Imagine um automóvel trafegando a cidade A para a cidade B. Com base em um roteiro previamente elaborado, o condutor sabe o destino a ser alcançado, assim como conhece com exatidão em que pontos intermediários precisa parar para realizar alguns ajustes no automóvel (como abastecer e ver o nível de água) e no próprio roteiro (pode ter acontecido algum imprevisto durante o trajeto da etapa anterior. Isso significa que há um destino a ser alcançado em determinado tempo e destinos intermediários a serem percorridos em tempos menores. A soma dos tempos menores vai gerar o cômputo geral da trajetória. Quando falamos em objetivos de médio prazo estamos nos referindo justamente a essa parte do trajeto que não é pequena o suficiente para permitir ação imediata e nem grande o bastante quanto os objetivos estratégicos. Na verdade, os objetivos de médio prazo são uma estratégia mental, lógica e funcional, de organização dos objetivos de curto prazo para que eles sejam convergentes com os objetivos estratégicos. Este ensaio tem como objetivo apresentar o esquema lógico dos objetivos de médio prazo, também chamados táticos, setores ou gerenciais.
Os objetivos estratégicos são muito genéricos. Eles são traduções da visão de futuro e designam o foco ou vetores de atuação institucional para suprir as necessidades ambientais. Os objetivos de médio prazo apresentam um escopo mais definido, mas ainda assim não operacionalizáveis de imediato. Vejamos um exemplo. Se o objetivo estratégico é “Capacitar o corpo de servidores”, um objetivo tático poderia ser “Capacitar docentes de engenharia” e outro poderia ser “Qualificar técnicos de laboratórios”. Note que “capacitar o corpo de servidores” envolve todos os servidores. Para uma instituição pequena, com 30 servidores, por exemplo, pode literalmente envolver todo mundo; mas para uma instituição grande, com milhares de pessoas, isso exige refinamento.
Os objetivos de médio prazo representam justamente isso: refinamento, maior precisão, foco, especificação do que exatamente o objetivo estratégico, de longo prazo, quer dizer. Instituições pequenas parecem não precisar de objetivos de médio prazo porque o horizonte de tempo de seus objetivos estratégicos é curto. É impensável para uma lanchonete com dois servidores pretender objetivos técnicos de 15 ou 20 anos, fenômeno que é obrigatório para todas as organizações que tenham centenas e milhares de colaboradores. Na verdade, é bastante discutível se há objetivos estratégicos em pequenas organizacionais. Mas instituições de pesquisa quase nunca são pequenas, dados os horizontes de tempo em que seus produtos idealizados, materializados e gerem os resultados pretendidos pelos seus usuários ou clientes.
Quando se diz que os objetivos de médio prazo são artifícios lógicos é justamente porque eles dão sentido lógico-operacional para que os objetivos de curto prazo possam ser criados. Os objetivos estratégicos têm maior concentração sobre as atratividades e adversidades do ambiente externo, o que significa que apresentam tendências mais externas, enquanto os objetivos de médio prazo representam um confronto entre o que o ambiente externo deseja e as possibilidades reais, agora e do futuro próximo, de suprimento. Quando é definido que é necessário “Capacitar os servidores”, essa decisão é feita, primeiro, em relação aos reclames externos, ou seja, é necessária para que o suprimento se realize. Mas as áreas de capacitação e a quantificação total dela, por exemplo, só podem ser especificadas, definidas, traduzidas a partir da análise do ambiente interno.
Ainda que haja precisão na escolha dos objetivos estratégicos, é a análise do ambiente interno que vai confirmá-la ou exigir retificações. É esse esquema lógico que marca os objetivos de médio prazo: são o resultado do confronto do que foi definido em relação ao ambiente externo com o que efetivamente a organização é capaz de fazer. Tanto é assim que os objetivos gerenciais já sinalizam os setores de atuação/organização interna que deve capitaneá-los. É por isso que também são chamados gerenciais: sinalizam as gerências, setores, departamentos, unidades internas sob as quais o comando e a reponsabilidade devem se processar.
Um setor é uma parte, subdivisão de alguma coisa. Um objetivo é setorial porque se encarrega de materializar uma parte do todo, que é o objetivo estratégico de que faz parte. Um plano setorial, portanto, é um documento onde constam as traduções do que efetivamente cada objetivo estratégico significa. Sua finalidade é dizer com precisão o que deve ser produzido/alcançado para que, sobre cada objetivo de médio prazo, possam ser elaborados os projetos ou planos de ação. Esses objetivos intermediários quase sempre estão a cargo dos executivos que efetivamente têm a responsabilidade da entrega dos pedidos aos clientes, no caso das atividades-fim, enquanto nas atividades-meio a entrega tem como cliente alguma unidade-fim.
Em termos lógicos, os objetivos de médio prazo são prescrições de como os de longo prazo deverão ser materializados; são intermediários porque ficam entre aqueles e os objetivos de curto prazo. Em termos funcionais, representam a maior amplitude efetiva de controle porque abarcam todos os projetos vinculados a cada um deles. A somatória dos objetivos de curto prazo representam o objetivo de médio prazo e, por extensão, a desses objetivos conformam o objetivo de longo prazo. Há então, por exemplo, objetivos de longo prazo de pesquisa, com seus respectivos objetivos de médio e curto prazos.
Isso tudo permite compreender a ideia de tática como o posicionamento que cada unidade e suas subunidades devem ter em relação a alguma decisão. Essa decisão é o objetivo estratégico, enquanto o posicionamento é justamente a orientação que cada subunidade recebe para que aquela decisão se cumpra. “Capacitar docentes em técnicas de planejamento” pode ser uma tradução da decisão “Capacitar o corpo docente” porque representa um posicionamento interno em relação às coisas externas, que os objetivos de curto prazo materializarão.
*Daniel Nascimento, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)







