O prefeito de Manaus, Renato Junior, coloca a preparação da cidade para o futuro no centro de sua gestão. Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, ele aborda temas que vão da revitalização do Centro Histórico à expansão do Distrito Industrial, passando por mudanças climáticas, tecnologia, população em situação de rua, grandes eventos, turismo religioso e atração de investimentos.
Ao longo da entrevista, Renato Junior detalha projetos que procuram responder a desafios distintos de uma metrópole amazônica em expansão. Cita a meta de plantar mais de 150 mil mudas entre 2027 e 2029, a digitalização de serviços municipais e a revitalização do Centro, além de defender uma participação mais ativa da Prefeitura na criação de um ambiente favorável a novos negócios. Para o prefeito, infraestrutura, inovação e geração de emprego precisam avançar de forma articulada para preparar Manaus para os próximos anos.
O prefeito defende que Manaus precisa criar condições para manter as indústrias instaladas e disputar novos empreendimentos. “A Zona Franca é fundamental para a nossa economia, porque gera empregos e põe comida na mesa do povo”, afirma. Ele também aponta infraestrutura, redução da burocracia e segurança jurídica como fatores decisivos para o desenvolvimento da capital. A seguir, você acompanha a íntegra da entrevista com o prefeito.
ENTREVISTA: Renato Júnior – Prefeito de Manaus
Jornal do Commercio – O incêndio do antigo prédio do Basa, projetado por Severiano Mário Porto, reacendeu a discussão sobre a perda do patrimônio arquitetônico de Manaus. O imóvel estava entre os prédios que seriam revitalizados pelo programa Nosso Centro. Que política permanente a Prefeitura pretende adotar para imóveis históricos no Centro de Manaus e o papel do município quando o imóvel está sob responsabilidade de um proprietário privado?
Renato Junior – Lamento profundamente o incêndio ocorrido no antigo prédio do Banco da Amazônia (Basa). Aguardo a conclusão das apurações sobre as causas do sinistro. O imóvel chegou a ser objeto de tratativas, estudos e projetos relacionados a uma possível utilização no âmbito do programa Nosso Centro. No entanto, não houve formalização de cessão ao Município de Manaus, ao Implurb ou à Manauscult. Portanto, conforme os registros administrativos do instituto, o prédio permanece sob a propriedade e a responsabilidade do Banco da Amazônia, uma vez que não houve transferência formal da posse, da administração ou dos deveres de manutenção e conservação da edificação para a prefeitura. Reafirmo, portanto, meu compromisso com a preservação e a requalificação do Centro Histórico de Manaus por meio de programas que reúnam iniciativas voltadas à recuperação e à valorização da área central. A proteção do patrimônio histórico exige, porém, uma atuação integrada entre proprietários e órgãos das diferentes esferas de governo, respeitando as atribuições legais de cada instituição. Diante do ocorrido, coloquei o Implurb à disposição do Iphan, dos órgãos estaduais de proteção ao patrimônio, do Banco da Amazônia e das demais instituições competentes para colaborar tecnicamente nas medidas necessárias à preservação do patrimônio histórico de Manaus, dentro das atribuições legais do Município.
Jornal do Commercio – A Prefeitura vem anunciando projetos de revitalização, habitação, cultura e atividade econômica para o Centro de Manaus. Qual é a estratégia para fazer famílias voltarem a morar na região e transformar o Centro em um bairro vivo também à noite e nos fins de semana?
Renato Junior – O Centro Histórico exige um cuidado diferente porque é uma área tombada pelo Iphan e também de relevância arqueológica. Qualquer intervenção no subsolo ou em imóveis protegidos precisa seguir critérios e autorizações específicas. Um exemplo concreto já está acontecendo na rua Ferreira Pena. Estamos transformando a rua em um novo espaço de gastronomia, cultura e turismo, com nova pavimentação, iluminação cênica, preservação e inclusão das árvores no cenário arquitetônico e fiação de energia e telecomunicações subterrânea. As escavações já começaram. Será a primeira Rua Gastronômica de Manaus. Também estamos trabalhando na despoluição visual do Centro, retirando fios e cabos que não são mais utilizados – mais de 7 toneladas de fios e cabos obsoletos do Centro foram recolhidos e esse trabalho continua. E não estamos olhando apenas para a Ferreira Pena. Há algumas semanas, reuni com meu secretariado no Casarão Cassina para começar a estruturar um projeto mais amplo para o Centro, pensando em infraestrutura, turismo, ocupação dos espaços, habitação, comércio, imóveis desocupados e estacionamento. Eu tenho um carinho muito especial pelo Centro. Meu coração está ali. Desde a época em que estive à frente da Secretaria de Feiras, passando pela Infraestrutura, depois como vice-prefeito e agora como prefeito, fiz/faço questão de mobilizar trabalho na área. Eu fui feirante na Manaus Moderna, vivi aquele Centro de perto. Conheço a feira, conheço ruas, os problemas e, principalmente, sei da importância histórica, cultural e econômica que tem pra gente. Por isso, esse não é um projeto que vai começar amanhã e terminar depois de amanhã. Estamos construindo por etapas, com planejamento, recursos e as autorizações necessárias. A Ferreira Pena já é um movimento concreto e, nos próximos meses, vamos avançar na estruturação de outras ações. Inclusive, já reformamos a Praça dos Remédios; refizemos a praça de alimentação da Manaus Moderna (vamos ampliar a reforma agora para dentro da feira, nos boxes); recolhemos os fios; construímos uma Casa de Passagem e um Centro Pop para acolher as pessoas em situação de rua; construímos o Mirante Lúcia Almeida, o Píer 355, restauramos o Casarão Thiago de Melo, o Casarão da Inovação Cassina e estamos em obras também no Casarão São Vicente, como parte do projeto do Distrito de Inovação … muito ainda está por vir.
Jornal do Commercio – A crise de fumaça mostrou os desafios de Manaus, como uma grande capital, aos eventos climáticos extremos. A Prefeitura anunciou monitoramento por drones e o plantio de 45 mil mudas neste ano. Mas qual é a meta de arborização de Manaus para os próximos quatro anos? Há um plano para ampliar a cobertura vegetal, criar novos corredores verdes e transformar praças e áreas degradadas em bolsões de vegetação capazes de reduzir o calor urbano?
Renato Junior – Manaus vem ampliando a arborização urbana com resultados expressivos. Em 2025, plantamos mais de 33 mil mudas e, de janeiro a setembro de 2026, ultrapassamos 46 mil. Mantida essa estratégia, a projeção é plantar mais de 150 mil novas mudas entre 2027 e 2029.
Essa expansão está prevista no Plano de Enfrentamento às Mudanças Climáticas, por meio do programa Manaus +Verde, que prioriza áreas com maior calor, recuperação das margens de igarapés, criação de corredores verdes e implantação de novas áreas arborizadas.
Entre as ações realizadas, estão mais de 70 pomares urbanos implantados em 2025 e 2026, o plantio de mais de 6 mil mudas às margens do Igarapé do Mindu e mais de 1,7 mil ações de Educação Ambiental, incentivando a participação da população na conservação dos espaços verdes.
Também estamos implantando florestas urbanas para criar bolsões de vegetação em espaços reduzidos. A estratégia utiliza o plantio adensado, com menor espaçamento entre as mudas, formando núcleos de vegetação que ampliam a cobertura verde e contribuem para amenizar o calor urbano.
Nosso objetivo é ampliar a cobertura vegetal, reduzir os efeitos das ilhas de calor e tornar Manaus uma cidade mais verde, resiliente e preparada para enfrentar as mudanças climáticas.
Jornal do Commercio – Manaus já possui uma estrutura como o Centro de Cooperação da Cidade e vem ampliando o uso de dados, geoprocessamento, inteligência artificial e integração entre órgãos. Qual é o próximo salto da chamada cidade inteligente: o que o cidadão poderá resolver pelo celular daqui a dois ou três anos que hoje ainda exige deslocamento, papel ou atendimento presencial?
Renato Junior – Manaus já construiu uma base tecnológica importante, com o Centro de Cooperação da Cidade, geoprocessamento e integração entre órgãos municipais. O próximo passo é avançar na construção de uma cidade inteligente, utilizando a tecnologia e a inovação para melhorar os serviços públicos e a qualidade de vida da população.
Nos próximos dois ou três anos, queremos ampliar os serviços digitais para que o cidadão possa solicitar alvarás e licenças de baixo risco, registrar problemas urbanos com fotos e localização e acompanhar suas solicitações diretamente pelo celular.
Na área tributária, a proposta é integrar serviços em uma carteira digital municipal, permitindo consultar tributos e vencimentos, realizar parcelamentos, regularizar cadastros e efetuar pagamentos com segurança e praticidade.
Também queremos avançar nas áreas de Saúde e Educação, facilitando agendamentos, acesso a informações e acompanhamento da vida escolar. Tudo isso com proteção de dados e atenção às pessoas que enfrentam dificuldades de acesso à internet.

Uma cidade inteligente não é apenas aquela que utiliza tecnologias avançadas, mas aquela que transforma a inovação em benefícios concretos para as pessoas. Nosso objetivo é reduzir filas, deslocamentos e burocracia, tornando Manaus mais conectada, moderna e eficiente, com serviços públicos cada vez mais acessíveis à população.
Jornal do Commercio – O #SouManaus 2026 movimentou a economia local, gerou postos de trabalho diretos e indiretos e reuniu mais de 560 mil participantes nos quatro primeiros dias de programação. A Prefeitura pretende transformar esse cálculo de impacto econômico em uma metodologia permanente para medir o retorno de grandes eventos?
Renato Junior – Eu sempre digo que cultura não é gasto, é investimento. E o #SouManaus mostra isso na prática. A gente investiu R$ 15 milhões em recursos públicos e movimentou R$ 165 milhões na economia. Estamos falando do dinheiro da cultura sendo investido na cultura. É dinheiro que circula, de hotéis, restaurantes, vendedores, trabalhadores da cultura, artistas locais e pequenos empreendedores que têm a oportunidade de ganhar renda. Além disso, foram mais de 18 mil postos de trabalho diretos e indiretos. Então, quando a gente fala de um festival como esse, não está falando só de shows. Está falando de geração de emprego, renda, turismo, valorização dos nossos artistas e da nossa identidade cultural. É claro que precisamos avaliar os resultados e entender onde o dinheiro público está sendo aplicado. A gente tem que olhar para o impacto econômico, mas também para o acesso da população à cultura e para as oportunidades que são geradas para quem vive aqui. O retorno não é só financeiro. É também social e cultural, de acesso democrático. Manaus tem talento, tem artistas, tem uma cultura muito rica… O nosso papel é criar oportunidades para que tudo isso seja valorizado e gere desenvolvimento para a cidade. Quando a gente investe em cultura, também está investindo nas pessoas e na economia de Manaus.
Jornal do Commercio – Manaus tem grandes manifestações religiosas e uma população que participa fortemente de eventos de fé. Belém conseguiu transformar o Círio em um dos principais ativos turísticos e culturais da cidade. A Prefeitura considera possível construir, em conjunto com as diferentes igrejas e instituições religiosas, um calendário de eventos capaz de atrair visitantes e gerar uma economia semelhante, guardadas as proporções, à que o Círio produz em Belém?
Renato Junior – A Prefeitura de Manaus tem fortalecido e valorizado as manifestações religiosas da nossa população. Realizamos o 1º Réveillon Gospel, levamos shows gospel para a programação do aniversário de Manaus e garantimos um dia dedicado ao público cristão no Sou Manaus Passo a Paço. Também apoiamos eventos tradicionais na cidade, como a Marcha para Jesus, o espetáculo Sonho de Natal e a Festa de Pentecostes. São iniciativas que demonstram nosso compromisso com a valorização da fé e com o reconhecimento da importância dessas manifestações para a população.
Belém tem no Círio de Nazaré um grande exemplo de como a fé pode impulsionar o turismo e a economia. Manaus também tem esse potencial, respeitando nossas tradições e a diversidade religiosa. Vamos continuar dialogando com as igrejas e instituições para fortalecer esse calendário, atrair visitantes e movimentar setores como hotelaria, comércio, transporte e serviços. Valorizar essas manifestações é também reconhecer sua importância para a cultura, a identidade e o desenvolvimento de Manaus.
Jornal do Commercio – A Prefeitura passou a discutir a expansão do Distrito Industrial e anunciou a criação de uma Secretaria de Desburocratização Industrial. Manaus terá espaço físico, infraestrutura e serviços urbanos suficientes para receber uma nova geração de indústrias nos próximos anos? E qual será a participação da Prefeitura na disputa por novos investimentos para a ZFM, especialmente diante das mudanças provocadas pela Reforma Tributária?
Renato Junior – A gente precisa olhar para o Distrito Industrial pensando no futuro de Manaus. A Zona Franca é fundamental para a nossa economia, porque gera empregos e põe comida na mesa do povo. Por isso, precisamos criar condições para que as indústrias que já estão aqui continuem crescendo e para que novos investimentos venham para Manaus. Quando falei sobre a expansão do Distrito Industrial e a criação de uma Secretaria de Desburocratização Industrial, a ideia foi justamente avançar nesse sentido. A prefeitura tem um papel importante naquilo que é da sua competência: melhorar a infraestrutura urbana, facilitar os processos, reduzir a burocracia e manter um diálogo permanente com o setor produtivo. E isso já estamos fazendo. A gente sabe que a Reforma Tributária traz mudanças e que é importante dar segurança para quem quer investir. A defesa da Zona Franca de Manaus precisa ser uma agenda conjunta, envolvendo prefeitura, Governo do Estado, bancada federal, Suframa e setor empresarial. Não é uma tarefa que o município consiga resolver sozinho, mas podemos fazer a nossa parte para que Manaus esteja preparada para receber novos empreendimentos. O objetivo é que a capital tenha condições de atrair investimentos, diversificar sua economia e, principalmente, gerar mais emprego e renda para a nossa população.
Jornal do Commercio – A Prefeitura vem buscando recursos externos e estruturando operações para financiar obras estruturantes e investimentos para Manaus. Como o senhor pretende garantir que a operação de crédito contratada hoje resulte em obras que gerem retorno social e econômico no futuro?
Renato Junior – Investir é essencial para Manaus continuar avançando, e as operações de crédito são um instrumento legítimo e responsável para acelerar obras que a cidade precisa e que não poderiam esperar apenas pelos recursos próprios.
Mas fazemos isso com muito cuidado. Toda operação respeita os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal e das normas do Senado, passa pela análise do Tesouro Nacional e pela autorização da Câmara Municipal. Só contratamos quando temos segurança de que a Prefeitura vai honrar seus compromissos sem prejudicar os serviços públicos nem a capacidade de investir no futuro.
E cada recurso tem destino certo, admitindo todos os requisitos obrigatórios que devem constar em tais projetos, entre eles o alcance social, econômico e ambiental. Dessa forma, priorizamos obras estruturantes, que melhoram a vida das pessoas, geram emprego e movimentam a economia, com acompanhamento e transparência em cada etapa.
Uma dívida assumida de forma responsável hoje é investimento na Manaus de amanhã, uma cidade com mais infraestrutura, mais oportunidades e prestação de contas em ordem.
Jornal do Commercio – A Prefeitura informa que reduziu o tempo médio de abertura de empresas para 11 horas e anunciou uma estrutura específica para desburocratizar a instalação de indústrias. Qual é o próximo passo que a Prefeitura pretende propor e apresentar para quem quer investir em Manaus? E que meta de novos negócios, empregos e investimentos privados o senhor gostaria de entregar até o final do mandato?
Renato Junior – Nosso próximo desafio é construir um ambiente de negócios mais competitivo, com segurança jurídica, infraestrutura, mobilidade e conectividade, garantindo condições para que as empresas se instalem, cresçam e gerem empregos em Manaus.
Estamos modernizando o planejamento urbano para avaliar a ampliação de áreas destinadas à atividade industrial, especialmente nas proximidades do Distrito Industrial, além de estimular oportunidades econômicas em regiões como a zona Leste, respeitando as normas ambientais.
Também buscamos avançar na mobilidade urbana, com soluções integradas de transporte, corredores exclusivos de ônibus e tecnologias como semáforos inteligentes. Na conectividade, queremos estimular a expansão da fibra óptica e ampliar o acesso à internet em espaços públicos.
Paralelamente, trabalhamos para fortalecer o Polo Digital de Manaus, incentivar startups e avançar na implantação do Distrito de Inovação da Ilha São Vicente.
Nosso objetivo é atrair investimentos, impulsionar a inovação e criar oportunidades que se traduzam em mais emprego, renda e qualidade de vida para os manauaras.
Jornal do Commercio – Com relação às pessoas em situação de rua, como a Prefeitura pretende conciliar assistência social, segurança, recuperação dos espaços públicos e direito de convivência da população, sem transformar a questão em um problema de retirada dessas pessoas das áreas de maior circulação?
Renato Junior – O enfrentamento dessa realidade exige uma atuação integrada dos órgãos e serviços da Prefeitura de Manaus, envolvendo as áreas de Assistência Social, Saúde, Segurança Pública, Limpeza Urbana, Zeladoria e demais políticas públicas.
O Serviço Especializado em Abordagem Social, da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semasc), desempenha papel fundamental na identificação e no atendimento às pessoas em situação de rua, por meio da escuta qualificada, construção de vínculos, identificação de necessidades e encaminhamento à rede de proteção social. Esse trabalho contribui para ampliar o acesso aos serviços públicos e orientar o planejamento de ações nos territórios.
Enquanto as equipes do Serviço Especializado em Abordagem Social seguem atuando nas ruas, os equipamentos da rede socioassistencial, como o Centro POP, a Casa de Passagem Padre Orlando Barbosa, no Centro da cidade, e o Serviço de Acolhimento Institucional Amine Daou, no bairro de Petrópolis, zona Sul, permanecem em funcionamento, assegurando atendimento, proteção social e garantia de direitos à população em situação de vulnerabilidade.
A recuperação e a conservação das praças e áreas centrais são realizadas de forma articulada entre os órgãos municipais, conciliando o ordenamento dos espaços públicos com a assistência social e a garantia de direitos. Nesse processo, a abordagem social prioriza o acolhimento, o respeito à autonomia e à dignidade de cada pessoa, não se limitando à retirada de indivíduos dos locais de maior circulação.
Nossa atuação é integrada, permanente e humanizada, promovendo espaços públicos seguros, organizados e acessíveis, assegurando tanto os direitos das pessoas em situação de rua quanto o direito de toda a população à convivência e à utilização desses espaços.














