O senhor dos pincéis; do lápis e dos cartazes

Em: 13 de junho de 2019
Marius Bel se notabilizou pelo gigantismo e arte nos seus trabalhos em painéis
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Marius Bel se notabilizou pelo gigantismo e arte nos seus trabalhos em painéis

Quem viveu a época dos cinemas de rua, antes da era dos shoppings iniciada há 28 anos, lembra de como os filmes eram anunciados para o público. Não bastavam os simples cartazes, até hoje existentes, porém digitais, pregados na entrada do cinema. Eram necessários grandes painéis, de vários metros, feitos em compensado.

Ed Lincon Barros, pesquisador dos cinemas de Manaus, conta que fotos desde as décadas de 1930, mostram esses painéis na frente do Guarany, do Odeon, do Avenida.

“Eram basicamente letreiros, com o nome do filme, dos atores principais, os horários de exibição e algum desenho. Descobri que um desenhista mudo fez aqueles painéis, mas não consegui saber seu nome. Na década de 1950 o desenhista Miranda, que depois ficou famoso como chargista de A Crítica, passou a pintar os painéis”, falou.

“Hoje vemos, nas paradas de ônibus, cartazes de filmes sendo divulgados em espaços publicitários. A prática é antiga. Antes os painéis eram colocados não só na frente dos cinemas, mas em áreas da cidade bastante movimentadas”, disse.

Quando as pessoas ‘encheram’ de ver televisão em casa, no final da década de 1970, os cinemas de rua voltaram a ter público, tanto que o empresário Joaquim Marinho, morto no dia 2 passado, chegou a ter dez salas na cidade (antes cada cinema era uma sala). Nessa época o nome da vez na confecção dos painéis era o de Marius Bell, que se notabilizou pelo gigantismo e arte nos seus trabalhos.

“Os maiores trabalhos que eu fazia mediam três metros de altura por doze metros de comprimento e ficavam na marquise do cine Ypiranga (atual TV Lar Ypiranga, na Cachoeirinha) e do cine Novo Veneza (que substituiu o Veneza, que por sua vez substituiu o Eden, na rua Jonathas Pedrosa. Hoje o prédio mantém o nome cine Eden, na fachada, mas está em ruínas)”, lamentou.

Uns nove mil cartazes

Marius Bell começou sua trajetória como cartazista (era esse o nome) de cinema em 1976, no cine Ypiranga, do empresário Adriano Bernardino, onde desenhava pequenas tabuletas com o nome do filme e os painéis gigantes.

“Levava uns quatro, cinco dias para aprontar o trabalho, mas dava para fazer com tranqüilidade, o que mudou quando eu comecei a trabalhar para o Marinho”, lembrou.

Em abril de 1980 Joaquim Marinho inaugurou seu primeiro cinema, o cine Chaplin, na Joaquim Nabuco, hoje abandonado.

“Ele me pediu exclusividade, porque já tinha em mente inaugurar outras salas e com ele a dinâmica do trabalho foi outra. Assim que um filme não dava mais público, Marinho imediatamente o tirava de cartaz e já estreava outro, então eu tinha que estar permanentemente preparado para fazer o painel seguinte”, falou.

“O filme de estréia do Chaplin foi ‘Bye bye, Brasil’, e marcou minha estréia como cartazista de lá. Depois o Marinho inaugurou os cines Renato Aragão, Grande Otelo, Cantinflas, Carmem Miranda, Oscarito, Novo Veneza e mais duas salas no Nova Shopping, na Cidade Nova, que logo fechou”, contou.

“Durante 15 anos, de 1980 a 1995, eu trabalhei para os cinemas do Marinho, e também fiz alguma coisa para o Cinema Novo. Calculo que tenha desenhado uns nove mil cartazes entre pequenos, médios e painéis, em 19 anos”, disse.

Ficaram na mente de quem frequentou o cine Chaplin os trabalhos em terceira dimensão, de Marius Bell, como o Super Homem, que saía da parede; o gigantesco Jason, de Sexta-Feira 13; e o Tubarão, que gotejava sangue dos dentes.

Autor de belos quadros, rapidamente vendidos, desde 2013 Marius se dedica a fazer desenhos personalizados.

“As pessoas encomendam e eu desenho a partir de fotos. É bom porque são trabalhos que faço rapidamente, e ainda levam a minha famosa assinatura”, riu.

Obras gigantescas

A maior obra de Marius Bell é a estátua de Santo Antônio, localizada bem na frente da cidade de Borba. A estátua foi desenhada por Marius, em janeiro de 1997, começou a ser construída em fevereiro e ficou pronta em junho daquele ano. Ela mede 13m de altura. O artista também pintou a nave central da igreja da cidade, ajudado por Lildo Fadoul e Pedro Renato Tavares.

Outros trabalhos gigantescos do artista são a lateral da penitenciária Raimundo Vidal Pessoa, na Cachoeirinha, de 2009, com 1.200m2, concluído em 15 dias, precisando de restauro há muito tempo, e dois murais pintados na fachada do prédio da atual Amazonas Energia, também na Cachoeirinha. Os murais foram pintados também em 2009 e retratam duas fotos antigas, uma que mostra o bonde vindo do centro na direção da Cachoeirinha pela ponte de ferro (Benjamin Constant), e outro estampando a antiga garagem dos bondes de Manaus que, por sinal, ficava no mesmo local onde hoje está o prédio da Amazonas Energia. O prédio foi todo pintado, mas os murais foram mantidos intactos, porém, há dez anos pegando sol e chuva, também estão precisando de uma restauração pelas mãos de seu autor.               

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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