Um documento supostamente produzido por um grupo de países ricos, teve impacto negativo nas negociações para garantir a assinatura de acordo para combater o aquecimento global. Esta é a segunda vez que um esboço de acordo atribuído principalmente à Dinamarca aparece em meio às negociações, desde o início da COP-15 (15ª Conferência da ONU para Mudanças Climáticas), em 7 de dezembro.
O documento foi vazado para negociadores africanos na manhã de segunda-feira, 14, e se transformou no principal motivo para os africanos deixarem temporariamente a mesa de negociações.
Em entrevista coletiva, a chefe da delegação brasileira, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, admitiu rumores de que uma proposta apresentada pela Dinamarca extraoficialmente teria dificultado as negociações. Ela negou, contudo, que a delegação brasileira teve acesso ao documento. “Não acredito que haja ma fé. Devemos lembrar que a conferência necessita de consenso. Não pode haver imposição”, asseverou.
Segundo representante do G-77, grupo de países pobres e em desenvolvimento, do qual o Brasil faz parte, o rascunho, que sequer chegou a entrar na negociação oficial, tinha como premissa a adoção de “compromissos legais” de redução das emissões para os países em desenvolvimento, tais como os exigidos dos países ricos, conforme estabelece o Protocolo de Kyoto, assinado em 1997.
Oficialmente, os países ricos negam a existência de qualquer documento paralelo que seria apresentado nas negociações envolvendo os chefes de Estado.
Formato de negociação
O objetivo da conferência é reduzir as emissões globais de gases que provocam o efeito estufa em, pelo menos, 25% até 2020, considerando 1990 como ano base.
Os países da África já voltaram a negociar, mas o principal tema das conversas entre as delegações ontem não era mais a criação do fundo de longo prazo para frear as emissões de gases de efeito estufa no mundo pobre e em desenvolvimento ou a adoção de metas mais ousadas pelos países ricos para reduzir as próprias emissões.
As tratativas estão focadas agora no formato de negociação para garantir transparência na última e decisiva etapa da COP-15, que começa hoje, com a chegada de 110 chefes de Estado a Copenhague.
Dilma afirmou que a única proposta que será aceita como documento de negociação é a que seria elaborada até hoje pelos grupos de trabalhos que discutem o Protocolo de Kyoto e um novo acordo que incluiria metas para reduzir emissões pelos EUA.
A preocupação com a transparência é manifestada repetidamente pela presidente da conferência, a ministra do clima da Dinamarca, Connie Hedegaard.
A desconfiança é um dos principais entraves para o avanço das negociações, admitiu o embaixador Sérgio Serra, um dos negociadores brasileiros na COP-15. Ele considera que as tratativas já deveriam estar menos nebulosas. O encerramento da conferência está previsto para a sexta-feira, 18.
Estudo que atribui à pecuária 50% das emissões de CO2 do Brasil é contestado por pesquisador
O professor do Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo) e membro do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), Paulo Artaxo, discorda de que a pecuária seja responsável por aproximadamente 50% das emissões de gases de efeito estufa brasileiras.
Na última semana, estudo realizado por membros da UnB (Universidade de Brasília), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e da ONG (organização não governamental) Amigos da Terra – Amazônia Brasileira mostrou que a pecuária emite em torno de 1.000 milhões de toneladas (Mton) de gases de efeito estufa por ano, ante uma produção total no país de 2.000 a 2.200 Mton anuais.
Para o pesquisador, o estudo apresentado incluiu erroneamente na conta da pecuária as emissões advindas das queimadas para abertura de pastos. “A pecuária, em si, contribui diretamente com cerca de 17% das emissões de gases de efeito estufa, de acordo com cálculos feitos pelo Cena [Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP] de Piracicaba [SP]. Na verdade, não é correto incluir desmatamento da Amazônia no setor da pecuária, embora a gente saiba que essa atividade é um dos grandes vetores do desmatamento”, explicou o professor da USP.
Desmatamento e queimadas
A pesquisa indicou três fontes principais de emissões de gases de efeito estufa pela pecuária: o desmatamento para formação de pastagens e queimadas da vegetação derrubada, as queimadas de pastagens e a fermentação entérica do gado (gases produzidos durante a digestão dos alimentos). O estudo destacou que a maior contribuição da pecuária às emissões se deve ao desmatamento para formação de novas pastagens na região Amazônica.







