Quase 27% dos industriais entrevistados apontam tendência de queda nos seus negócios
A indústria de manufatura no Brasil está mais pessimista do que no resto do mundo, mostra uma pesquisa da auditoria RSM obtida com exclusividade pelo DCI. Sem sinais de recuperação, os brasileiros esperam uma piora do cenário nos próximos 12 meses.
Na média, os empresários do país entrevistados para o estudo preveem um crescimento de 9,5% nas receitas brutas em 2015, ante uma alta de 13,8% registrada no ano anterior. Os executivos globais esperam estabilidade para este ano, com expectativa de aumento dos ganhos em 12,2%. Questionados sobre a condição atual dos seus negócios, 26,8% dos brasileiros disseram ver queda do desempenho, ante 9% da média global. A maioria no Brasil, cerca de 49%, afirma que o cenário é de estabilidade e apenas 24,4% veem crescimento acelerado.
“Nós fomos do céu ao purgatório entre 2013 e 2014 e do purgatório ao inferno entre 2014 e 2015. A deterioração foi muito rápida e as expectativas refletem esse ambiente”, explica o sócio e diretor da RSM, Wesley Figueira. Na avaliação dele, foi a deterioração da confiança no governo e na capacidade de equilíbrio das contas públicas que causou essa nova onda de pessimismo nacional.
O analista da consultoria Pezco Microanalysis, João Ricardo Costa Filho, concorda que o principal entrave hoje da economia é político. Em sua avaliação, o fato do industrial não conseguir enxergar “o fundo do poço” trava o consumo e os investimentos, de forma que ele considera natural que os empresários brasileiros estejam pessimistas. “Os anúncios recentes de retomada de alguns impostos antes extintos também preocupam muito. Se houver um retorno de alíquotas como a CPMF, as companhias só terão como opção repassar esse custo ao consumidor, gerando inflação, ou absorvê-lo e reduzir suas margens já apertadas”, alerta o especialista.
Internacionalização
A situação da indústria manufatureira no Brasil fica ainda mais pressionada porque as empresas têm pouca atuação no exterior e ficam expostas quase que exclusivamente às flutuações do mercado doméstico, afirma Figueira. Por terem uma receita prioritariamente obtida em reais, as companhias se veem prejudicadas na desvalorização mais recente da moeda brasileira, sem terem a capacidade de se proteger. O estudo aponta que apenas 30% dos grupos brasileiros exportam seus produtos, sendo que a média internacional é de 48%. Entre as empresas do país que ainda não possuem vendas externas, 50% informaram não ter planos de dar início a uma operação global em 2015, ante 38,5% no total mundial.
De acordo com o diretor da RSM, existe uma intenção dos empresários de se internacionalizar a partir da valorização do dólar e da expectativa de que o câmbio não deve voltar aos patamares de anos anteriores. “O que mostra que faltou realismo na nossa moeda durante muito tempo”, critica. Para Costa Filho, entretanto, a maior participação das brasileiras no mercado global ainda é dificultada pela competitividade dos produtos fabricados no país. Ele aponta a inflação acelerada dos últimos meses, que acaba com os ganhos obtidos com a alta do dólar, e os problemas de produtividade do Brasil como os fatores que mais devem pesar sobre os investidores que queiram expandir seus negócios no mundo.
Na pesquisa, os executivos indicaram a flutuação do câmbio como principal entrave à atuação global. Na sequência, ficaram o risco político, o ambiente desfavorável da economia mundial e a corrupção.
Investimentos
Com necessidade de investir, mas sem capacidade financeira, as companhias brasileiras passaram a apostar em pesquisa e desenvolvimento e na melhoria de processos como alternativa, mostra o estudo. Dos entrevistados, 62,5% responderam ver, no mínimo, a possibilidade de um crescimento nos investimentos em inovação e 76,9% veem um aumento dos aportes em processos.
O analista da Pezco explica que a sinalização recente do Ministério da Fazenda de que vai privilegiar a competição levou as empresas a se interessarem mais pela produtividade. Como o crédito para projetos de ampliação e aquisição está mais caro e mais escasso, a saída que as companhias encontraram foi investir em pesquisa. “Elas não controlam os tributos e o crédito, por isso estão investindo no que está ao alcance”, diz Costa Filho.







