A Polícia Federal está pronta para ajudar a Justiça Eleitoral na manutenção da segurança nas eleições municipais deste domingo em Manaus. Há cinco anos no comando da Polícia Federal no Estado do Amazonas, o superintendente Sérgio Lúcio Mar dos Santos Fontes, em entrevista ao Jornal do Commercio, fala sobre eleições e o combate ao tráfico de drogas nas fronteiras do Brasil, atuando em parceria com os departamentos da Colômbia e do Peru.
Jornal do Commercio – Domingo haverá eleições. Como a PF vai atuar para assegurar a paz e a ordem do pleito eleitoral?
Sérgio Fontes – Estamos cem por cento prontos na capital e no interior. Mandamos efetivos para 15 cidades interioranas: Tabatinga, São Gabriel da Cachoeira, Tefé, Santo Antônio do Içá, Maués, Autazes, Presidente Figueiredo, Parintins, Coari, Urucurituba, Manacapuru e São Paulo de Olivença, dentre outros. Na última terça-feira (2) flagramos um candidato com R$ 27,5 mil em espécie em Barcelos. Em Maués, o juiz agiu e nós o atendemos, investigamos e constatamos a existência de uma rádio clandestina. Isso vai virar um processo. E vale dizer que a PF só age de ofício em flagrante delito nos casos de problemas eleitorais. Fora do flagrante, temos que passar pelo crivo do juiz eleitoral e do promotor eleitoral. De forma que a PF está preparada para ajudar a Justiça Eleitoral na segurança das eleições em todo o Estado, não apenas em Manaus.
JC – Faça um balanço das suas ações à frente da Polícia Federal no Estado do Amazonas?
S. Fontes – Estamos há quase cinco anos à frente da PF no Amazonas, o que não é muito comum, já que o tempo médio são dois anos. Viemos da Superintendência de Rondônia, onde passamos um ano e meio. Em abril deste ano completei quatro anos no Amazonas. Consequentemente, minha missão caminha para o final. Nós nos empenhamos na parte humana e em 2008 fizemos a Operação Vorax, e temos algumas dezenas de operações importantes. Seguindo orientações do Departamento Nacional de Polícia Federal, não fazemos megaoperações, pois já está comprovado que o Poder Judiciário não tem capacidade para digerir isso sozinho. São muitas informações que chegam ao Judiciário. Então, a gente tem feito operações menores, com menos alvos, preservando as imagens dos investigados. Seguimos as orientações nacionais e fazemos operações enxutas, com prazos menores. Em termos materiais, fizemos uma reforma geral da PF, que estava há 20 anos sem reforma. E estamos com projetos sociais, com a ajuda da Universidade do Amazonas, para melhorar a qualidade de vida dos funcionários. Na parte de esporte, na parte de saúde mental, combatendo alcoolismo, tabagismo, obesidade, estresse. Durante minha administração houve duas tragédias, inclusive uma explosão dentro da sede da PF, com a morte de três peritos, o que superamos graças a Deus. Tivemos também a morte de dois colegas em combate em novembro de 2010, um deles Mário Lobo, um dos nossos melhores instrutores de tiro.
JC – E o combate ao narcotráfico?
S. Fontes – Estamos batendo recordes de apreensão de drogas, embora isso não seja mais o objetivo principal da PF. Qualquer quantidade de droga que a gente apreenda é infinitamente menor do que a capacidade produtiva dos laboratórios da região. O que dá mais resultado é o combate às organizações criminosas, ao dinheiro do tráfico, e a gente ir ao local onde a droga é produzida e destruir o local. Através de acordos bilaterais, a gente tem apoiado as polícias nacionais do Peru e da Colômbia, erradicando plantações de coca, destruindo laboratórios clandestinos. Em apenas uma operação, a destruição de laboratórios e plantações impediram que oito toneladas de drogas fossem transportadas do Peru para o Brasil, e nós nunca apreendemos oito toneladas de drogas em apenas um ano. Nossos recordes são quatro toneladas de cocaína com cem por cento de pureza. E estamos investindo na nossa presença cada vez maior na região. Vamos reinaugurar, agora em novembro, a base Anzol, um marco do Alto Solimões, um pouco abaixo de Coari.
JC – O Amazonas é hoje um corredor e um grande centro de consumo de drogas?
S. Fontes – O Estado é corredor há tempos. Mas, agora, nós viramos um país consumidor, deixamos de ser um país de transporte de drogas. Projetos como o de combate ao crack têm sido bem-vindos, mas projetos para deixar a questão das drogas somente nas mãos da polícia criminal não funcionaram. Temos que partir para outras linhas de ação, como a campanha contra o crack, campanhas educativas no combate à plantação de folhas de coca nas fronteiras do Brasil, o que não ocorria há cinco anos. Vale dizer que essa plantação visa abastecer exclusivamente o mercado brasileiro. Os traficantes não vão até o final da cadeia produtiva, eles vão até a pasta base. Como o Brasil consome pasta base, eles não vão até o cloridato de cocaína para colocarem a droga nos mercados da Europa e dos Estados Unidos. A ONU estima a plantação de folhas de coca em 3 mil hectares, mas o governador de Loreto (Peru) diz que são 40 mil hectares.
JC – As operações da PF mostraram o conluio de políticos e empresários com esquemas de corrupção. A propósito disso, até que ponto a CPI do Cachoeira e o julgamento do escândalo do mensalão, envolvendo o Partido dos Trabalhadores, ajuda a melhorar o combate a esses esquemas, facilitando o trabalho da PF?
S. Fontes – Sem dúvida alguma os fatos recentes são positivos. Se a gente prestar atenção no julgamento do mensalão no âmbito do Supremo Tribunal Federal, a gente tira inúmeras lições. O STF dá um novo norte pra gente, dá ao cidadão brasileiro a certeza de que este já não é mais um país que incentiva a impunidade, e o policial também se sentirá mais valorizado e mais efetivo, mais animado. Só tem coisa boa essa nova postura do Poder Judiciário.
JC – E como está a PF em termos de infraestrutura?
S Fontes – Nosso pessoal, menos de 200 policiais, ainda é muito pequeno, e nós precisaríamos de pelo menos o triplo do que nós temos para fazermos o mínimo. Outro problema é a logística.
JC – Como a PF combate os crimes ambientais no Amazonas?
S Fontes – O crime ambiental está associado ao narcotráfico e nós temos buscado parcerias com as polícias Militar e Civil, por meio de convênios. Acho que, com tecnologia, a gente poderia estar bem melhor. Firmamos parcerias com o Ibama, com o Ipaam, assim como com órgãos municipais e as Forças Armadas. Sem apoio dos municípios e do Exército, ninguém consegue trabalhar. Temos problemas muito sérios no sul do Amazonas, uma espécie de espinha na garganta, lá a situação é preocupante, o Estado deveria estar mais presente.






