Dispor-se a compreender a vida religiosa e o comportamento característico da catolicidade do caboclo amazônico e seus recursos mágicos em busca de sua satisfação objetiva é ter que se revestir de uma objetividade capaz de efetivamente criar todas as condições para se ingressar, de forma eficaz, nesse mundo particular.
São idéias, impressões e concepções, como a de Charles Wagley (em “Uma comunidade amazônica: estudo do homem nos trópicos”), Arthur Cezar Ferreira Reis (na obra “O seringal e o seringueiro”) e Eduardo Galvão (em “Santos e visagens: um estudo da vida religiosa de Ita”), que podemos constatar conteúdos reveladores e sugestivos dessa temática fascinante e encantadora.
Esforçou-se em resgatar, revelar e publicar as contribuições, as sugestões desses pensadores e suas reflexões e tornar inteligível a essencialidade do conteúdo religioso dos habitantes da Amazônia.
Quando Eduardo Galvão elege a religiosidade do caboclo amazônico, dentre os aspectos distintivos da cultura do habitante rural da Amazônia, justifica esta escolha “não apenas pelo que ela possa conter de local, de peculiar à Amazônia, porém pela função que representa na estrutura dessa sociedade rural” (p. 3).
Mesmo expressando um comportamento católico, o caboclo nunca se sentiu impedido de transitar pelo universo impregnado de idéias e crenças oriundas da sua ancestralidade ameríndia. Houve uma mestiçagem de crenças. Os caboclos viviam a sua catolicidade da forma que entendiam e interpretavam, uma vez que não dispunham de sacerdotes em abundância, deixaram-se todos dominar por certas abusões e crendices. A visita do clero ao vale amazônico era esporádica e dava-se durante as festas dos santos. Era somente nestas ocasiões que os sacramentos oficiais estabelecidos podiam ser ministrados.
É necessário considerar que apesar dos conceitos religiosos indígenas terem uma importância na configuração da religiosidade do caboclo, “a nova cultura regional que emergiu na Amazônia foi predominantemente orientada por idéias e por instituições lusas, modificando-se naquilo que exigiam as circunstâncias históricas e as peculiaridades do ambiente geográfico” (Galvão, p. 9). É também interessante salientar que, na Amazônia, o contato entre europeus e indígenas não proporcionou e nem significou assimilação nem adoção por parte do índio dos elementos culturais do Velho Mundo. Apesar disso, a orientação cultural, na Amazônia, foi mantida e permeada pelo padrão europeu.
O sistema religioso vigente na Amazônia teve influência decisiva tanto da estrutura básica do catolicismo ibérico do século 16, como da articulação que se fez com o padrão indígena, transformando em sua fusão e desenvolvimento pelo contexto específico do vale amazônico. Por outras palavras, “a dominação que exerceram colonos e missionários portugueses sobre os aborígenes, deram margem ao desenvolvimento de uma cultura predominantemente ibérica de que o catolicismo era uma das principais instituições, influenciando esse processo as novas condições do ambiente, e em particular, a estrutura sócio-econômica” (Galvão, p. 10).
Não há como não se deparar com dois componentes, o ibérico e o indígena, quando se imprime um estudo do comportamento religioso do caboclo; não há como não perceber o problema do caráter do catolicismo ibérico em confronto com a cosmovisão do aborígene.
As mudanças significativas produzidas com a penetração de agentes econômicos e sociais externos, no passado, no vale amazônico, operam ainda hoje com muito vigor na memória do amazônida, principalmente nas suas instituições religiosas.
Segundo Galvão, nas áreas rurais amazônicas, como em todo o Brasil, “observa-se a tendência para acentuar-se uma forma mais estrita e ortodoxa de catolicismo. (…) Crenças não católicas são degradadas e consideradas como “superstições” das classes economicamente inferiores” (p. 10 e 11) em nome de uma religiosidade oficial hegemônica e mais influente.
A proposta de Wagley
O caboclo da Amazônia e sua religiosidade
Em: 31 de março de 2008
Dispor-se a compreender a vida religiosa e o comportamento característico da catolicidade do caboclo amazônico e seus recursos mágicos em busca de sua …
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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