‘Manaus será reescrita turisticamente’, diz Oreni Braga, da Manauscult

Em: 15 de dezembro de 2021

O setor turístico no Amazonas volta a ter restrições com o surgimento de uma nova variante do coronavírus. Tinha como plano recomeçar tudo. O Réveillon foi cancelado em Manaus, as viagens aéreas também reduziram, uma decisão que deve atingir ainda o carnaval. Mesmo assim, são desenvolvidas grandes estratégias para tornar a capital um centro de excelência em operações turísticas, segundo Oreni Braga, diretora de Turismo da Manauscult.

A ideia é vender a ‘marca Manaus’ em todo o mundo, como referência de atividades sustentáveis, amparadas nas riquezas da biodiversidade, na cultura cabocla, indígena, e na excelente gastronomia que, hoje, não deixa nada a desejar à de outras cidades, ressalta Oreni.

Ela diz que Manaus já está pronta para promover grandes atrações aos turistas nacionais e estrangeiros. Investiu pesado na profissionalização, na normatização e na capacitação constante de uma mão de obra muito qualificada para receber bem os visitantes. E ainda buscou novos parceiros para fortalecer essas novas ações.

“E tão logo sejam normalizadas as atividades econômicas, colocaremos em prática todas as estratégias para alavancar o turismo na cidade”, afirma Oreni. “Manaus será reescrita turisticamente”, acrescenta a dirigente.

O roteiro do turismo religioso e o ambiental fazem parte desse planejamento macro. Tecnicamente, para possibilitar um boom no setor que tenha ressonância internacional, mundial, ressalta Oreni.

Segundo ela, a cidade tem quatro grandes templos – a Igreja São Sebastião, a Igreja de Aparecida, a Matriz e a Igreja dos Remédios que são grandes atrações na cidade. Possuem inclusive museus em seu interior, um dado que poucos católicos ou quase ninguém sabe, um acervo rico que marca a história e a trajetória da região, sendo atrativos para os turistas.

“Vamos resgatar todo o centro histórico de Manaus, onde o turismo religioso tem boas expectativas para reunir muita gente, gerando mais empregos e renda”, afirma Oreni.

Ela disse que o turismo religioso chegou a movimentar pelo menos 300 milhões de pessoas no Brasil em 2019, uma quantidade que supera, inclusive, a população do País. “Podemos fazer o mesmo que faz a Espanha que aproveita todo esse potencial para incrementar mais ainda a economia”, afirma.

Oreni Braga participou da live ‘JC às 15h’, comandadas pelos jornalistas Caubi Cerquinho e Fred Novaes, diretor de redação do Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – Hoje, a grande discussão é em relação aos eventos. Já está decretado que não haverá mais comemorações do Natal, Réveillon e possivelmente o carnaval, como estava programado. Tudo isso faz vocês trabalharem no sentido de proteger vidas, esse é mesmo o caminho?

Oreni Braga – A Organização Mundial do Turismo não só recomenda como também determina esse direcionamento. A gente sabe que a cultura e os eventos são dois grandes ingredientes do turismo.

O turismo vive de várias facetas e os eventos e culturas fazem esse grande menu. Obviamente, onde tem festa, eventos, causa aglomerações. Não tem jeito.

Qualquer tipo de evento que você realizar numa cidade, as pessoas buscam aglomeração. Diante de todo esse cenário, a Europa que estava saindo das cepas, sobretudo da delta, começou a avermelhar, em vez de azular, o leste europeu está contaminadíssimo

E aí surge essa nova cepa, a ômicron, que começa a trazer uma certa dificuldade do ponto de vista daquilo que o turismo gostaria de já começar a se movimentar

Não é só a questão dos eventos, das aglomerações culturais, festas natalinas, mas também o fluxo de turistas de um lado pro outro

Então, a Organização Mundial do Turismo recomenda, a Organização Mundial de Saúde determina que todos os protocolos devem ser assegurados para que vidas possam ser mantidas

Num momento em que é tomada uma decisão dessas em tempo hábil, muitas vidas serão preservadas.

JC – Esperávamos a volta dos cruzeiros em 2022.. Havia toda uma expectativa. Com a nova variante, foram retomadas as restrições. Como fica agora essa questão?

OB – Fechou-se os aeroportos para todos os países. Ou seja, é um fechamento novamente de fronteiras. A Argentina continua com problema crônico, nós já estávamos saindo de todas essas cepas da pandemia.

Mas a Argentina e o Cone Sul ainda continuam sofrendo. Informações apontam que essa nova cepa contamina muito mais, mas tem um índice de mortalidade baixo.

Mas ainda é uma incógnita, não se sabe a mutação dessa cepa. Eu vejo que quem apanhou uma vez, não pode apanhar duas

Acho que a Organização Mundial da Saúde, a Organização Mundial do Turismo e o próprio setor estão se reservando exatamente pra não voltarem a viver aquela situação terrível que vivemos, e sobretudo Manaus que foi o foco mundial dessa doença

Como a questão da falta de oxigênio. Até hoje, a nossa imagem está manchada no mercado turístico mundial.

E é um trabalho de resgate. Quando a gente começa a querer respirar, se movimentar, aí vem uma nova cepa.

Mas o que importa é que a gente já tem todo um planejamento preparado para tão logo esse processo seja mitigado, a questão da saúde volte a ficar estável, sobretudo aqui pra nós, a gente coloque em prática essas ações.

Nós temos grandes projetos âncoras de restauração, de revitalização de prédios históricos da cidade de Manaus. Com grandes projetos pra parques, uma série deles, como o nosso Memorial Encontro das Águas, do Mirante perto da Marinha.

O prefeito está pensando numa cidade turística estratégica para ser boa pra nós e pra quem nos visita. Enquanto a crise não passa, nós estamos trabalhando

Paralelamente aos projetos âncoras, estamos redescobrindo Manaus. Porque turisticamente Manaus não é só visitar o Teatro Amazonas, o espaço do Zoológico do Cigs. Manaus tem tesouros escondidos que precisam ser trazidos à baila pra que o turista e nós que moramos aqui possamos usufruir disso.

E um exemplo, que nós acabamos de entregar já para o setor turístico, é o roteiro do turismo religioso na cidade de Manaus. Temos quatro grandes âncoras do turismo religioso no centro histórico de Manaus que são a Igreja São Sebastião, a Igreja de Aparecida, a Matriz e a Igreja dos Remédios

Quatro templos que, inclusive, têm museus dentro. E os próprios católicos de Manaus não sabem disso. Hoje, o turismo religioso no mundo é um dos segmentos que mais movimentam pessoas de um lado pro outro. Só em 2019, o Brasil movimentou 330 milhões de pessoas em busca de turismo religioso dentro do País, ou seja, mais que sua própria população.

Porque vem gente de fora em busca de saber que tipo de atrações o Brasil tem no segmento religioso. Temos a festa de Nossa Senhora de Aparecida, também em Minas Gerais, agora estão fazendo todo um circuito como fazem na Espanha.

Aqui temos municípios que trazem gente da Europa, como o município de Borba, Itapiranga, que têm os seus grandes movimentos. Então, Manaus ficava à mercê disso. E nós começamos a construir.

Temos hoje um roteiro pronto na cidade de Manaus trabalhado numa parceira da Manauscult e Senac

Os padres que trabalham com imigrantes, o turismo, a pastoral do imigrante, a pastoral do turismo

Fizemos um trabalho a quatro mãos. Hoje, temos 23 monitores estrangeiros e brasileiros, amazonenses, capacitados para trabalhar com o roteiro do turismo religioso.

Nós vamos quebrar paradigmas e mostrar para os operadores de turismo nacionais e internacionais que Manaus tem muitas coisas para ser vivida. E aí aumentamos a permanência do turista, um gasto que maior que ele tem, representando mais empregos, mais renda e arrecadação de tributos

JC – Realmente, esses projetos são uma quebra de paradigma. Vocês estão pensando em fortalecer as potencialidades turísticas já no curto prazo, o mais rápido possível….?

OB – Desde a campanha, uma das metas do prefeito David Almeida foi implantar o Plano Municipal Estratégico de Turismo para Manaus.

E também o plano estratégico de marketing, criando a marca Manaus, em qualquer lugar do mundo tem isso. Manaus não tem uma identidade. Exatamente pra gente planejar Manaus.

Paris levou 80 anos pra ser o que é hoje. Paralelamente a isso, já temos a expertise sobre o que Manaus tem de bom para ser elaborado, já olhando para a Manaus de amanhã.

Temos hoje 600 flutuantes na bacia do Tarumã. E 80 deles podem trabalhar como pontos turísticos. Já realizamos a primeira reunião na Suframa, estamos organizando, capacitando, normatizando, para que a gente possa trabalhar. Levando isso como um produto turístico.

É preciso que esse produto chegue lá na ponta, para o nacional, para o gringo. Porque é um produto da água, Manaus até hoje viveu de costas pra água. Precisamos ter essa Manaus de frente pras águas. Aproveitar o potencial dessas comunidades como atrações turísticas.

Os flutuantes são uma herança cultural nossa e vamos transformar em produto. Tirar do amadorismo, investindo no ecologicamente correto.

JC -Falamos do turismo religioso, do ambiental. Mas parece que Manaus tem dificuldade para ter uma identidade. Qual é a cara da cidade, o que mais a representa hoje?

OB – Na verdade, é uma frustração nossa. Quando nós assumimos um órgão de turismo, a gente sempre imagina vender melhor pro mercado, mas precisa saber o que que tem nas prateleiras.

Quando estávamos no governo, tínhamos um problema para levar artesanatos pra vender nas feiras. Quando a Embratur pedia artesanatos para emoldurar as feiras, eu tinha crise de identidade. E em cima disso, criamos um artesanato sustentável que até hoje é uma realidade, que tinha a cara de Manaus, com embalagens do nosso grafismo indígena

Mas a nossa marca, a identidade de Manaus, em qualquer feira que você vá no Brasil e no exterior, as pessoas falam logo no Teatro Amazonas. Porque ficou uma marca de Teatro Amazonas e Ponta Negra.

As pessoas não pensam que Manaus tem o maior parque industrial da América do Sul. O turismo de compra pode ser também um marco nosso. Essas fábricas podem ser visitadas. Hoje, a prefeitura e a Suframa estão trabalhando juntas nesse sentido.

Tudo isso devemos colocar numa cesta, não só a prefeitura, mas também a sociedade, para definir a cara que nós somos. Nós vamos trabalhar isso com toda a sociedade, a acadêmica, científica, industrial, comercial, jornalística.

Há 30 anos, as pessoas tinham vergonha de serem chamadas de índios. Intensificamos a promoção internacional do Festival de Parintins. Levamos para Europa, aos Estados Unidos, para a África e China, levamos pra onde tinha brecha.

As pessoas começaram a perceber que ser índio é legal, é uma referência. Então, quem faz esse artesanato e o notebook que estão na mesa das pessoas são os índios daqui.  Traduzir isso numa linguagem visual. Isso hoje ainda não tem, somos órfãos disso.

JC – Vimos a retomada de alguns voos internacionais, mas o surgimento da nova variante voltou a afetar o setor. Que projeções faz para o futuro?

OB – Temos uma esperança. Primeiro porque temos um prefeito que gosta do turismo, está trabalhando para fazer uma Manaus turística.

E outra esperança que nos trouxe uma dose de alento é a nova administração do nosso aeroporto, que é a Vinci Airport, uma empresa que administra mais de 52 aeroportos no mundo..

Na nossa primeira reunião, dia 8 de agosto, que  tivemos com David Thompson, diretor Comercial da Vinci no Brasil, ele disse que “vamos transformar esse aeroporto em oito meses, queremos transformar Manaus no rob da Amazônia brasileira”.

Eu me tremi, mexe com a gente, porque é uma coisa que a gente vinha há muito tempo trabalhando..

Temos tudo certo. Nossa posição geográfica tem tudo para receber todos os voos da América, dos Estados Unidos e da Pan-Amazônia

Fizemos todo um esforço pra ter acessos aéreos ao mundo. As empresas perceberam que viajar de Miami pra Manaus era o mesmo que viajar de Miami para Los Angeles, não pagavam pátio de avião. Antes da pandemia, já estávamos perdendo os voos, aí veio a pandemia e foi o tiro de misericórdia.

Manaus tem um grande Centro de Convenções, uma excelente hotelaria, não fica a desejar para outras cidades, tem uma excelente Restaurant Aria. Precisa embelezar e dizer que Manaus é linda. Precisamos vender Manaus.

JC – Réveiilon cancelado. Mas está mantida a queima de fogos?

OB – Sim, Réveillon cancelado. O prefeito avalia todos os protocolos de segurança. É como sempre diz ele, “eu obedeço a ciência e não importa o que  tem programado”.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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