“Maldição” ronda os vice-prefeitos

Em: 12 de agosto de 2016
https://www.jcam.com.br/1208_A8.png

Para quem acha que o vice é apenas uma figura decorativa para angariar votos, pode ter uma surpresa. Com as novas regras eleitorais, os vices passam a ter um papel e um peso especial, além de angariar votos, também vão participar ativamente das questões financeiras da campanha eleitoral, com base nas novas regras aprovadas em 2015. Segundo especialistas, os vices são personagens necessários no jogo do poder. No entanto, é preciso considerar os riscos dessas novas alianças e o impacto no eleitor, ao mesmo tempo pode ser positivo ou não, esse é um dado importante que irá refletir nas urnas, no dia 2 de outubro.
De acordo com o cientista político, Breno Rodrigo, os vices das chapas majoritárias são atores políticos importantes à medida que atraem votos e aliados para os cabeças de chapas, ou seja, aqueles que são candidatos aos cargos majoritários. “Em geral, os vices ajudam a ampliar o escopo das coligações eleitorais interpartidárias para fins de: 1) captação de recursos de campanha e, 2) tempo de inserção de TV e rádio”, explicou.
Já na política pós-eleitoral, Breno destaca os vices como peças importantes na montagem dos governos, no que tange a formação de gabinetes e da base parlamentar aliada, bem como, na composição da coalizão de governo. “O que se torna um imperativo na aprovação de propostas no âmbito do Poder Legislativo. Em suma, os vices são personagens necessários no jogo do poder”, concluiu o cientista político.
Na visão do cientista social, professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) Luiz Souza, apesar das novas alianças que chegaram a surpreender os eleitores manauaras e movimentar os bastidores da política na semana passada, não houve uma renovação expressiva. “Primeiro é preciso registrar a baixíssima renovação partidária política dos candidatos. A partir daí é que conseguimos compreender que essa composição das chapas, onde os vices são figuras já conhecidas, me parece que tem intensão óbvia de reforçar as candidaturas que estão com dificuldades”, disse.
Primeiro Souza analisou a coalização PSDB/PMDB, a mais polêmica até o momento. “Se pegarmos essa composição com o Arthur (PSDB) que está com uma rejeição muito alta, que faz uma aliança com o PMDB do Braga com a intensão de votar um candidato forte, tanto eleitoralmente quanto financeiramente. Isso está muito claro. Agora, ao mesmo tempo é preciso considerar em que medida essas jogadas serão admitidas, serão percebidas pelo eleitor, esse é um dado importante”, alertou. Para Souza dois componentes que mais me chamam atenção neste momento é a candidatura do Marcelo Ramos (PR) tendo como vice o deputado estadual Josué Neto (PSD).
“Marcelo Ramos que derivou do campo da esquerda para o campo de centro-direita, quando ele vai para o PR. E agora vai mais ainda para o campo da direita quando ele tem como vice um nome ligadíssimo a esses campos, que é o Josué Neto (PSD). Isso vai aproximá-lo, por exemplo, de figuras como o ex-prefeito Amazonino Mendes”, observou.
Outro dado que também chama a atenção de Souza pela novidade, é o fato do PT (Partido dos Trabalhadores) lançar o candidato José Ricardo que já foi vereador e tem mandato de deputado estadual, mas que não tinha disputado eleições majoritárias, com todas as dificuldades, que ocorrem nas disputas internas dentro do PT. “E o componente esperado, que é a aliança do PT com o PCdoB, mas ao mesmo tempo é inovador com a vinda do jovem Yann Evanovick para dar uma oxigenada na disputa”, registrou.

“Herança maldita” e os vices da PMM

Em Manaus, nos bastidores da política dizem que a “maldição do vice-prefeito” precisa ser exorcizada. Tudo começou em 2002 quando o atual senador Omar Aziz (PSD) deixou a cadeira de vice, no mandato do prefeito Alfredo Nascimento (PR), para acabar a paz no cargo. Na sequência, veio Mário Frota (PSDB) eleito vice-prefeito de Serafim Corrêa (PSB), em 2004, reclamava do tratamento que recebia e passou a criticar a gestão do aliado.
Em 2008, Carlos Souza (PSD) elegeu-se vice de Amazonino Mendes, renunciando ao cargo dois anos depois. Já em 2012 o “jovem Hissa”, como era chamado pelo prefeito Arthur Neto (PSDB) na campanha de 2012, foi deixado de lado depois de ter sido demitido da Seminf (Secretaria Municipal de Infraestrutura), em dezembro de 2013. Um ano depois, Hissa Abrahão renunciou ao mandato de vice-prefeito.
Segundo Souza, para que a herança maldita do vice-prefeito de Manaus tenha um ponto final, é necessário descentralizar o poder e a forma de gestão pública. “Agora numa cidade do tamanho de Manaus tem uma gestão que não é descentralizada e aí os vices ficam como figuras decorativas, parecendo aquelas santas na sala da casa de ateu, que não tem nenhuma função”, observou.
Souza explica que os vices passaram a ter poder de decisão no voto do eleitor e precisam de espaço para mostrar serviço às suas bases políticas. “Nós estamos falando de vices que tem poder, tem voto. Nos casos das gestões de Amazonino Mendes e Arthur Neto, os vices esperavam ter mais espaço político na condução da cidade. E quando não tem esse espaço, os vices acabam por sofrer pressão das respectivas bases políticas”, completou.
Na avaliação de Souza, a administração pública de Manaus se compara aos municípios do interior, onde é até plausível que o prefeito concentre um grau de poder maior porque a cidade é menor e ele tem uma relação mais orgânica com cada rua, com cada canto da cidade. “O problema nosso, em Manaus, se reproduz numa metrópole de dois milhões de habitantes, um modo de gestão de beira de barranco, onde há um centralismo na figura do prefeito. Este fato é, razoavelmente, compreensível se pensarmos numa cidadezinha do interior, mas que não serve para uma metrópole como é Manaus”, finalizou.
Para o candidato a reeleição, prefeito Arthur Neto, duas questões importantes levaram a formação da coalizão PSDB/PMDB: carisma e equilíbrio. “Primeiro o vice é um vice de luxo. Se você olhar bem a nossa chapa é arrumada, nós não pegamos alguém a esmo. Peguei uma pessoa que era segundo colocado nas pesquisas e que durante o ano de 2015 inteiro me venceu nas pesquisas de segundo turno”, contou.
Depois de equilibrada as pesquisas na virada do ano, o prefeito admitiu que já era hora de unir forças com seu principal rival, que continuava subindo nas pesquisas de intensão de voto. “Está é uma aliança que é óbvio que soma votos, que agrega ideias expressas no nosso programa de governo”, reconheceu.
Para o candidato a vice-prefeito de Manaus, Marcos Rotta (PMDB), o mais importante é poder participar da administração da capital amazonense, servindo aos interesses da população. “Eu digo e repito quantas vezes for necessário que é uma grande honra, servir ao lado de uma pessoa com um currículo fantástico de grandes serviços prestados a Manaus, ao Amazonas e ao Brasil. E onde eu puder servir melhor eu servirei”, salientou.

Esfera Nacional

De acordo com o cientista político Humberto Dantas, é preciso lembrar que o vice possui um cargo, previsto na Constituição Federal. “Ele assume o poder como vice-presidente da República. Os vices assumem um mandato. Eles têm um gabinete, rotina, responsabilidades. A mais fundamental destas responsabilidades é estar à disposição do prefeito, do governador ou do presidente para assumirem o poder sempre que forem chamados”, destaca.
Segundo Dantas, a urna eletrônica é a prova disso. Todo material de campanha, por lei, agrega o nome do vice. “Dizer que as pessoas não votaram em Michel Temer, mas só em Dilma Rousseff, é um atentado contra a lógica eleitoral”, aponta. Resumindo os fatos: “Temer foi eleito democraticamente assim como foi a presidente Dilma e, por isso, é seu dever assumir o cargo”, finalizou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar