O ensino da Língua Portuguesa está numa espécie de encruzilhada…, nas escolas de Educação Básica a gramática internalizada é pouco estudada porque essas instituições privilegiam o estudo da gramática normativa, desvalorizando o conhecimento que o discente tem das regras gramaticais intrínsecas de sua língua, ou seja, da gramática que o falante utiliza – que é aquela que está na mente do locutor.
Ângela Franco chama esse tipo de gramática de “gramática da fala”, um sistema de regras interiorizadas pelo falante, desde criança. Irandé Antunes, uma linguista brasileira, assevera que a gramática internalizada deve abranger desde a constituição das sílabas até a formação de frases e períodos. Cabe ao educador saber qual é o nível de linguagem dos seus discentes para proporcionar-lhes a discussão, o confronto e o aprendizado do padrão oficial.
Irandé Antunes salienta, ainda, que o problema não é ensinar ou deixar de ensinar gramática, mas como ensinar as regularidades de uso da língua nos diversos gêneros textuais escritos ou orais usados para a comunicação. Como, por exemplo, que normas ensinar para a produção de uma notícia, um resumo, um requerimento, um memorando etc.. E o que vem sendo ensinado na escola? A língua ou a nomenclatura gramática?
O processo pedagógico relacionado ao ensino de Língua Portuguesa, para os discentes da Educação Básica, costuma se caracterizar pelo ensino do nome das palavras…, expliquemos melhor: os discentes aprendem que tais palavras se chamam substantivos; outras palavras se chamam adjetivos; outras palavras são advérbios; outras são pronomes; outras são numerais; etc., colocando em plano secundário o aspecto mais importante, que é o uso.
É preciso saber gramática para o aprendizado da escrita? Sim, mas precisamos dizer ao aluno que existem outros registros. Os alunos das classes sociais menos aquinhoadas se comunicam de maneira tão boa quanto os das classes abastadas. O aluno tem que entender que é necessário conhecer o dialeto da classe dominante, mas não para se adaptar a sociedade. É imprescindível conhecê-lo porque é uma arma de luta.
Outro desafio é a competição com outras mídias. Ler livros é uma experiência única. Se o professor não consegue passar isso para seus alunos, ele não contribui para um bom ensino de Língua Portuguesa…, por trás da internet, do cinema, da música, etc. está à própria língua! Lançar o desafio da leitura de um livro é estimular a criatividade, aguçar a percepção, dar oportunidade para ampliar conhecimentos de toda espécie – até linguístico.
Carmen Pimentel ressalta: “se o professor não aproveitar para tornar suas aulas mais divertidas, mais dinâmicas, mais criativas está marcando passo. Leitura, tecnologia e visão crítica são as palavras-chave para o ensino de Língua Portuguesa no século XXI”. Isso significa que o professor deve aproveitar as novas tecnologias de comunicação para construir uma visão crítica da sociedade de classes.
O que subjaz essa junção entre conteúdo da Língua Portuguesa e conteúdo social? Nem todos os discentes possuem os mesmos meios de desenvolver a competência leitora, e nem todos aqueles que possuem acesso às redes sociais da Internet, por exemplo, irão desenvolver a escrita da palavra, nem tampouco uma leitura coerente de um mundo em que a dialética da miséria convive lado a lado com a miséria da dialética.
Uma novela da Rede Globo, por mais que o professor concorde ou não com seu conteúdo, pode ser um ponto de saída e de chagada para o processo pedagógico de ensino da Língua Portuguesa. E mais! Uma música como “leque, leque” deve ser levada para a sala de aula não só para servir de exemplo para analisar seu conteúdo gramatical, mas também para mostrar que o “conteúdo melódico e harmônico” é reflexo da educação de nosso país.
Quando a letra de uma música contém versos como “Mina! Teu cabelo é da hora. Teu corpão violão” (Mamonas Assassinas) é porque isso está conectado a um contexto histórico e a um nível de compreensão da sociedade bem diferente de outra música que diz “Vai descendo na boquinha da garrafa”. Não é que uma música seja melhor que a outra, mas é necessário dizermos que os conteúdos musicalizados estão relacionados às maneiras como observamos e enunciamos as coisas do mundo.
O ensino de Língua Portuguesa está em crise não por conta somente das péssimas condições de trabalho a que estão sujeitos os professores e discentes das escolas públicas…, ele está em crise também “porque a solidez das coisas, assim como a solidez dos vínculos humanos, é vista como uma ameaça a qualquer juramento de fidelidade, qualquer compromisso em longo prazo” (como salienta Zigmunt Bauman).
O ensino da Língua Portuguesa (Parte 2)
Em: 24 de maio de 2013
Uma música como “leque, leque” deve ser levada para a sala de aula não só para servir de exemplo
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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