário, esses textos são de grande valia por permitirem constatar as transformações da língua ao longo do tempo.

 

JC: A senhora tem notado o crescimento do analfabetismo funcional entre seus alunos.

DN: O analfabetismo funcional é um problema complexo, enraizado em uma série de fatores históricos, socioeconômicos e culturais, e agravado por fragilidades no sistema educacional brasileiro. Escolas, frequentemente superlotadas com alunos de periferias, enfrentam a realidade de famílias que, por diversas razões, não conseguem acompanhar de perto a vida escolar de seus filhos. Para muitas crianças, a escola não é apenas um lugar de aprendizado, mas um espaço vital para se alimentar e, em alguns casos, uma condição para que suas famílias recebam benefícios sociais. Isso demonstra que o maior problema do analfabetismo funcional é a desigualdade social e a ausência de políticas públicas que busquem soluções concretas para essas mazelas.

 

JC: As crianças de hoje não são mais estimuladas a ler livros, nem pelos pais, nem nas escolas?

DN: A escola, em sua essência, permanece um espaço vital para a promoção da leitura. Mesmo as práticas mais tradicionais, como a cópia no quadro ou a leitura de livros didáticos, podem ser o ponto de partida para os alunos descobrirem o vasto universo dos livros. No entanto, o Brasil ainda enfrenta um desafio significativo que é a ausência de uma cultura de aquisição de livros. Quando uma criança demonstra aversão a ler, um olhar atento à sua realidade socioeconômica familiar frequentemente revela fatores que contribuem para essa desmotivação, como a falta de acesso a materiais de leitura ou um ambiente que não priorize essa prática. É fundamental desmistificar a ideia de que crianças e adolescentes não leem. Eles são, na verdade, leitores ávidos no ambiente digital, consumindo uma vasta gama de conteúdos nas redes sociais. Para superar essa lacuna, é crucial repensar o livro didático, tornando-o mais atraente e relevante para o universo dos alunos.

 

JC: Qual a maior dificuldade encontrada pela senhora entre os seus alunos? O que faz para resolver a situação?

DN: A leitura e interpretação de texto representam um desafio constante para educadores em todos os níveis, da Educação Básica ao Ensino Superior. Em 2001, ao iniciar minha jornada como professora no projeto ‘É tempo de acelerar’, na Escola Estadual Professor Jorge Karam Neto, deparei-me com a realidade de alunos que liam muito pouco. Transformei a sala de aula em um palco de leitura. Pequenos textos eram convertidos em performances teatrais, e descobri no teatro uma ferramenta extraordinária para o ensino-aprendizagem da leitura em voz alta. Essa abordagem não apenas incentivou a prática da leitura, mas também a tornou mais envolvente e significativa para os estudantes.

 

JC: De que forma a linguagem neutra é prejudicial?

DN: Mais do que uma questão puramente linguística, a linguagem neutra se revela um fator ideológico. A ausência de um consenso sobre os impactos dessa variante linguística, se ela é prejudicial ou se será absorvida ou esquecida ao longo do tempo, gera incertezas. Diante desse cenário, enquanto a nossa LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) não acatar e regulamentar essas variantes linguísticas, a prioridade no ensino da escrita continua sendo a norma padrão da Língua Portuguesa.

 

JC: O celular ajuda ou atrapalha?

DN: O celular pode ser uma ferramenta valiosa, pois permite que os alunos rapidamente encontrem referências bibliográficas, acessem livros digitais e assistam a vídeos sobre o assunto abordado pelo professor. No entanto, a mesma facilidade que o celular oferece pode se tornar um problema, como levar à perda de foco dos alunos do que está sendo ensinado, distraídos pelas redes sociais. E muitos alunos buscam por resumos e informações fragmentadas. Essa tendência ao ‘saber de tudo um pouco’ resulta em um conhecimento superficial, sem a capacidade de análise crítica e contextualização.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar