Marx, o intérprete do capitalismo

Em: 9 de maio de 2018
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As celebrações do bicentenário do nascimento de Karl Marx despertaram paixões e protesto por todo o mundo. Paixões daqueles que o veem ainda hoje como um novo apóstolo da emancipação da humanidade; o filósofo da iluminação e de uma nova sociedade determinada pela igualdade radical sem classes, o comunismo. Os protestos partiram daqueles que direta ou indiretamente foram afetados pelas ações concretas do comunismo, regime este que acabou por provocar uma alternação substantiva na geopolítica global do pós-Segunda Guerra.

Sem ceder às paixões ordinárias, Marx foi certamente um grande gênio filosófico. Formado na melhor tradição de seu tempo, marcada pelo auge do romantismo alemão e pelas escolas de Kant e Hegel, Marx desenvolveu sua tese sobre Epicuro e Demócrito, os representantes máximos do materialismo na antiguidade grega.

Impedido de lecionar nas universidades alemãs por causa das legislações antissemitas (Marx tinha ascendência judaica) e entusiasmado pelas lutas operárias, Marx logo se engaja no movimento revolucionário de sua época. Junta-se à Liga dos Justos (mais tarde transformada em Liga dos Comunistas), uma organização secreta, revolucionária e proto-maçônica, que pretendia liderar a nova classe em formação -proletariado -na sua luta revolucionária e internacional. (É justamente nesta época que surgem, por exemplo, as duas concepções concorrentes do socialismo que ganharam forma no século 20. De um lado, a crença de que a luta do proletariado é universal e que deve extrapolar todas as fronteiras nacionais. Por outro, a percepção de que a luta precisa ser nacional em respeito às nacionalidades que são geradas após a Revolução Francesa).

A redação final do Manifesto Comunista é a coroação de uma concepção programática e científica do movimento revolucionário. É no Manifesto que Marx e Engels ensaiam a filosofia e o método de estudo da história. O método dialético é a compreensão da estrutura da realidade como o devir movido por contradições infindáveis, onde as classes sociais encontram-se em luta -nos dizeres de Marx, a “história de todos os tempos tem sido até agora a história da luta de classes”. Em suma: a luta de classes é o motor da história. Já a filosofia proposta por Marx é materialista à medida que as bases materiais são marcadas pelas contradições entre as forças produtivas e relações sociais de produção.

O marxismo revolucionário que ganha forma no Manifesto Comunista expande a sua fronteira de influência intelectual e política. No processo de organização dos trabalhadores, na primeira e segunda Internacional, Marx e Engels tornaram-se líderes e principais referências no combate intelectual. Tal realidade fez com que Marx iniciasse uma verdadeira epopeia por países europeus para escapar das perseguições políticas e policiais. As suas passagens pela França, onde escreve o 18 Brumário de Louis Bonaparte, um dos mais instigantes textos de teoria política, e pela Inglaterra, quando passou a se debruçar sobre os assuntos econômicos. A sua obra magna, O Capital: para a crítica da economia política, dividida em três volumes, é considerada ainda hoje uma referência importantes nos estudos econômicos e uma peça fundamental para o entendimento da história do capitalismo.

As credenciais de filósofo e economista do movimento revolucionário, impulsionaram Marx para a elaboração de um estudo sistemático do sistema capitalista de produção. A ambição de Marx era entender as leis da história que fizeram do capitalismo o sistema econômico mais dinâmico já inventado.
A meta de Marx era demonstrar cientificamente como o proletariado era explorado pelos mecanismos do capital e de como o próprio proletariado poderia iniciar a sua luta revolucionária para a destruição do capitalismo.

É com base no estudo do capitalismo que Marx formula o conceito de mais-valia. A mais-valia é a pedra filosofal da exploração dos donos dos meios de produção sobre a classe trabalhadora, pois a mais-valia é a tradução do tempo de trabalho não pago. Ceteris paribus, o sistema capitalista tenderia a perpetuar os abismos sociais entre as classes sociais.

Marx escreveu pouquíssimas linhas sobre a sociedade sem classes do futuro. Porém, meditou com muita intensidade sobre o seu tempo. Marx foi, sim, um intérprete do capital e de seus segredos.

*é cientista político

Breno Rodrigo

É cientista político e professor de política internacional do diplô MANAUS. E-mail: [email protected]
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