O Dia do Trabalho é interpretado de forma divergente por lideranças laborais e patronais ouvidas pela reportagem do Jornal do Commercio. Na análise das entidades classistas que representam as atividades de indústria, construção, comércio e serviços do Amazonas, trata-se de motivo para comemorações, dado a retomada dos empregos, os ganhos obtidos e pela ZFM no âmbito da reforma Tributária, e as perspectivas de dias melhores, em face dos indicadores econômicos. Para os trabalhadores, a data motivaria apenas reflexão e organização para lutar para não perder direitos.
As comemorações são mais enfáticas na indústria. O presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, lembra que o Amazonas fechou 2023 com um estoque de 517.171 empregos formais e um saldo positivo de 21.457 novas vagas. E lembrou que o primeiro bimestre de 2024 (+669 e +0,11%) já apontava para a continuidade desse processo. “Em cinco anos, houve um aumento de 100.000 novos postos de trabalho, um acréscimo de 22,18%. Se considerarmos apenas a indústria, o estoque é de 128.267 empregos formais em 2024, alta de 1,66% sobre 2023. Há cinco anos, esse estoque era de 109.526”, comparou.
Segundo Antonio Silva, as condições de trabalho também tiveram “substancial melhoria”, com as empresas trabalhando nas “melhores práticas” para prover valorização profissional. “Especialmente no PIM, os benefícios se constituem em uma contrapartida compulsória em relação à concessão dos incentivos fiscais, sem os quais a indústria não faz jus ao usufruto do tratamento tributário favorecido. Os órgãos fiscalizadores desempenham importante papel para assegurar o pleno cumprimento da legislação a fim de que os colaboradores tenham seus direitos e condições laborais preservados”, asseverou.
O presidente da Fieam destaca que a indústria trabalha “incessantemente” para garantir que os colaboradores tenham seus benefícios “aprimorados continuamente”, já que a preservação ZFM passa também pela valorização de seus colaboradores. “Os trabalhadores são a força motriz e a base do sucesso do PIM. Sem recursos humanos capacitados e uma estrutura adequada, não há desenvolvimento. A força produtiva advém dos esforços empregados diariamente por eles, a quem devemos o total respeito e prestígio”, frisou.
“Crescimento contínuo”
Conforme o vice-presidente da Fieam e presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, Nelson Azevedo, a indústria do Amazonas tem se destacado na geração de empregos, em 2024. “Esse desempenho é um dos melhores da região Norte e reflete a eficácia das políticas implementadas. O sucesso do Amazonas pode ser atribuído ao reconhecimento contínuo e ao apoio dos governos federal e estadual à ZFM, uma das mais acertadas políticas fiscais para mitigar desigualdades regionais”, enalteceu.
Ele avalia que os dados do Codam e do CAS apontam para uma tendência de “crescimento contínuo”. “O fortalecimento das relações entre a Suframa e o setor privado tem sido crucial. Com o PIM impulsionando cerca de 85% da economia local, os projetos industriais estão não só criando empregos, mas também fortalecendo os serviços, o comércio e o setor primário”, enfatizou.
Azevedo também destacou os ganhos advindos da inserção da ZFM na reforma Tributária. “Há dez anos, a extensão constitucional da Zona Franca por mais 50 anos era uma grande expectativa. Apesar de um início lento, devido a uma crise econômica subsequente que freou investimentos e expectativas de melhorias na infraestrutura, somente agora vemos um novo horizonte. A segurança jurídica fortalecida está atraindo novos investimentos, gerando empregos e abrindo oportunidades em nossa economia”, garantiu.
O presidente do Sinduscon-AM, Frank Souza, ressalta a importância do Serviço Social da Indústria da Construção Civil para manter o trabalhador saudável e dentro das normas de segurança. “De 2022 para 2023, tivemos um aumento de 15%, no [serviço] assistencial, e 10%, no ocupacional. Para 2024, as expectativas de crescimento são de 17% e 12%. De janeiro a abril, realizamos 14 mil exames [de saúde]”, listou.
Frank Souza diz que as expectativas de contratação de mão de obra são positivas para 2024, dado que a projeção de crescimento do PIB da construção está sendo revista de 1,5% para 3%. Há um otimismo também em torno do Minha Casa Minha Vida, sendo que as lideranças do setor têm trabalhado para melhorar os recursos para a região Norte, que já conta com juros menores, e deve dispor também de valores mais baixos de metro quadrado. Ele citou ainda as expectativas positivas em torno dos programas de habitação estadual e municipal, assim como a retomada das obras de infraestrutura.
“A mão de obra formal do setor soma em torno de 15 mil trabalhadores. Mas, se você considerar a cadeia produtiva, que incluiu serviços especializados, chegamos 75 mil pessoas. Se acrescermos a informalidade, esse número dobra para 150 mil. É claro que a gente só trata com aquilo que é forma”, salientou. “A taxa Selic e a inflação estão estáveis. Devemos ter um crescimento de 7% a 8% nas contratações do Amazonas”, completou.
Foco na estiagem
O setor terciário se mostra mais preocupado. O presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, assinala que o Dia do Trabalho é uma data significativa para o comércio e para os serviços do Amazonas, que respondem por 70% da mão de obra do Estado. Mas, o dirigente lembra que o setor ainda sofre os rescaldos econômicos da pandemia e da crise da vazante, o que se reflete nos empregos.
“O comércio esteve fechado durante seis longos meses. Depois, tivemos a vazante histórica, que causou profundos abalos nos setores. Não obstante, temos um compromisso com a população e nos reinventamos. O 1º de Maio foca nesse trabalhador que representa 70% do mercado de trabalho. Nossa expectativa é que possamos nos organizar para não sofrermos novamente esses mesmos impactos”, comentou.
O presidente da Assembleia Geral da ACA, Ataliba David Antonio Filho, ressalta que o comércio ainda vinha se recuperando da pandemia, quando sofreu os impactos da estiagem histórica. “Esperamos que a antecipação de ações, como dragagem de pontos críticos dos rios, que evitem o problema. Permanecendo a normalidade, o setor volta a ter uma expectativa de boa performance, aumentando a geração de emprego e renda no Estado”, frisou.
“Dia de reflexão”
Já os sindicatos laborais ouvidos pela reportagem garantem que o trabalhador tem pouco a comemorar hoje. “Os governos só fizeram tirar direitos ratificados a duras penas pela Constituição de 1988. Naquela época, as horas mensais foram reduzidas de 48 para 44 horas por semana, o que gerou muitos empregos. Queremos reduzir a jornada para 36 horas semanais, para melhorar a saúde do trabalhador, principalmente em atividades repetitivas”, apontou o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas e da CUT-AM, Valdemir Santana.
Para o dirigente, o 1º de maio é um “dia de reflexão” para a classe uma vez que mesmo a retomada do aumento das contratações tem um senão. “Por mais que se tenha prorrogado a ZFM e incluído o modelo na reforma Tributária, e a gente tenha saído de 92 mil para quase 120 mil trabalhadores, era para estarmos muito melhores. Em Manaus temos mais de 650 mil pessoas desempregadas ainda. Vamos cobrar da bancada para que nossa proposta [de redução de jornada] seja implementada. Até porque os parlamentares trabalham três dias por semana”, justificou.
O diretor financeiro do Sintracomec (Sindicato dos Trabalhadores nas indústrias da Construção Civil de Manaus), Carles Waldemar, aponta que a maior parte dos trabalhadores do setor está empregada, sendo que o mercado se ressente da falta de mão de obra em algumas especialidades, como pedreiros e azulejistas.
O sindicalista destaca, entretanto, que a categoria tem muitas reivindicações a serem encaminhadas em sua data base, no próximo mês. “Nossa pauta é a de todos os anos: piso salarial, reajuste com ganho salarial, plano de saúde, cesta básica melhorada, participação no lucro das empresas. Já estamos conversando com a categoria. O patronal teve um lucro bastante razoável, e o trabalhador tem cada vez menos direitos”, arrematou.







