O segundo ano da pandemia engrossou as linhas de pobreza e extrema pobreza, no Amazonas. De 2020 para 2021, a fatia de famílias amazonenses na primeira situação passou de 52,5% para 58,8%. As que viviam em condições ainda piores, e já se encontravam na extrema pobreza, passou de 12,5% para 14,3% dos habitantes. Vele notar que o período foi marcado pelo começo da vacinação em massa, mas também por uma descontinuidade nos pagamentos do auxílio emergencial. Mas, embora tenha se mantido acima das médias nacional e da região Norte, o Estado perdeu posições no ranking nacional, porque a situação em outras unidades federativas piorou ainda mais.
Em Manaus, a situação da extrema pobreza, embora seja menos acentuada, voltou a subir em 2021, passando de 6,5% (2020) para 8,7% (2021), alcançando em torno de 195 mil pessoas. A capital amazonense também mostrou piora, com 38,6% de seus habitantes vivendo nessa condição no ano – 192 mil a mais do que em 2020 (30,5%). É o que revelam os dados da pesquisa “Síntese de Indicadores Sociais – 2022, uma análise das condições de vida da população brasileira”, divulgados nesta sexta (2), pelo IBGE. O órgão de pesquisa se baseou nos parâmetros traçados pelo Banco Mundial, para definição das linhas de pobreza e extrema pobreza.
Em torno de 62,5 milhões brasileiros (29,4%) estavam na pobreza. Entre estas, 17,9 milhões (8,4%) amargavam a extrema pobreza. De acordo com o IBGE, foram os maiores números e os maiores percentuais de ambos os grupos, desde o início da série, em 2012. Houve ainda um aumento recorde em ambos os grupos. O contingente abaixo da linha de pobreza cresceu 22,7%, ao ganhar o ingresso de11,6 milhões de pessoas. No caso daqueles que já estavam na extrema pobreza, o incremento foi de 48,2%, ou mais 5,8 milhões de pessoas.
‘Menos pior’
A pesquisa mostra que quase todas as unidades federativas das regiões Norte e Nordeste – com exceção de Rondônia e Tocantins – possuíam incidência de pobreza superior a 40% da população, em 2021. Em paralelo, o ano foi marcado também por um recuo mais acentuado na renda per capta de ambas as regiões (-9,8% e -12,5%, respectivamente). O ranking da extrema pobreza é liderado pelo Maranhão, com 21,1% de sua população vivendo dessa forma. Na sequência estão Pernambuco (18,7%), Acre (16,5%) e Bahia (15,8%). Em sentido inverso, Santa Catarina (2,1%), Rio Grande do Sul (2,8%) e Mato Grosso (3%) contam com os menores contingentes proporcionais. O Amazonas ficou na nona posição.
A lista de unidades federativas com maior faixa de população na linha de pobreza também é liderada pelo Maranhão (57,5%) e secundada por Alagoas (52%) e Pernambuco (51%), ao passo que Santa Catarina e Rio Grande do Sul aparecem com faixas abaixo dos 10%. O Estado figura na quarta colocação, neste caso. O IBGE-AM destaca que, embora também tenha sofrido piora em suas condições, o Amazonas melhorou sua posição, uma vez que chegou a ficar em segundo lugar em ambos os rankings, em 2020. “Ocorre que outros estados tiveram crescimentos bem maiores no indicador, como Maranhão, Pernambuco, Acre e Bahia”, explicou o órgão, no texto da pesquisa.
Auxílio emergencial
O IBGE estima que, se não fossem os “benefícios de programas sociais governamentais” – com destaque para o então auxílio emergencial –, o quadro da extrema pobreza e da pobreza seria ainda mais grave no Amazonas. Pelo cálculo do órgão de pesquisa, os extremamente pobres alcançariam 21,5% da população já no ano passado, uma fatia bem maior do que a efetivamente apresentada (14,3%). No caso da faixa mais ampla dos amazonenses que estão na pobreza, no entanto, o percentual seria de 54,5% e ficaria abaixo do registro do ano passado (58,8%).
“Embora tenha sido extinto no final de 2020, o auxílio emergencial foi retomado a partir de abril de 2021, contando, por sua vez, com menor cobertura e valores mensais inferiores. Com isso, o impacto do benefício sobre os indicadores apresentados não foi significativo a ponto de reverter tendências ou amortecer os efeitos da pandemia sobre a desigualdade e a pobreza, como ocorrido em 2020, quando ajudou a retomar a trajetória de crescimento do país”, assinalou o texto de divulgação da pesquisa.
O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, sinalizou à reportagem do Jornal do Commercio que a piora nos rendimentos da população amazonense ocorreu em sintonia com os impactos da crise da covid-19 no funcionamento das empresas e no mercado de trabalho, em uma conjuntura de descontinuidade e redução de abrangência de programas sociais. O pesquisador lembrou que o trabalho é a principal fonte de renda de uma população e, à medida em que essa fonte vai diminuindo, a população pobre se torna progressivamente mais dependente de programas sociais e repasses governamentais.
“Em 2020, os programas de transferência de renda amenizaram os impactos da pandemia, mas essa dinâmica foi limitada no ano seguinte. E, em 2021, os programas sociais não atingiram o mesmo nível do ano anterior. Com isso, o comportamento do rendimento das famílias voltou a ser vinculado às condições do mercado de trabalho. Mas, as taxas de desocupação estavam elevadas, e a população não teve como repor adequadamente sua renda. Além disso, Manaus tem percentuais menores de pobreza e extrema pobreza, indicando situação mais grave no interior”, arrematou.
Boxe ou coordenada: Diferença entre pobreza e extrema pobreza
Para fins de controle em seus programas sociais, o governo federal define que famílias na extrema pobreza são aquelas com renda per capta mensal de até R$ 100. As que estão na condição de pobreza são aquelas que ganham até R$ 200. O IBGE lembra que, para fins de comparação internacional, o Banco Mundial definiu três linhas de pobreza, cujos valores dependem dos níveis de renda dos países. A linha de extrema pobreza está fixada atualmente em US$ 1,90 por dia em termos de PPC (Poder de Paridade de Compra) – em inglês, Purchasing Power Parity. A partir de 2017, foram adicionadas as medidas de US$ 3,20 e US$ 5,50 para definição de pobreza, sendo a primeira direcionada a países de renda média-baixa e a última para países de renda média-alta, como o Brasil. O órgão informa ainda que a pobreza monetária se refere unicamente à insuficiência de rendimentos das famílias para provisão de seu bem-estar. As pessoas são classificadas em relação às chamadas linhas de pobreza, podendo estar abaixo (pobres) ou acima delas (não pobres).
Por Marco Dassori
Twitter: @marco.dassori







