O mercado financeiro aposta que o Copom (Comitê de Política Monetária) deve voltar a segurar a Selic em 13,75% ao ano, em sua segunda reunião deste ano. Embora tenham reduzido suas projeções para inflação e juros para este ano, os analistas financeiros consultados semanalmente pela Pesquisa Focus do Banco Central avaliam que a taxa referencial dos juros básicos da economia brasileira deve ser mantida nesta reunião, que se encerra nesta quarta (22) e próxima, marcada para 2 e 3 de maio. Economistas ouvidos pela reportagem do Jornal do Commercio se dividem quanto a essa questão.
A Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) também prevê que a Selic seja mantida, mas defende sua redução, em virtude do comportamento mais palatável da inflação e do estado pré-recessivo da economia, diante do encarecimento do crédito demonstrado pelas pesquisas da entidade, que já emendou sua 26ª rodada consecutiva de altas em fevereiro.
Os juros bancários passaram por reajuste médio de 0,14% para as pessoas físicas, com destaque para o empréstimo pessoal em bancos (+0,49%). A remuneração anual para cartões de crédito já chegou a 412,04%.Os juros médios para as famílias estão em 6,96%, ao mês, e 124,1%, ao ano. Para as pessoas jurídicas, a majoração média foi de 0,25%, sendo que o único aumento veio do capital de giro (+2,84%). Os empréstimos às empresas estão custando, em média, 4,05% mensais e 61,03% anuais.
Segundo a edição mais recente do Boletim Focus, a Selic deve ser mantida no atual patamar, tanto nesta reunião do Copom, quanto na próxima. Realizada com uma centena de economistas, a sondagem mostra estimativa de redução de apenas um ponto percentual na taxa até o fim do ano, quando deve encerrar em 12,75%. A projeção para 2024 também foi mantida, a despeito das turbulências no setor bancário global e das expectativas sobre o novo arcabouço fiscal brasileiro. Já as apostas para a alta do IPCA caíram para 5,95%, em 2023, e subiram para 4,11%, em 2024.
“Desemprego e endividamento”
O vice-presidente de estudos e pesquisas da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira, ressaltou à reportagem do Jornal do Commercio, por meio de sua assessoria de imprensa, que o Banco Central provavelmente vai manter os juros básicos inalterados, pois “já vem sinalizando isso”. O dirigente enfatiza, contudo, que o BC deveria baixar a Selic.
“Nada justifica o patamar em que a taxa se encontra hoje. Na nossa opinião, ela deveria baixar, haja vista o ambiente econômico que estamos vivendo. A inflação ainda está um pouco acima da meta, isso é fato. Mas, ela saiu dos dois dígitos e já caiu bastante. Temos desemprego e endividamento elevados na população, e as revisões do PIB brasileiro são cada vez menores. Tudo isso está afugentando investidores e temos fábricas fechando ou reduzindo produção”, lamentou.
Em entrevistas anteriores, Miguel Oliveira observou, contudo, que uma eventual redução nos juros básicos demoraria para se refletir na ponta do crédito, já que a Selic é apenas um dos itens que compõem a precificação dos empréstimos bancários, eo maior peso na composição das taxas ainda vem do risco de inadimplência.
“Especulação e expectativa”
A ex-vice-presidente do Corecon-AM (Conselho Regional de Economia do Amazonas) e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, destaca que a chamada “super quarta” é o dia em que serão feitos os anúncios das taxas de juros do Brasil e dos EUA, em uma conjuntura de “muita especulação e expectativa”. Mas, a economista diz não ver margem para uma queda nos juros no curto prazo.
“Três fatores pesam para isso: a necessidade de ajuste nas contas públicas, o comportamento dos juros nos EUA e a inflação persistente. Quanto ao aspecto macroeconômico, temos uma crise de crédito (caso Americanas), expectativa na apresentação do novo arcabouço fiscal brasileiro, e uma crise bancária que tem origem nos EUA. Não acredito que a autoridade monetária ceda às pressões do governo e de analistas e deixe de proteger a economia o que, no longo prazo, provocaria ainda mais inflação.
Sobre as taxas bancárias, Michele Lins Aracaty e Silva, salienta que os fatores que mais impactam e que contribuem para tanto são os “calotes” e o elevado número de pessoas físicas e jurídicas inadimplentes. “Para os próximos meses, a Selic deve ser mantida em 13,75% e vejo um cenário mais favorável para queda somente em 2024”, sentenciou.
Prudência e risco
A consultora empresarial, professora, conselheira do Cofecon (Conselho Federal de Economia) e integrante da seção regional da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia, Denise Kassama, diz que, embora a inflação oficial tenha dado uma “ligeira subida” de 0,84% em fevereiro, o IPCA acumulado em 12 meses não passa de 5,60%, situando-se “bem abaixo” da atual Selic de 13,75%. Mas, segundo a economista, o fator prudência tende a ser decisivo nas decisões do BC.
“Há uma pressão para essa redução, e ela é mais política do que econômica. A Selic está o dobro da inflação e, embora não seja o principal indicador, é a mais usada comumente. Há espaço e necessidade para essa diminuição. Mas, por uma questão de cautela, se a taxa cair, certamente vai ser bem pouco. Seria uma forma de o BC atender essa demanda e mostrar que está alinhado com o governo,, sem perder a imagem de prudência”, ponderou.
Denise Kassama explica que, independentemente das decisões do Copom nesta e nas próximas reuniões, os bancos e administradoras de cartão de crédito tendem a manter os juros em patamar elevado. “Isso acontece por conta do alto índice de inadimplência. São recursos que trazem muito risco para o emprestador”, reforçou.
“Pressão forte”
O ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Junior, concorda que, diante dos números apresentados, a Selic já deveria ter baixado e cita que há uma “pressão forte” para que isso aconteça. Embora lembre que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, goza de autonomia e não pode ser substituído antes da função antes de 2024, o economista avalia que a piora no cenário econômico deve surtir algum efeito no Copom, e aposta em uma redução de 0,5% na taxa.
“Seria um sinal para o mercado. O BC vem trabalhando com meta de inflação de 3,25% e teto de 4,75%, mas o IPCA está baixo e não há justificativa para juros tão altos. A conjuntura da economia global, com guerra na Ucrânia, e crise bancária nos EUA, gera instabilidade nos mercados. E a própria política econômica brasileira vem no confronto com essa questão. Para completar essa pressão, as montadoras de automóveis anunciaram a paralisação de produção e um dos motivos é a redução das vendas, por conta justamente dos juros”, arrematou, acrescentando que a inadimplência e a própria desaceleração do PIB devem contribuir para que os bancos continuem carregando em seus juros.







