Como parte das comemorações do Ano do Intercâmbio da Amizade Brasil-Japão que, em 2025, celebra os 130 anos de relações diplomáticas entre os dois países, Tomohiko Kobayashi, professor da Universidade de Comércio de Otaru (Japão), ministrou na UEA a palestra ‘A participação dos povos indígenas na mitigação das mudanças climáticas’. Tomohiko é especialista em Direito Ambiental e com vasta trajetória acadêmica. Sua palestra, ocorrida no dia 11, segunda-feira, faz parte de um programa promovido pelo Ministério das Relações Exteriores do Japão. Na entrevista, a seguir, ao Jornal do Commercio, o professor abordou outros assuntos sobre o meio-ambiente.
Jornal do Commercio: Adiante um pouco sobre sua palestra, em Manaus, ‘A participação dos povos indígenas na mitigação das mudanças climáticas’.
Tomohiko Kobayashi: Na minha palestra, enfatizo a necessidade urgente de ações climáticas e destaco o papel vital dos povos indígenas, que gerenciam grande parte das terras e da biodiversidade do planeta, na criação de políticas climáticas eficazes, justas e sustentáveis. Utilizando exemplos de sucessos e fracassos de acordos internacionais, defendo uma cooperação multilateral mais forte, incluindo parcerias mais próximas entre Brasil e Japão, para garantir que as perspectivas indígenas estejam incluídas nas decisões globais. Faço um apelo para que a COP30, no Brasil, seja um momento histórico em que as vozes indígenas estejam no centro da mitigação climática, reconhecendo as mudanças climáticas como um desafio tanto ambiental quanto de direitos humanos.
JC: De que forma acontece essa mitigação?
TK: A mitigação pode ocorrer de várias formas, dependendo do ambiente e das circunstâncias específicas. O que quero destacar é que: (1) os povos indígenas já possuem um conhecimento profundo que pode contribuir para a mitigação, e (2) garantir sua participação é essencial.
JC: Como o Japão vê a Amazônia? Uma área que precisa ser preservada, ou um espaço onde se faz necessária a exploração de forma sustentável?
TK: Do ponto de vista do Japão, a Amazônia é tanto um tesouro que deve ser preservado quanto um local onde o uso responsável e sustentável dos recursos pode beneficiar as comunidades locais e o mundo. Tendo visitado pessoalmente a região, reconheço seu papel crucial na manutenção da biodiversidade global e da estabilidade climática, e acredito que qualquer desenvolvimento deve ser cuidadosamente equilibrado com uma forte proteção ambiental. Dito isso, as decisões sobre como alcançar esse equilíbrio devem ser tomadas democraticamente pelo povo brasileiro, e o Japão respeita e apoia plenamente sua liderança nesse assunto.
JC: Acredita que o planeta está no limite de sua sobrevivência com relação ao meio-ambiente?
TK: Acredito que estamos nos aproximando de um ponto crítico, no qual as pressões ambientais estão testando a capacidade do planeta de sustentar a vida como a conhecemos. No entanto, com ações determinadas, inovação tecnológica e cooperação entre as nações, ainda é possível reverter as tendências negativas e construir um futuro mais sustentável. A COP30 seria o fórum ideal para discutir essas questões.
JC: Por que o mundo se preocupa tanto com a Amazônia e deixa de lado os grandes países poluidores?
TK: A Amazônia atrai atenção global porque desempenha um papel único na regulação do clima da Terra, no armazenamento de carbono e na manutenção de uma biodiversidade que beneficia todo o planeta. Ao mesmo tempo, é essencial que o mundo também enfrente as emissões e os impactos ambientais dos grandes países poluidores — combater as mudanças climáticas exige ações em todas as frentes, não apenas em uma região. Espera-se que o Acordo de Paris e outros acordos multilaterais tenham um papel cada vez mais relevante nesse processo.
JC: O Japão possui problemas ambientais? Em Manaus vemos seu país como um lugar onde tudo funciona com perfeição.
TK: O Japão enfrenta, sim, desafios ambientais, como a gestão de resíduos, perda de biodiversidade e os impactos de eventos climáticos extremos. Embora o país seja frequentemente reconhecido por sua eficiência e infraestrutura, nenhum país está livre de questões ambientais, e o Japão continua trabalhando para melhorar suas políticas e tecnologias para enfrentá-las.
JC: Eventos como a COP30 reúnem tantos especialistas, mas a impressão é que vão aos países apenas fazer turismo e nada resolvem. Concorda com essa opinião?
TK: Conferências grandes como a COP30 às vezes podem passar a impressão de serem mais voltadas para aparências do que para resultados, mas continuam sendo espaços importantes para negociações, troca de conhecimentos e construção de consensos. O desafio é garantir que esses encontros levem a ações concretas e mensuráveis, e isso exige o compromisso de governos, especialistas e da sociedade civil.







