Jornal do Commercio – Como o senhor analisa o impacto dos aumentos mensais da taxa Selic para a economia da capital?
Raimundo Souto – A retomada de aumentos mensais da Selic é medida equivocada para atenuar a majoração dos preços agrícolas. Afinal, como sabe qualquer estudante de Economia, juros altos são eficazes apenas para conter a inflação de demanda, mas jamais a inflação de custos. Como é esta última a que se manifesta no Brasil com reflexos na capital amazonense, corremos o risco de diminuir o nível de expansão do PIB (Produto Interno Bruto) sem conseguir domá-la de fato, unindo o inútil ao desagradável.
JC – Por que a cesta básica em Manaus é uma das mais caras do país?
Raimundo Souto – A capital amazonense está entre as mais distantes dos centros fornecedores do país, por isso o transporte e a logística estão entre os principais gargalos que encarecem o comércio. Além disso, dependemos do restante do país para fornecer toda sorte de produtos, desde a farinha de mandioca até as hortaliças. Como os preços vêm subindo nas regiões produtoras, claro que vamos sentir muito mais os reflexos dessas altas.
JC – Então como o senhor analisa esses aumentos numa região basicamente consumidora?
Raimundo Souto – Para tornar a questão mais clara, é importante analisar os índices inflacionários. Tomemos como base o ICV-Dieese, onde a maior alta se deu na alimentação, com 14,17%. Em Manaus, essa inflação acumulada refletida na alta da cesta básica atingiu duramente aqueles que só podem consumir o mínimo necessário, como as classes C e D, que infelizmente deverão optar entre quantidade ou qualidade dos alimentos na mesa.
JC – Como se divide a cesta básica na capital e quantos itens fazem parte dela?
Raimundo Souto – A cesta básica de Manaus tem elementos regionais muito diferentes de várias regiões do país. Ela é dividida nas categorias hortaliças, frutas, grãos/cereais, carnes/derivados, pescado e estivas, onde se encontram 62 itens ao total.
JC – Quais itens o senhor observou maior oscilação positiva nos preços no acumulado do ano?
Raimundo Souto – Os produtos in natura e semi-elaborados (média de 20,07%) foram, no geral, os que mais sofreram reajustes no ano. Itens como feijão jalo (105,14%), farinha uarini (98,32%), frango congelado (43,58%), tomate (36,83%), arroz tipo 1 (34,30%), mamão (31,57%), carne bovina – chã de dentro (25,44%) e leite (23,18%) puxam a lista dos mais impactados tanto nos supermercados quanto nas feiras da capital.
JC – Mas esse aumento de preços não é um reflexo do aumento da demanda em nível mundial?
Raimundo Souto – Por mais que, na política mundial, atribua-se a majoração do alimento a um fenômeno de demanda (o grande aumento do consumo na China e Índia) e à produção de etanol de milho nos Estados Unidos, não se trata do caso brasileiro. Aqui, as causas são outras. Além de um fator conjuntural ligado aos preços em ascensão de insumos, como os fertilizantes, energia e combustíveis, existem ainda questões estruturais que sempre oneraram a nossa produção. Ou seja, estamos falando de custos que geram distorções de mercado.
JC – E quais as causas para essas distorções de preço em Manaus?
Raimundo Souto – Primeiro, o mercado local pede que os produtores forneçam mais produtos a um preço mais baixo, com uma qualidade mais alta, maior variedade, e de uma forma mais segura do que em qualquer outra época. Segundo, a cidade exige que eles produzam essa abundância, utilizando um parque de recursos naturais cada vez menor, e que, além disso, está sujeito a regulamentos ambientais.
JC – Sob a análise desses dois aspectos, o que implica para o consumidor final essas distorções?
Raimundo Souto – Como a cidade é muito mais consumidora que pólo gerador de alimentos, os preços mais baixos se concentram muito mais nas áreas da cidade onde a maior parte da produção regional tem acesso, como as zonas leste (Feira do Produtor) e sul (Feira Manaus Moderna), por exemplo. Com isso, o consumidor final desloca seus gastos para essas zonas para não pagar mais caro pela cesta básica, o que acaba desenvolvendo pouco o comércio da área onde mora em detrimento da sua própria.
JC – E não há como corrigir essas distorções de preço nas zonas geográficas da cidade?
Raimundo Souto – Infelizmente, não. Quem dita as regras em áreas como a zona oeste, por exemplo, onde se adquire a maioria dos itens da cesta básica com preços médios 23,01% acima do valor geral praticado em outros bairros de Manaus, é a presença consolidada ou não de concorrentes do setor. Por outro lado, os varejistas das zonas sul e leste se vêem obrigados a negociar a cesta básica a preços mais populares se não quiserem perder clientes para a concorrência.
JC – Como fazer para a capital diminuir o impacto da inflação nos alimentos?
Raimundo Souto – A verdade é que o governo federal deveria ter política eficaz para incentivar a produção de alimentos no Amazonas. Não basta fomentar o biodiesel, com discutível subsídio. O Amazonas, que tem terras suficientes para produzir energia de fontes renováveis e alimentos, precisa conciliar as duas vertentes, se quiser diminuir esse impacto inflacionário. Outra saída seria a organização das cooperativas e associações de produtores para que pudessem negociar coletivamente seus produtos com as grandes redes varejistas.
JC – A produção de alimentos no interior não é suficiente para achatar os preços da cesta básica?
Raimundo Souto – A produção do primeiro setor no Amazonas é muito pequena. Com raras exceções, o interior produz quase nada, por isso ficamos à mercê do comércio com outras regiões. Isso nos torna alvos fáceis durante as oscilações de abastecimento de gêneros alimentícios no mercado interno, realçando um alto custo de vida e pondo à prova a renda per capita da população local. Enquanto isso, a cidade vem aumentando ano a ano sua demanda por alimentos, cujos preços estão entre os mais altos do país.







