Mercado de veículos zero segue aquecido no Amazonas

Em: 19 de setembro de 2023
No acumulado do ano, o segmento já cresceu 24,39%, somando 29.533 unidades

As vendas das concessionárias amazonenses de veículos zero reforçaram alta em agosto. Mas, com o fim dos recursos dos incentivos federais das MPs 1.175/2023 e 1.178/2023, o crescimento ficou restrito a comerciais leves, motocicletas e implementos rodoviários. Os números globais somaram 7.264 emplacamentos, 19,04% a mais do que em julho (6.102) – que teve dois dias úteis a menos. O confronto com o dado de 12 meses atrás (6.591) indicou incremento de 10,21%. Com isso, o acumulado do ano foi reforçado em 17,33%, passando de 41.942 (2022) para 49.209 (2023) unidades.

Os números são da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), que se amparou nos emplacamentos do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) e levou em conta todos os tipos de veículos – incluindo automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus e motocicletas. Vale notar que os dados locais devem ser levados também sob a perspectiva do transit time (tempo de trânsito) entre faturamento e emplacamento, um hiato que pode durar 30 dias, em virtude da logística de translado entre as fábricas do Centro-Sul e as concessionárias no Estado.

A média nacional apresentou números menos robustos, com agosto registrando licenciamento de 371.495 veículos e elevação de apenas 1,17% frente ao mês anterior (367.188). O saldo veio 7,18% mais elevado do que o de agosto do ano passado (346.597) e, em oito meses, as vendas expandiram 13,64%, totalizando 2.620.014 licenciamentos. Em comunicado à imprensa, a Fenabrave destaca que apenas a categoria dos automóveis desacelerou, sob o peso da crise no crédito. Diante das incertezas do mercado, a entidade manteve sua projeção de crescimento de 3,3% para 2023. Mas, garante que vai continuar lutando por uma “política de fomento industrial de longo prazo”.

Automóveis x motocicletas

Em agosto, quatro das sete categorias listadas pela Fenabrave tiveram expansão de vendas no Amazonas, na variação mensal. O melhor desempenho veio do segmento minoritário de implementos rodoviários, que escalou 371,43%, com apenas 33 unidades comercializadas. Os demais destaques positivos vieram de motocicletas (+33,39% e 4.890), comerciais leves (+7,14% e 690) e “outros veículos”, como tratores, máquinas agrícolas e carretas (+10,64% e 52). Em contraste, ônibus (-60% e 16), caminhões (-10,96% e 65) e automóveis (-6,58% e 1.518) amargaram quedas.

O número de categorias com expansão de vendas foi menor frente ao mesmo mês de 2022, limitando-se a comerciais leves (+54,02%), motocicletas (+32,34%) e implementos rodoviários (+3,13%). A mesma quantidade de segmentos aparece com maior volume comercializado no aglutinado de janeiro a agosto. O melhor resultado vem dos veículos de duas rodas (+27,92% e 31.899), enquanto os comerciais leves aparecem com alta de dois dígitos (+11,32% e 4.446) e os automóveis (+0,38% e 11.585) registram estagnação.

Com a recuperação das vendas, as motocicletas voltaram a aumentar a diferença em relação aos veículos de quatro rodas no ranking das categorias veiculares mais comercializadas no Amazonas. A participação das motos no bolo de vendas do Amazonas continuou predominante, avançando de 59,45% (2022) para 64,82% (2023), no comparativo do acumulado do ano. Em sentido contrário, a soma dos automóveis e comerciais leves voltou a reduzir sua fatia na mesma comparação, com 32,58% (2023) contra 37,04% (2022).

Inadimplência e “ressaca”

Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o gerente regional de Seminovos do Grupo Revemar, Rubem Lima, disse que os primeiros meses do ano foram de vendas “acima do esperado” para a companhia, mas restritas a carros de segunda mão. “O problema não é de demanda, mas de inadimplência. O crédito está muito difícil e só costuma sair para o cliente com dívidas em dia e renda adequada”, mencionou.

O executivo destacou que o panorama melhorou para os carros zero, graças aos incentivos. “Tivemos bastante procura. Isso ajudou e houve até ‘redução’ de juros. Porém, a inadimplência continua muito alta, e faz muitos financiamentos serem recusados. Nossas expectativas são boas, temos de ser otimistas. Teremos uma ‘ressaca’ desse incentivo, até o final do ano e a estratégia será chamar atenção do consumidor para isso, uma vez que os descontos dados agora não são do governo, mas das montadoras”, avaliou.

Também em entrevistas anteriores, o gerente geral da Cometa Motocenter, Agno da Silva Montalvão, explicou que o mercado local de motos veio de um boom de vendas desde 2022, puxado pelos segmentos de delivery e locação de veículos, e que “o problema das filas” para adquirir o produto ficou para traz. O executivo, no entanto, informou que a alta de 9% atingida no acumulado do ano ficou abaixo do esperado. 

“O resultado se deve à restrição de crédito. O apetite de compra das pessoas não caiu, porém muitos estão negativados. Mas, as expectativas são ótimas para os próximos meses, pois a taxa de juros deve cair e o governo está com ações para limpar nomes [o programa Desenrola]. A fábrica está com a promessa de produzir mais motos, então, esperamos crescer em torno de 15%”, afiançou.

“Política de fomento”

Em texto divulgado à imprensa, o presidente da Fenabrave, José Maurício Andreta Júnior, ressaltou que os incentivos do governo foram importantes para “aquecer o mercado momentaneamente” e permitir o acesso do consumidor aos “veículos de entrada”, demonstrando a importância do fator preço. “Mas, o resultado de automóveis, agravado pela piora na oferta de crédito, já deixa clara a necessidade de uma política de fomento industrial de longo prazo”, frisou, acrescentando que o resultado só não foi pior porque algumas marcas ainda tinham saldo de veículos com descontos patrocinados a oferecer.

O dirigente destaca ainda que os resultados positivos no acumulado do ano devem ser relativizados sob uma análise do contexto do setor no período da base de comparação. “A evolução sobre 2022 é positiva, mas devemos lembrar que os emplacamentos tiveram um desempenho abaixo da média histórica no primeiro semestre do ano passado, devido a uma série de fatores, como escassez de peças e componentes, guerra na Europa e alta nos combustíveis. Só se recuperaram no segundo semestre. Neste ano, não há sinais de que teremos uma forte recuperação na segunda metade do ano”, alertou.

O presidente da Fenabrave adianta que a entidade está avaliando projetos que podem ser propostos ao governo federal, no sentido de estimular as vendas de automóveis e comerciais leves, com redução de preços e aumento na oferta de crédito. E garante que as propostas visam a descarbonização do setor e não preveem perda de arrecadação. “Todo esse conjunto de fatores irá gerar a escala necessária para que o segmento de automóveis se recupere, de forma definitiva, trazendo a população de baixa renda de volta para a pista do consumo”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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