Era uma viagem como outra qualquer. Minto. Havia um objetivo: participar da festa de casamento de nosso sobrinho, filho do irmão de minha mulher. O embarque em Manaus, por tudo o que houve, revestiu-se do inenarrável. Muita confusão e atraso no voo, motivo pelo qual, para não me alongar, fica apenas a citação, permitindo que o não esquecimento do fato nos faça gargalhar ou xingar a cada momento em que fizermos vista d’olhos neste pequeno conto.
O voo foi tranquilo. Minha mulher e meu filho dormiram como crianças de Manaus a Guarulhos. Mas o destino era Paraibuna, que eu não cansava de chamar Guaratuba. Meu filho seguiu para o Rio de Janeiro, a fim de se encontrar com a esposa e levá-la para participar da festa. Minha mulher e eu seguimos para nosso destino em um táxi alugado. Foram quatrocentos e oitenta e sete reais, sem direito a choro ou barganha.
Chegamos ao ponto de táxi do aeroporto de São Paulo. Repletos de malas, aguardamos o primeiro automóvel de maior porte. Um conforto merecido, dado o elevado valor pago, antecipadamente, pela corrida. Assim foi.
Um senhor de idade acima de sessenta anos, corpo encurvado e semblante indicando um cansaço natural, se apresentou a nós. O que meus olhos viram me obrigaram moralmente a, eu próprio, fazer questão de colocar a bagagem no porta-malas do carro. Tudo pronto.
-Para onde vão? Perguntou, solícito, o motorista.
Vamos para Paraibuna, respondi. O motorista retrucou: -onde fica? Meu sangue gelou. A minha mulher atacou, baixinho: -“Vamos em outro táxi, dirigido por quem saiba, no mínimo, como chegar ao destino”. O curto diálogo me apunhalou pelas costas. Já tínhamos iniciado o trajeto. O senhor ao volante percebeu a dupla inquietação, demonstrou no olhar sua tristeza e isto nos consternou.
Vida que segue. Velas ao mar. Barco sem rumo. De imediato, pedimos que contatasse com a sede da empresa, solicitando informações. A péssima comunicação entrecortada, baixa altura e repleta de ruídos, permitia um mínimo de entendimento. Conseguimos, por fim, entender que deveríamos ir pela Rodovia Carvalho Pinto e, encontrando a Tamoios, nela entrar. Logo, logo, surgiriam as placas indicando Paraibuna. A primeira ele conhecia. A segunda, não.
Tempo estimado de viagem: uma hora e meia. O motorista era veloz, dentro dos limites do permitido, e eu, mais cansado do que imaginava, cochilava e cochilava. Em um desses abrir e fechar de olhos, consultei o meu relógio e constatei que o tempo previsto para chegarmos ao destino já tinha batido asas pelo menos em aproximadamente meia hora. Estarreci e despertei célere. Perguntei se estava tudo certo e ele respondeu que sim, até mesmo porque ainda não tinha encontrado as placas indicando a proximidade de Paraibuna.
Vinte minutos depois, o questionei sobre a prudência de parar e perguntar. “Quem tem boca vai a Roma”, este o ditado popular. De pronto, fui rechaçado. Insisti e aquiesceu. Cedeu e ouviu de um informante qualquer: – “Vocês já passaram da entrada de Paraibuna faz quarenta minutos. Deveriam ter entrado na Tamoios”.
Sem delongas, fizemos o primeiro retorno possível, paramos no posto de combustível que primeiro se apresentou e pedimos a devida orientação. Nosso interlocutor nos olhou com aquele olhar e sorriso que diz: “estão enrolados”, mas prestou as informações necessárias para chegarmos ao destino desejado.
O detalhe, somente constatado no trajeto de Paraibuna para o Rio de Janeiro é que, no momento em que nos descobrimos perdidos, estávamos à beira da Rodovia Presidente Dutra, nos limites de São José dos Campos, distante quarenta minutos da Tamoios, rodovia que nos levaria ao destino desejado. Vendo as primeiras placas, ligamos para o aparelho celular do noivo, que nos passou informações complementares.
Mesmo assim, se eu não insistisse com o nosso guia para pararmos em um posto de combustível, meio escondido na estrada, para perguntarmos, teríamos vivido outro revés e passado direto pela entrada da cidade.
Novamente falei Guaratuba. Um sorriso divertido e condescendente serviu como início de resposta. Guaratuba é muito longe daqui, mas Paraibuna é bem aqui ao lado, descendo a rua e dobrando à esquerda. Gozação geral. A Rua Coronel Camargo e o Santinho Hotel, que procuram, encontram-se na sequência dela. Fim de estrada. O motorista se foi. E não me perguntem se teve ou não prejuízo ou encontrou o caminho de volta. Haja viagem.
Saboreado o café da manhã, resolvemos deixar de lado o sono e o cansaço para depois e nos dispusemos a conhecer a cidade. Em pouco mais de curtos quarenta minutos vistoriamos a cidade. Bancos, correio, praças, o mercadão e a Catedral onde se realizou o casamento. Todos devidamente catalogados.
Paraibuna é uma cidade típica do interior. Pequena, aconchegante, onde todos se conhecem pelo nome, exagero à parte. Entretanto, presenciamos uma determinada senhora conversando com outra, dizendo que não iria à loja do “Joaozinho” comprar determinado produto naquele dia porque precisava prestigiar também a loja do “Pedrinho”. Em pleno 2015, isto é sensacional.
O frio salutar e mediano, aceitável por um carioca residente em Manaus, acolhia com alegria um tímido sol, a aquecer nossos corpos na medida exata em que ludibriava as nuvens vagando no céu, para fazer chegar até nós os seus raios de luz.
Houve um detalhe, porém, que me chamou a atenção. A cada esquina de rua, as placas denunciavam nomes de Oficiais militares ou de autoridades da Igreja. Era um sem fim de rua Major, Coronel, Capitão, Tenente, Papa, Padre, Madre, Monsenhor, todas com os nomes próprios dos homenageados.
A curiosidade cutucava meu pé de ouvido. Parei na birosca da esquina, perguntei, e veio a explicação: aquelas personalidades, ou eram Oficiais da Polícia Militar de Paraibuna ou autoridades da Igreja Católica. Tempos do Império. Outra história a ser contada. Na verdade, os homenageados fizeram algo de relevante para o município. Cidade pequena tem muito disso.
Outro fato significativo foi a Banda de Música, composta de crianças e jovens. Eles tocavam em praça pública, do clássico ao popular, sob a regência de um jovem maestro. Plateia certa, a aplaudir sorridente e feliz. Algo digno de não mais esquecer.
O casamento? Parodiando determinado programa humorístico, “prefiro não comentar” qualquer coisa além de que José Augusto, fruto daquela união, hoje tem 3 meses de vida.
Assim conheci Paraibuna, reafirmei a crença de existirem outros tantos belos “Brasis”, dispersos nessa imensidão continental que tanto desconhecemos, prontos para serem, pouco a pouco, redescobertos, com toda a sua exuberância, história, contos e “causos”.







