O caboclo da Amazônia e sua religiosidade

Em: 31 de março de 2008
Dispor-se a compreender a vida religiosa e o comportamento característico da catolicidade do caboclo amazônico e seus recursos mágicos em busca de sua …
Dispor-se a compreender a vida religiosa e o comportamento característico da catolicidade do caboclo amazônico e seus recursos mágicos em busca de sua ...

Dispor-se a compreender a vida religiosa e o comportamento característico da catolicidade do caboclo amazônico e seus recursos mágicos em busca de sua satisfação objetiva é ter que se revestir de uma objetividade capaz de efetivamente criar todas as condições para se ingressar, de forma eficaz, nesse mundo particular.
São idéias, impressões e concepções, como a de Charles Wagley (em “Uma comunidade amazônica: estudo do homem nos trópicos”), Arthur Cezar Ferreira Reis (na obra “O seringal e o seringueiro”) e Eduardo Galvão (em “Santos e visagens: um estudo da vida religiosa de Ita”), que podemos constatar conteúdos reveladores e sugestivos dessa temática fascinante e encantadora.
Esforçou-se em resgatar, revelar e publicar as contribuições, as sugestões desses pensadores e suas reflexões e tornar inteligível a essencialidade do conteúdo religioso dos habitantes da Amazônia.
Quando Eduardo Galvão elege a religiosidade do caboclo amazônico, dentre os aspectos distintivos da cultura do habitante rural da Amazônia, justifica esta escolha “não apenas pelo que ela possa conter de local, de peculiar à Amazônia, porém pela função que representa na estrutura dessa sociedade rural” (p. 3).
Mesmo expressando um comportamento católico, o caboclo nunca se sentiu impedido de transitar pelo universo impregnado de idéias e crenças oriundas da sua ancestralidade ameríndia. Houve uma mestiçagem de crenças. Os caboclos viviam a sua catolicidade da forma que entendiam e interpretavam, uma vez que não dispunham de sacerdotes em abundância, deixaram-se todos dominar por certas abusões e crendices. A visita do clero ao vale amazônico era esporádica e dava-se durante as festas dos santos. Era somente nestas ­ocasiões que os sacramentos oficiais estabelecidos podiam ser ministrados.
É necessário considerar que apesar dos conceitos religiosos indígenas terem uma importância na configuração da religiosidade do caboclo, “a nova cultura regional que emergiu na Amazônia foi predominantemente orientada por idéias e por instituições lusas, modificando-se naquilo que exigiam as circunstâncias históricas e as peculiaridades do ambiente geográfico” (Galvão, p. 9). É também interessante salientar que, na Amazônia, o contato entre europeus e indígenas não proporcionou e nem significou assimilação nem adoção por parte do índio dos elementos culturais do Velho Mundo. Apesar disso, a orientação ­cultural, na Amazônia, foi ­mantida e permeada pelo padrão europeu.
O sistema religioso vigente na Amazônia teve influência decisiva tanto da estrutura básica do catolicismo ibérico do século 16, como da articulação que se fez com o padrão indígena, transformando em sua fusão e desenvolvimento pelo contexto específico do vale amazônico. Por outras palavras, “a dominação que exerceram colonos e missionários portugueses sobre os aborígenes, deram margem ao desenvolvimento de uma cultura predominantemente ibérica de que o catolicismo era uma das principais instituições, influenciando esse processo as novas condições do ambiente, e em particular, a estrutura sócio-econômica” (Galvão, p. 10).
Não há como não se deparar com dois componentes, o ibérico e o indígena, quando se imprime um estudo do comportamento religioso do caboclo; não há como não perceber o problema do caráter do ­catolicismo ibérico em ­confronto com a cosmovisão do aborígene.
As mudanças significativas produzidas com a penetração de agentes econômicos e ­sociais externos, no passado, no vale amazônico, operam ainda hoje com muito vigor na memória do amazônida, ­principalmente nas suas instituições religiosas.
Segundo Galvão, nas áreas rurais amazônicas, como em todo o Brasil, “observa-se a tendência para acentuar-se uma forma mais estrita e ortodoxa de catolicismo. (…) Crenças não católicas são degradadas e consideradas como “su­perstições” das classes economicamente inferiores” (p. 10 e 11) em nome de uma reli­giosidade oficial hegemônica e mais influente.
A proposta de Wagley

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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