O coringa ingá-cipó é da Amazônia

Em: 1 de março de 2022

Pesquisa realizada pela doutora em Química, Margarida Carmo, visa obter gel a partir da casca do ingá-cipó

Evaldo Ferreira: @evaldo.am

Quem na infância nunca comeu ingá, não pode dizer que é amazonense. É na floresta amazônica que se encontra a maior diversidade de espécies desse fruto, entre elas, o ingá-cipó. A massa comestível mais parece um algodão doce envolto na semente. Tirada essa semente, a casca grossa, que lembra um cipó, daí o nome da fruta, não parecia servir para mais nada. Engano. A pesquisa ‘Obtenção de micro e nanocelulose utilizando como matéria-prima a casca do ingá-cipó via tratamento químico e avaliação na preparação de álcool gel’, realizada pela doutora em Química da Ufam, Margarida Carmo de Souza, em parceria com o prof. dr. Luiz Pereira da Costa, docente do ICET (Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia, da Ufam), quer provar que uma substância existente na casca do ingá-cipó pode ser transformada em gel, e substituir o Carbopol, que é importado.

“Com a pandemia do coronavírus, a demanda global por álcool em gel aumentou consideravelmente, o que resultou na falta do principal espessante utilizado em sua fabricação, o Carbopol”, revelou Margarida.

O Carbopol é um polímero acrílico, sendo um agente gelificante, utilizado na preparação de géis transparentes.

“A celulose é o nosso material de interesse, mais especificamente a nanocelulose, por possuir características mais atrativas para aplicações em biomateriais, sendo possível a sua obtenção da casca do ingá-cipó através de processos químicos”, explicou.

O ingá-cipó é uma leguminosa arbórea, nativa da América Tropical, e cultivada pela população local por fornecer fruto comestível. É amplamente distribuída e cultivada na Amazônia e na América Central. A espécie possui muitos nomes vulgares, de acordo com a região onde se encontra: ingá, ingá-cipó, ingá-de-metro, ingá-doce, ingá-de-macaco, ingá-macarrão, rabo-de-mico.

Substituto do Carbopol

“A proposta da pesquisa é utilizar a nanocelulose extraída do ingá-cipó como componente gelificante na produção do álcool gel. Esse material substituirá o Carbopol, componente amplamente utilizado na indústria farmacêutica e cosmética para formação de gel”, disse.

“Na pesquisa estamos coletando material de árvores distribuídas pela cidade de Itacoatiara (área urbana e margem da estrada)”, completou.

Apesar de ser apreciado por dez entre dez pessoas que o provam, no Amazonas não há área de plantação específica de ingá-cipó. O fruto é rico em sais minerais, essenciais para o bom funcionamento do organismo. Em alguns lugares, sua casca é usada na cicatrização de feridas e o xarope do fruto também é utilizado no tratamento da bronquite.

“Na literatura podemos encontrar inúmeras aplicações de celulose em escala micro e nanométrica (nanocelulose). Nesse sentido, esse material que pode ser extraído da casca do ingá-cipó (micro e nanocelulose), pode atuar como espessante, estabilizante, emulsificante, dentre outras aplicações”, afirmou.

A pesquisa da doutora Margarida está em fase de otimização da metodologia de obtenção da micro e nanocelulose. Em seguida, ela e sua equipe de pesquisadores,  realizará a caracterização do material obtido, e somente após essa caracterização, irá avaliar suas propriedades na substituição do Carbopol em formulações de álcool gel.

“O álcool gel será produzido utilizando a mesma metodologia descrita no Formulário Nacional da Farmacopéia Brasileira, apenas substituiremos o componente gelificante pelo material obtido na pesquisa. Somente após a avaliação é que poderemos concluir sobre a viabilidade técnica e econômica desse material em micro ou larga escala”, revelou.

Mulheres na Ciência    

A pesquisa ‘Obtenção de micro e nanocelulose utilizando como matéria-prima a casca do ingá-cipó via tratamento químico e avaliação na preparação de álcool gel’ é financiada pela Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas) através do Programa Mulheres na Ciência, o qual possibilita maior participação de mulheres no desenvolvimento científico regional. O estudo está sendo realizado nos laboratórios do ICET.

“O projeto conta com quatro bolsistas, sendo uma de Iniciação Científica (aluna de graduação de Química Industrial), dois apoios técnicos (egressos do curso de Química Industrial) e o prof. dr. Luiz Pereira, o que gera capacitação profissional para os bolsistas de graduação, apoio técnico e ainda estimula a fixação de doutores no Amazonas”, informou.

O ‘Programa Fapeam: Mulheres na Ciência’ é uma iniciativa que visa estimular a participação de mulheres na coordenação de propostas nas áreas de Ciências Exatas e da Terra, Engenharias e Ciências Agrárias no interior do Estado. O Programa pretende dar visibilidade a projetos e promover o protagonismo feminino no sistema local de CT&I (Ciência, Tecnologia e Inovação). 

Neste ano, mais duas oportunidades exclusivas para mulheres estão sendo oferecidas pela Fapeam, o Programa Mulheres das Águas/Fapeam, e o Programa Kunhã.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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