Nova investida dos ricos emperra negociações

Em: 16 de dezembro de 2009
Um documento supostamente produzido por um grupo de países ricos, teve impacto negativo nas negociações para garantir a assinatura de acordo para combater o aquecimento global
Um documento supostamente produzido por um grupo de países ricos, teve impacto negativo nas negociações para garantir a assinatura de acordo para combater o aquecimento global

Um documento supostamente produzido por um grupo de países ricos, teve impacto negativo nas negociações para garantir a assinatura de acordo para combater o aquecimento global. Esta é a segunda vez que um esboço de acordo atribuído principalmente à Dinamarca aparece em meio às negociações, desde o início da COP-15 (15ª Conferência da ONU para Mudanças Climáticas), em 7 de dezembro.
O documento foi vazado para negociadores africanos na manhã de segunda-feira, 14, e se transformou no principal motivo para os africanos deixarem temporariamente a mesa de negociações.
Em entrevista coletiva, a chefe da delegação brasileira, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, admitiu rumores de que uma proposta apresentada pela Dinamarca extraoficialmente teria dificultado as negociações. Ela negou, contudo, que a delegação brasileira teve acesso ao documento. “Não acredito que haja ma fé. Devemos lembrar que a conferência necessita de consenso. Não pode haver imposição”, asseverou.
Segundo representante do G-77, grupo de países pobres e em desenvolvimento, do qual o Brasil faz parte, o rascunho, que sequer chegou a entrar na negociação oficial, tinha como premissa a adoção de “compromissos legais” de redução das emissões para os países em desenvolvimento, tais como os exigidos dos países ricos, conforme estabelece o Protocolo de Kyoto, assinado em 1997.
Oficialmente, os países ricos negam a existência de qualquer documento paralelo que seria apresentado nas negociações envolvendo os chefes de Estado.

Formato de negociação

O objetivo da conferência é reduzir as emissões globais de gases que provocam o efeito estufa em, pelo menos, 25% até 2020, considerando 1990 como ano base.
Os países da África já voltaram a negociar, mas o principal tema das conversas entre as delegações ontem não era mais a criação do fundo de longo prazo para frear as emissões de gases de efeito estufa no mundo pobre e em desenvolvimento ou a adoção de metas mais ousadas pelos países ricos para reduzir as próprias emissões.
As tratativas estão focadas agora no formato de negociação para garantir transparência na última e decisiva etapa da COP-15, que começa hoje, com a chegada de 110 chefes de Estado a Copenhague.
Dilma afirmou que a única proposta que será aceita como documento de negociação é a que seria elaborada até hoje pelos grupos de trabalhos que discutem o Protocolo de Kyoto e um novo acordo que incluiria metas para reduzir emissões pelos EUA.
A preocupação com a transparência é manifestada repetidamente pela presidente da conferência, a ministra do clima da Dinamarca, Connie Hedegaard.
A desconfiança é um dos principais entraves para o avanço das negociações, admitiu o embaixador Sérgio Serra, um dos negociadores brasileiros na COP-15. Ele considera que as tratativas já deveriam estar menos nebulosas. O encerramento da conferência está previsto para a sexta-feira, 18.

Estudo que atribui à pecuária 50% das emissões de CO2 do Brasil é contestado por pesquisador

O professor do Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo) e membro do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), Paulo Artaxo, discorda de que a pecuária seja responsável por aproximadamente 50% das emissões de gases de efeito estufa brasileiras.
Na última semana, estudo realizado por membros da UnB (Universidade de Brasília), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e da ONG (organização não governamental) Amigos da Terra – Amazônia Brasileira mostrou que a pecuária emite em torno de 1.000 milhões de toneladas (Mton) de gases de efeito estufa por ano, ante uma produção total no país de 2.000 a 2.200 Mton anuais.
Para o pesquisador, o estudo apresentado incluiu erroneamente na conta da pecuária as emissões advindas das queimadas para abertura de pastos. “A pecuária, em si, contribui diretamente com cerca de 17% das emissões de gases de efeito estufa, de acordo com cálculos feitos pelo Cena [Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP] de Piracicaba [SP]. Na verdade, não é correto incluir desmatamento da Amazônia no setor da pecuária, embora a gente saiba que essa atividade é um dos grandes vetores do desmatamento”, explicou o professor da USP.

Desmatamento e queimadas

A pesquisa indicou três fontes principais de emissões de gases de efeito estufa pela pecuária: o desmatamento para formação de pastagens e queimadas da vegetação derrubada, as queimadas de pastagens e a fermentação entérica do gado (gases produzidos durante a digestão dos alimentos). O estudo destacou que a maior contribuição da pecuária às emissões se deve ao desmatamento para formação de novas pastagens na região Amazônica.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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