Beneficiar o pescado, gerar empregos, evitar o desperdício e baratear o produto. Esses são alguns dos objetivos que o pesquisador e empreendedor Nilson Carvalho almeja conseguir com seu negócio que gira em torno do desenvolvimento de diversos produtos feitos à base de pescado, como hambúrguer, panqueca, bifes e ‘linguiça’ de peixe.
Doutor em Biologia de Água Doce e Pesca Interior pelo Inpa (Instituto de Pesquisa do Amazonas), Nilson há 25 anos foi um dos fundadores de um grupo de pesquisa de Tecnologia do Pescado, estudando todas as fases da produção do pescado, desde a captura, passando pelo transporte e manipulação, até o consumo.
O grupo gerou resultados, como trabalhos e dissertações de mestrado que buscavam entender as relações com o consumo do peixe no Amazonas, Daí surgiram novos formatos para um dos alimentos mais conhecidos da região, o primeiro foi o fishburger (hambúrguer de peixe), mas ainda em pequena escala e apenas em laboratório. Vários desses projetos esbarravam em dificuldades e muitos ficaram nas gavetas. Partes destes projetos terminaram sem continuidade, pela falta de apoio de agentes públicos e privados ou ainda recursos financeiros próprios que agilizassem a geração da melhoria dos resultados.
O início
Há 15 anos Nilson, com recursos da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas) investiu em uma microempresa, a Delicatessem Pescado do Amazonas, com o objetivo de levar ao mercado o que foi aprendido em Tecnologia de Alimentos.
A pequena empresa produz mais de dez novos formatos para o consumo de peixe, além do fishburger, defumados, piracuí (farinha de peixe) e picadinho, o cardápio conta com mini quibe, bife, nuggets, picles, linguiça e carpaccio (fatias finas de peixe cru servidas em aperitivos) de espécies tradicionais da Amazônia como o jaraqui, aracu, tambaqui e pirarucu.
Nilson conta sobre o começo “comecei tentando vender para restaurantes e peixarias, num pequeno espaço e alguns freezers. Recebia pedidos, mas poucos eram dos meus produtos, pois só procuravam o que já se conhecia: filés e postas de peixe. Precisei parar por um tempo e em 2002 começamos a produzir em maior quantidade com recursos recebidos da Afeam (Agência de Fomento do Estado do Amazonas) e mais uma vez fomos contemplados pelo edital da Fapeam. Começou uma nova era. Em 2006 vencemos outro edital da Fapeam e vieram mais recursos do Pappe (Programa Amazonas de Apoio à Pesquisa em Micro e Pequenas Empresas).”
Os trabalhos foram interrompidos por dois anos, quando o pesquisador aproveitou para participar de cursos ligados a sua área em países como Espanha, Portugal e França, buscando novas tecnologias para o pescado. A empresa participou de várias feiras, fez parte de joint ventures, para se manter sempre em evidência.
“Desde minha primeira participação, há cinco anos, na Feira de Alimentos realizada aos sábados no CIGS, tive o feedback esperado. O público aprovou e vi que podia oferecer outras inovações. Entre as perguntas triviais do público, como, quem faz? De onde veio? Uma sempre incomodou: onde comprar? Precisava aumentar a produção e atender a todos os requisitos de mercado, como um visto da Inspeção Sanitária por exemplo.”
Oportunidade
Em 2012 o MCT&I (Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação) abraçou todas as empresas incubadas pela Fapema e a Delicatessem foi a primeira delas. “alguns colegas na época chegaram a dizer que eu estava vendendo minha pesquisa, mas desde 2006 o MCT&I permite ao pesquisador se afastar do emprego e ir para a livre inciativa, foi o que fiz e voltei à pesquisa. Estou no mercado agora preciso me manter nele.”
A Delicatessem produz hoje cerca de 200 quilos por semana, com um maquinário que separa a carne da pele, escamas e espinhas. “precisaria de mais tempo, mais gente trabalhando comigo e mais espaço. Hoje trabalho com minha esposa e às vezes conto com peixeiros terceirizados com experiência em cortes, mas ainda é muito difícil.”
Outros projetos
O empreendedor dá lugar ao pesquisador quando Nilson fala de outros projetos “penso em trabalhar com a tecnologia de atmosfera modificada (retirar a maior parte do oxigênio residual presente nas embalagens, introduzindo uma mistura de gases de forma a inibir a proliferação de micro-organismos, formação de fungos e retardar a ação enzimática natural em certos produtos) o resultado é um produto que se mantém fresco por um período muito maior, sem necessidade de congelamento, para a comercialização de ovas de peixe, usar o excedente da pesca na merenda escolar, melhorar o piracuí e etc. Analiso a chance de implantar no futuro terminal pesqueiro, uma beneficiadora do excedente, transformar o que iria para o lixo em picadinho, evitando o desperdício. No futuro espero levar essa tecnologia para o interior, que é onde está a matéria prima. É o que espero fazer como amazonense” finaliza Nilson.







