Problemas de logística no Amazonas são tão antigos que não faltam estudos sugerindo a melhor opção de transporte para alavancar o desenvolvimento do Estado. Não é de hoje que estudiosos apontam a ferrovia como uma opção barata, com menor custo para instalação e manutenção, o que poderia viabilizar uma nova matriz econômica com base na exploração de minérios.
“Qualquer proposta que venha a defender a exploração sustentável de minérios para dar um novo fôlego ao desenvolvimento do Amazonas é bem-vinda. E a ferrovia se revela como boa viabilidade econômica nessa atividade por exigir menos recursos de governos e empresas. E ainda é de fácil operação”, avalia o economista e professor José Alberto Machado, uma das maiores referências sobre estudos logísticos na região.
Além disso, as ferrovias têm menor impacto ambiental e impedem que eventuais populações ocupem as margens das estradas, poluindo o ambiente, situação que não acontece com as rodovias, segundo Alberto Machado. Ele conta que a proposta de instalação de vias férreas no Estado não é nova e até um estudioso da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e um ex-secretário de governo estadual apresentaram, há pelo menos dez anos, um estudo de doutorado sobre as vantagens de escoar matérias-primas por essa modalidade de transporte. “E de lá para cá, apareceram outras propostas, mas todas acabaram caindo no esquecimento, sem sucesso na prática”, acrescenta. “Nem mesmo o secretário conseguiu viabilizar tão grande ousadia”. Alguns são tachados até de ‘lunáticos’ ao propor rasgar a floresta para construir uma via férrea, já que o Amazonas tem os rios como hidrovias naturais. Mas o problema é o ciclo constante de seca e cheia dos rios, que seria um entrave para desenvolver qualquer atividade desse porte, segundo argumentam especialistas.
Portanto, mesmo com o apoio manifestado por lideranças políticas e empresariais para a construção de estradas de ferro ao longo de anos na região, hoje projetos dessa envergadura ainda encontram grande resistência para sua implementação, principalmente por parte dos órgãos ambientais. Defensor da exploração sustentável de minérios, Alberto Machado diz que jazidas minerais são abundantes em dezenas de municípios do Estado, mas hoje continuam relegadas a segundo plano devido a entraves burocráticos e das rigorosas licenças ambientais que impedem a sua extração.
Ele defende não só extrair e vender matérias-primas, mas também possibilitar agregar valor a produtos que poderiam dar mais oportunidade de empregos e renda à população do interior. “A mineração pode ditar uma nova matriz econômica necessária para fortalecer ainda mais a economia do nosso Estado, que começou com as atividades da Zona Franca de Manaus e de lá para cá tem sido a sua principal e única receita”, afirma. “Temos recursos naturais abundantes que estão à espera de grandes empreendimentos sustentáveis, com base na exploração de minérios”.
A exemplo de seus antecessores e com a mesma promessa de alavancar o desenvolvimento do Amazonas, o professor e empresário de mineração Cristóvam Luiz apresentou recentemente um projeto sobre a viabilidade da construção de uma via férrea – que ele batizou de ‘ferrovia do nióbio’ – para escoar esse metal dos municípios de São Gabriel da Cachoeira, no oeste amazonense, e de Carauari, no sul de Roraima, mais especificamente na região dos Seis Lagos, onde (segundo ele) está localizada uma das maiores jazidas de nióbio do planeta, além de outros minerais com elevado potencial econômico.
O projeto foi apresentado, em março deste ano, durante o 1º Seminário para o Desevolvimento do Setor Mineral no Amazonas, realizado no auditório da Aleam (Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas). Cristóvam argumenta que a via férrea aproveitaria trechos da rodovia Perimetral Norte, construída nos anos 1970, ainda durante o governo militar. “A estrada se estende desde Macapá (AP), com trajeto entre Amapá, Pará, Amazonas e Roraima. E a ferrovia sugerida foi idealizada no trecho entre o Amazonas e Roraima, mas poderá ser ampliada. E os estudos de impacto ambiental, custos etc, deverão ser feitos pelo Ministério do Desenvolvimento e demais órgãos do governo federal”, garante ele.
Segundo Cristóvam, além do nióbio, existem grandes reservas de cassiterita, pedras semipreciosas, ouro e outros minerais na região dos Seis Lagos. “A área entre os dois municípios é uma das mais prósperas em termos de depósitos minerais estratégicos para o mundo, o que representa trilhões de dólares”, acrescenta. “Isso, por si só, já deveria ter merecido atenção especial dos governantes brasileiros como fonte alternativa de riqueza, geração de empregos e renda para a população, além de fortalecer a arrecadação da máquina pública”. De acordo com Cristóvam, a ferrovia do nióbio possibilitaria empregar ainda trabalhadores em serviços de manutenção e conservação da via e nas inúmeras atividades vinculadas ao turismo, comércio e à indústria. Ele garante ter recebido mais apoio do que críticas ao seu projeto.
Insumo indispensável para a indústria
De grande utilidade na indústria, o nióbio é usado como liga para a produção de aços especiais, é resistente à corrosão e a altas temperaturas. É empregado ainda na indústria automotiva, na fabricação de turbinas de aviões, gasodutos, ressonância magnética, tecnologia espacial, entre outros segmentos industriais que demandam material de alta resistência. Hoje, a indústria mundial de transporte disponibiliza a mesma tecnologia automatizada usada em aviões, com piloto automático, para operar ferrovias. Em relação às rodovias por onde trafegam caminhões e outros veículos, os trens podem transportar, a preços menores, maior número de cargas em vagões até por grandes distâncias, sem sofrer praticamente avarias.
Transporte de mercadoria continua como gargalo
Em seus mais de 50 anos de existência, o parque industrial de Manaus ainda se ressente de uma logística sólida para levar seus produtos aos grandes centros consumidores e, com isso, torná-los mais competitivos. Esse é o principal gargalo para a produção e comercialização das mercadorias made in ZFM.
Em relação à mineração, surge uma nova oportunidade de receita, mas falta a infraestrutura adequada para viabilizar novos negócios com foco na exploração de jazidas. Isolado geograficamente do resto do País, o Amazonas tem só as vias rodofluvial e aérea para escoar seus produtos, o que geralmente encarece os preços no mercado consumidor. Nessas condições adversas, fica difícil disputar, portanto, os clientes com uma concorrência desigual existente no mercado.
Para o economista Francisco de Assis Mourão, a ferrovia do nióbio poderia ser uma boa alternativa de transporte barato em relação aos modais fluvial e rodoviário que têm maior impacto negativo nos lucro das empresas. “Antes, porém, devemos esmiuçar estudos que apontem a viabilidade técnica do projeto e ainda as questões sobre danos ao ambiente, já que seriam devastados muitos quilômetros de florestas onde seria construída a estrada de ferro”, diz ele.
Segundo Mourão, hoje quase todo país desenvolvido tem um sólida malha ferroviária que se estende por milhares de quilômetros e transporta todo tipo de mercadoria. “A ideia é ótima e já se mostra viável economicamente desde o século 19, quando os Estados Unidos investiram nesse tipo de transporte e podiam levar quaisquer produtos seja lá onde fosse o destino, desbravando as regiões mais distantes de seu território”, acrescenta. “Ao contrário, o Brasil preferiu investir mais em rodovias, que sempre oneram os custos das empresas”.
Desafio é convencer investidores
O presidente do Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), Wilson Périco, avalia que a projeto pode ter viabilidade econômica, mas antes precisa convencer governos e grandes investidores a se interessarem pela ideia. “Claro, exigiria um estudo minucioso sobre os prós e contras dos investimentos. Afinal, ninguém vai jogar dinheiro fora com um empreendimento dessa envergadura”, afirma.
“Mostra-se como uma alternativa viável. Aliás, não é de hoje que alerto sobre a importância do Amazonas de investir numa nova matriz econômica, que pode ser pela exploração sustentável da mineração”, afirma. O economista e consultor Assis Resende compartilha da mesma opinião, mas informa que a ideia não é nova e difícil de ser viabilizada na prática pela extrema burocracia existente no País. Segundo ele, num passado não muito distante, projetos sobre a exploração da mineração no Amazonas esbarraram no rigor das licenças ambientais e também acabaram fracassando.
Resende cita o exemplo da extração das jazidas de silvinita no município de Codajás, que despertou o interesse de uma empresa canadense, mas o projeto não foi adiante em função das exigências rigorosas impostas pelas leis ambientais para a sua implantação. “As pessoas têm uma ideia muito errada. Acham que com a exploração mineral a floresta amazônica vai virar um formigueiro humano como aconteceu em Serra Pelada, na região do Pará. Hoje a tecnologia de extração de minérios está muito avançada e tem pouco impacto ambiental”, diz o economista.
Além disso, enfatiza Ailson Resende, um projeto dessa dimensão só poderá ser bem-sucedido com o apoio de um grupo político, que sempre tem interesse em lucrar com empreendimentos, e ainda dos próprios governos envolvidos na proposta. “O sonho é factível de realização, mas envolve muito dinheiro e interesses políticos e empresariais de toda ordem”, acrescenta.







