O abandono da praça mais antiga de Manaus

Em: 16 de janeiro de 2020
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Interessante como as áreas prósperas de uma cidade mudam de lugar. Uma época estão numa determinada região e, um dia, sem que percebamos, mudam para outro espaço. Um exemplo é a praça 9 de Novembro, tendo como prova os belos e majestosos prédios no seu entorno, a maioria abandonados. Pois é. Ninguém sabe que praça é esta, bem no centro antigo de Manaus e onde foi construída a primeira igreja do incipiente vilarejo, em 1695, em honra de N. Sra. da Conceição, a Matriz Velha, aquela mesma que pegou fogo, em 1850, e foi totalmente consumida. A igreja possuía um cemitério próprio e até hoje os primeiros enterrados devem permanecer lá, no mesmo lugar.

“Era uma igrejinha de taipa, construída apenas para marcar a presença da Igreja Católica no Lugar da Barra. Do incêndio salvou-se uma imagem de Cristo crucificado, até hoje, acredito, existente no Museu da Matriz, ou catedral de N. Sra. da Conceição”, lembrou o historiador Antonio Loureiro.

Até os primeiros anos do século passado as praças de Manaus não passavam de amplos terrenos, sem nenhuma estrutura de uma praça dos dias atuais. Com a 9 de Novembro não foi diferente. Sua localização era estratégica e privilegiada, junto ao barranco, na beira do rio, ponto de referência para a cidade que surgiria a partir dali.

Ganhou este nome numa homenagem à data, em 1823, na qual a população da então capitania de São José do Rio Negro, hoje Manaus, reconheceu a Independência do Brasil, ocorrida apenas um ano e dois meses antes.

Empolgados com o ato de D. Pedro I, a população da capitania que ansiava vê-la transformada em província, jurou fidelidade ao imperador no dia 22; elegeu uma Junta no dia 23; a Junta tomou posse no dia 24 e, pouco mais de dois anos depois, no dia 3 de dezembro de 1825 a Junta foi dissolvida, seguindo ordens da corte de que a capitania deveria encerrar suas pretensões de se tornar província, sendo absorvida pela província do Grão-Pará. O ideal de independência geopolítica do Amazonas só se efetivaria 25 anos depois.

Onde fica a praça

Para quem ainda não identificou onde fica a praça 9 de Novembro, ela está situada num quadrilátero formado pelas ruas Visconde de Mauá, Governador Vitório, Tamandaré e Boulevard Rio Negro.

“No canto direito da rua Visconde de Mauá com a rua Governador Vitório ficava o Palácio dos Governadores da capitania, local hoje ocupado por um prédio da administração do Porto de Manaus, em cujo quintal localizava-se a horta criada por Lobo D’Almada”, lembrou Loureiro em seu livro ‘Um passeio pelas praças de Manaus’.

Mais abaixo está situado o prédio de tijolos aparentes, originalmente da usina elétrica de reserva da Manáos Harbour.

“Oficialmente até hoje no prédio está o Museu do Porto, porém, em completo abandono. Em seu acervo, que não sei dizer como está, existiam numerosos objetos e documentos históricos importantes. Na sua frente tinha uma locomotiva usada para aterrar a orla fluvial de Manaus”, lamentou.

Ao fundo do Boulevard Rio Negro ergue-se o vitoriano prédio da Manáos Harbour, “uma verdadeira fortaleza, com soteiras para a necessária resistência caso fosse atacado pelos nativos amazonenses”, ironizou o historiador.

No local também existiu o prédio da firma Singlehurst, Brocklehurst Co., depois ocupado pela Higson & Cia. Ltda. Quando este prédio foi demolido, urnas funerárias indígenas começaram a ser encontradas no terreno.

“Em algum tempo, na era colonial, no prédio estava localizado o Trem de Guerra”, completou.

O choro dos pagãos

Mas é na Visconde de Mauá, antes beco ou Travessa dos Inocentes, onde aconteciam os enterros de crianças não batizadas.

“Houve um tempo, no Brasil, quando o catolicismo era a religião oficial do Império, os enterramentos dos mortos eram feitos no interior das igrejas”, escreveu Loureiro em seu outro livro ‘Histórias esquecidas’.

“A exceção eram as crianças pagãs, que não recebiam a proteção dos templos, sendo enterradas em pequeninas covas, nos terrenos situados atrás deles”, completou.

Por isso a rua Visconde de Mauá, que já foi denominada rua Demétrio Ribeiro, e passava pelos fundos da Matriz Velha recebeu o nome de Travessa dos Inocentes, na época colonial, pois correspondia à área onde os pequenos pagãos eram enterrados.

E Antonio Loureiro, aproveitando para enriquecer ainda mais a aura de mistério da praça abandonada e esquecida, completa com outras histórias esquecidas.

“Dizem que quem por ali anda às horas mortas, nas noites de chuvas e ventos, sem luar, ouve o choramingar dos pequeninos, pedindo um abrigo na velha igreja”, contou.

No terreno em volta também foram enterrados índios, em urnas funerárias, algumas desenterradas e em exposição no museu do Igha (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas).

Histórias fantasiosas à parte, o certo é que a 9 de Novembro, a praça mais antiga de Manaus, é apenas um exemplo do descaso do poder público e da população com a história da cidade. Que o diga a praça da Saudade. Mas esta é uma outra história.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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